30.12.11

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Farol de Santa Marta (Laguna-SC)
DESTRUÍRAM A PRAINHA


Prainha na manhã de 30.12.2011. Foto: Celso Martins

Por ação e omissão do poder público a Prainha do Farol de Santa Marta (Laguna-SC) está com os dias contados. Confira as postagens sobre o tema no Portal de Notícias Daqui na Rede.

27.12.11

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Eric Hobsbawm sobre 2011:
“Fez-me lembrar 1848...”



Eric Hobsbawm* assistiu às revoltas de 2011 com entusiasmo – e diz que, hoje, quem move as ondas populares é a classe média, não os trabalhadores. “Foi imensa alegria ver, mais uma vez, que o povo pode ir às ruas, manifestar-se e derrubar governos” – diz Eric Hobsbawm, no apagar das luzes de um ano de levantes populares no mundo árabe.

Hobsbawm viveu toda sua longa vida à sombra – ou à luz – de revoluções. Nascido alguns meses antes da Revolução Russa de 1917, foi comunista durante praticamente toda sua vida adulta – além de pensador e escritor inovador e influente. Foi historiador de revoluções e várias vezes militou a favor de mudanças revolucionárias.

Já chegado aos 95 anos, a paixão política sempre viva reflete-se no título de seu livro mais recente Como mudar o mundo [1] [São Paulo: Companhia das Letras, 2011] – e no ativo interesse pelos levantes populares no mundo árabe.

“Não há dúvidas de que me sinto entusiasmado e aliviado” – diz ele, em conversa em sua casa no norte de Londres, bem próxima de Hampstead Heath, casa de paredes cheias de livros de História em várias línguas, e sobre jazz.

“Se alguma revolução ainda é possível, terá de ser mais ou menos como o que estamos vendo. Pelo menos nos primeiros tempos. Gente saindo às ruas para manifestar-se a favor das coisas certas.” Mas logo acrescenta: “Sabemos que não vai durar.”

O historiador que há nele logo vê um paralelo entre a ‘Primavera Árabe’ de 2011 e o “ano das revoluções” na Europa há quase dois séculos, quando um levante na França foi logo seguido por outros nos estados italianos e germânicos, no Império dos Habsburgos e em outros pontos.


Democracias árabes?

“Fez-me lembrar 1848” – diz ele – “outra revolução surgida num país que depois, em pouco tempo, se espalhou por todo o continente.”

Para os que encheram a Praça Tahrir e hoje se preocupam com o futuro de sua revolução, Hobsbawm tem uma palavra de conforto.

“Dois anos depois de 1848, tudo parecia mostrar que a revolução fracassara. No longo prazo, viu-se que não fracassou. Houve muitos avanços progressistas. Aquela revolução fracassou, se analisada no calor da hora; mas, foi vitoriosa, pelo menos parcialmente, vista de mais longe. Embora, depois, já não sob forma de revolução.”

Seja como for, exceto talvez no caso da Tunísia, Hobsbawm vê pouca probabilidade de haver democracias liberais representativas, de estilo europeu, no mundo árabe. Tem-se dado pouca atenção, diz ele, às diferenças entre os países árabes nos quais tem havido manifestações de massa: “Estamos no meio de uma revolução – mas não é a mesma revoluções em todos os lugares”.

“Todas são parecidas, porque há em todas um mesmo descontentamento, e as forças mobilizáveis são semelhantes – uma classe média em modernização, sobretudo os estudantes jovens dessa classe média e, evidentemente, a tecnologia que torna hoje muito mais fácil mobilizar os que se queiram manifestar.”

Para Hobsbawm, as mídias sociais começaram a ter alguma significação para os movimentos globais, na campanha de eleição do presidente Obama nos EUA, que conseguiu mobilizar amplas fatias da população, até então politicamente inativas, através da Internet.

Para ele, “as atuais ocupações, na maioria dos casos, não são protestos de massa, os 99% não estão nas ruas, mas lá está o sempre mobilizável famoso “exército de palco” [2] de estudantes e militantes da contracultura. Algumas vezes, encontram eco na opinião pública, como se vê claramente nas ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas.”

Mas, em todo o mundo, a esquerda da qual Hobsbawm fez parte – como militante, cronista e, pelo menos como intenção, modernizador – está hoje à margem dos protestos de massa e das ocupações.

“A esquerda tradicional foi gerada num tipo de sociedade que já não existe, ou está saindo de cena. Aquela esquerda acreditava no movimento trabalhista de massa como agente que criaria o futuro. Hoje, o trabalho mudou – e fomos desindustrializados – e aquele projeto daquela esquerda deixou de ser viável.”

“Hoje, as mobilizações de massa mais efetivas brotam sobretudo de uma classe média modernizada de um corpo de estudantes imensamente inchado. São mais efetivas nos países nos quais, demograficamente, a população jovem, homens e mulheres, são fatia maior da população, do que o que se vê na Europa.”

Eric Hobsbawm não espera que as revoluções árabes tenham alcance maior no resto do mundo, não, pelo menos, como semente de revolução mais ampla. O mais provável, diz ele, é que os reformadores árabes sejam postos de lado por grupos islamistas, como já aconteceu no Irã.

Segundo ele, deve-se esperar, isso sim, um movimento gradual de reformas, como já se viu nos anos 1980s, quando, por exemplo, na Coréia do Sul, os movimentos jovens e de classe média, obtiveram algumas conquistas contra o poder dos militares [mas, no resto do mundo, a única reforma que se viu foram os muitos movimentos jovens e de classe média, serem cooptados pelo neoliberalismo mais selvagem, como se viu na Argentina e no Brasil, por exemplo (NTs)].


Uma revolução em idioma político do Islã: o Irã, 1979

Quanto aos dramas políticos que ainda se desenrolam nos países de língua árabe, Hobsbawm chama a atenção para o caso do Irã, em 1979, onde, embora se fale língua persa, aconteceu a primeira revolução concebida no idioma político do Islã. Para ele, um aspecto daquela revolução, pelo menos, encontrou eco nas revoluções do mundo muçulmano nos últimos meses:

“As pessoas que fizeram concessões ao Islã, mas não eram, elas próprias religiosas islâmicas, foram marginalizadas – por exemplo, os reformistas liberais e os reformistas comunistas. O que está emergindo como ideologia das massas árabes, não é a ideologia dos que iniciaram as manifestações.”

Embora os levantes árabes o tenham enchido de alegria (até de “alívio”), Hobsbawm vê esse aspecto como “desenvolvimento não previsto e não necessariamente bem-vindo”.


Notas dos tradutores

[1] O livro foi resenhado por Terry Eagleton na London Review of Books (23/2/2011, “Indomáveis”, Terry Eagleton, London Review of Books, em português.
[2] Orig. stage army. A expressão aparece na didascália da peças de Shakespeare, para designar grupos de coadjuvantes que cruzam o palco, desaparecem nas coxias e adiante, reaparecem, como a narrativa exija, e tornam a desaparecer nas coxias.


*Entrevista a Andrew Whitehead, BBC World Service News, London. Eric Hobsbawn on 2011: “It remind’s me of 1848...” Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.

26.12.11

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O PÔSTER NA PAREDE

Por Olsen Jr.

Recebo poucas visitas aqui em casa. Não é que esteja me tornando (as)social ou misantropo. Ou então, pior, em uma ação premeditada tentando “criar” um tipo mais ou menos como o do escritor Dalton Trevisan ou J. D. Salinger, porque a imaginação aguça a curiosidade e assim se pode mitificar o desconhecido tornando, quem sabe, a obra mais interessante.

A verdade é que pretendo deixar o “mundanismo” lá fora mesmo. Para se discutir obviedades há os botecos da vida. Claro que se pode fazer de qualquer canto uma espécie de taberna privilegiada, ou como disse outro dia, bem anotado pelo Horácio Braun em seu eclético cardápio “sou um boêmio, está certo, mas adoro minha casa, para mim é o meu segundo bar”. Não escondo o riso, assim posto, tudo parece muito simples.

Portanto, quando o meu sobrinho ligou indagando se podia me visitar porque tinha um trabalho para fazer na universidade e precisava discutir algumas idéias comigo, assenti. Costumava brincar afirmando que ele era o meu sobrinho favorito, o que era verdade. Inteligente, educado, com interesse igual por literatura, música, artes. De certa forma me enxergava nele quando tinha a sua idade.

No começo falou rapidamente sobre a importância das bebidas para a formação e consagração de talentos (ou não) desde o café e o álcool, passando pelo renascimento até nossos dias. Disse que era um ponto de vista interessante e tinha muito material. Mas percebi que não era bem aquilo que ele pretendia falar comigo, parecia ser mais um aquecimento antes de entrar no busílis (gostaram? Sempre quis usar esta palavra em algum lugar) da questão.

Depois o surpreendo em frente de um pôster na parede, representando num bico de pena, o Cavern Club, lugar onde os Beatles tocavam quando foram descobertos por Brian Epstein que viria a ser o seu primeiro empresário.

O quadro tinha uma história, aliás, como tudo ali. Fora presente de um marujo inglês que o trouxera de Londres e dado a Trude, proprietária de um bar à beira do cais na cidade de Itajaí. O bar era todo decorado com bandeiras de navios de dezenas de países. O pôster do Cavern Club era uma raridade e ficava em frente do balcão. Várias pessoas tinham tentado comprá-lo, inclusive eu, na primeira vez em que lá estive. A proprietária era inflexível, “não estava à venda e pronto”.

--- Como ele veio parar aqui, então? Quis saber.

--- Explico: o bar era freqüentado por médicos, advogados, prostitutas, gente do lugar, estrangeiros, turistas e a marujada que batia ponto ali. No dia em que pretendi comprar o dito, diante da negativa, pus-me a falar dos Beatles para o amigo que me acompanhava, ali mesmo no balcão, bebericando cerveja, olhando para o pôster na nossa frente e monologando sobre os Beatles. Falei, acredito, durante mais de duas horas sobre o assunto. Parecia que estava conversando sobre a minha própria família, tal a intimidade com fatos e coisas deles. Enquanto falava, percebi que a Trude estava sempre nas proximidades, ouvia o que estava dizendo, e para surpresa de todos ali presentes, quando terminei, ela foi até a parede, tirou o quadro, passou um pano devagar, com carinho, como se estivesse em uma cerimônia de adeus, e me deu de presente. “Toma, é teu!”. Não acreditei. “A senhora sabe o que está me dando? Questionei”. “Sim, é teu”. Um médico que estava vendo tudo me disse, “não sei o que você fez, mas meus parabéns fazem mais de três anos que venho tentando comprar este quadro”.

Depois da história sobre o pôster, a conversa se descontraiu um pouco, mas ele não dizia a verdadeira razão para estar ali, o que queria comigo? Também, não sabia como podia ajudá-lo. Nisso toca o celular, ele atende, afirma que a sua mãe veio buscá-lo e ele não pode perder a carona. Combinamos então, para hoje, a tal conversa, daqui a pouco ele deve estar chegando, penso!

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A música é esta “Im My Life”, do disco
Rouber Soul” (1965) dos Beatles...



John Lennon a considerava “sua” primeira obra-prima...
Refere-se as perdas que vamos acumulando na vida (amigos, pessoas que amamos) e também aos lugares que vão sendo desfigurados, das nossas referências que são alteradas... Nem sempre para melhor...
Mas, de tudo sempre resta algo, talvez aquele amor, você, ele ou ela... Que não se esquece...
Embora a via continue e no fundo, continuamos também, sempre sozinhos...
É uma das minhas canções (dos Beatles) favoritas... (Olsen Jr.)

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Natal molhado. Fotos: Celso Martins

24.12.11

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MENSAGENS RECEBIDAS

Da lagunense Maria de Fátima Barreto Michels.



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A AMAPESCA deseja a você e familia um feliz natal, e que o Espirito de Natal esteja com todos nós diariamente, assim tornando uma realidade a fraternidade entre todos os Homens do nosso planeta terra. (Associação dos Maricultores e Pescadores da Cachoeira do Bom Jesus).

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Este velho pps tem rodado todos os anos pelos e-mails, quase todo mundo já viu, não se sabe o autor, mas é um dos mais graciosos cartões de natal.
Com ele, desejo a todos os amigos e suas famílias, um FELIZ E NATAL e um FELIZ ANO NOVO.
Que a festa da natividade de Jesus traga felicidade a todos.

Márcio Rodrigues e Família.

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Queridos Amigos

Um Natal de muita paz, saúde e união!
E que as energias positivas destes dias, perdurem por todo o ano de 2012.

Beijos carinhosos

THERE

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Amigos queridos,

Que o espírito do natal perdure em nossos corações durante todo o ano de 2012, como fonte de esperança, fé e fraternidade.

Abraços,
Regina e Ben

ALGO MAIS NO NATAL

Senhor Jesus!
Diante do Natal, que te lembra a glória na manjedoura,
nós te agradecemos:
a música da oração;
o regozijo da fé;
a mensagem de amor;
a alegria do lar;
o apelo a fraternidade;
o júbilo da esperança;
a bênção do trabalho;
a confiança no bem;
o tesouro da tua paz;
a palavra da Boa Nova;
e a confiança no futuro!...
Entretanto, oh! Divino Mestre,
de corações voltados para o teu coração, nós te suplicamos algo mais! ...
Concede-nos, Senhor,
o dom inefável da humildade para que tenhamos a precisa coragem de seguir-te os exemplos!

EMMANUEL
(Do livro “Luz do Coração”, Francisco Cândido Xavier - Edição CLARIM)

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Olá amigos do Varal!

Voltamos de uma viagem a Santa Catarina onde participamos ativamente da 26ª Feira Catarinense do Livro, em Florianópolis. Um sucesso está sendo a Feira!
E voltando justamente para este frio europeu, resolvemos nos aquecer com as novidades do Varal!
Novidades? Tem muitas? Tem sim!
Estamos selecionando autores para o catálogo da Livraria Varal do Brasil para o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra 2012. O catálogo, que será editado e impresso colorido e em Francês, apresentará os autores de língua Portuguesa aqui na Europa para visitantes, agentes literários e editores. Você não vai deixar seu livro ficar de fora! Entre em contato pelo nosso e-mail varaldobrasil@bluewin.ch e peça as informações sobre como participar.
E se você foi selecionado para o livro Varal Antológico II, não se esqueça de preencher a ficha de adesão enviada para garantir sua participação. Não recebeu? Manda e-mail aqui pra gente! As últimas vagas estão sendo preenchidas na próxima semana!
A edição de Natal e Ano Novo está sendo distribuída e temos a alegria de dizer que já foi recebida por e-mail e baixada nos cinco continentes. São os autores do Varal seguindo firmes no caminho da divulgação da nossa literatura! Não viu ainda? Tem no site (www.varaldobrasil.com) e no blog (www.varaldobrasil.blogspot.com).
Para a edição de janeiro as inscrições estão fechadas, a revista sairá na primeira quinzena de janeiro de 2012. As inscrições encontram-se abertas para a edição de março, com o tema Paz e Amor: Faça Amor e Não a Guerra! Peça o formulário e venha participar conosco! Toda participação na revista é gratuita!
Neste mesmo caminho segue a Livraria Varal do Brasil que, além do catálogo para o Salão do Livro, também prepara uma série de atividades para o ano de 2012.
Gostaríamos de contar para vocês duas novidades de nossa editora: Jacqueline Aisenman* recebeu o prêmio de melhor livro do ano de 2011 (categoria contos) da Academia Catarinense de Letras com o livro Lata de Conserva. E acaba de lançar o livro de pensamentos Palavras Para o Seu Coração pelo Selo Editorial Varal do Brasil. O livro Palavras, que acaba de nascer, já está alcançando um excelente índice de venda!
Quer editar o seu livro? No Brasil temos parceria com a Design Editora e fazemos seu livro com o selo Varal do Brasil. Na Europa temos pareceria com as Edizioni Mandala. Assim, acompanhamos você de perto lá e cá.
E claro que agora ficou ainda mais fácil de saber todas as novidades do mundo cultural: Além dos sites www.varaldobrasil.com e www.livrariavaral.com o Varal do Brasil tem o seu blog de difusão cultural! www.varaldobrasil.blogspot.com. Você pode enviar seus eventos para divulgação e pode ler tudo o que anda sendo divulgado por lá! Além disto, você pode enviar também suas crônicas, contos, poemas, etc., para serem publicados no blog! Varal do Brasil, um blog cheio de pequenas surpresas!
Enviar seus livros para nossa Livraria, editar seu livro, participar da revista, do catálogo, da antologia... Nossa! Como tem novidades no Varal! Para saber detalhes de cada um dos assuntos, você já sabe: varaldobrasil@bluewin.ch

E neste momento festivo aproveitamos para desejar a você um Feliz Natal e um Ano de 2012 pleno de sucesso, saúde e realizações!
O Varal do Brasil estará de férias entre 23 de dezembro e 02 de janeiro.
Voltaremos em 2012 com toda a alegria para estar junto de vocês divulgando nossa cultura!

Um grande abraço,
A Equipe do Varal

Revista VARAL DO BRASIL
Livraria VARAL DO BRASIL SARL

www.varaldobrasil.com
www.livrariravaral.com
http://varaldobrasil.blogspot.com/

*A lagunense Jacqueline Aisenman é Representante da REBRA na Suíça, membro da Academia de Letras do Brasil, conselheira Interanacional da LITTERARTE, membro da União Brasileira de Escritores (UBE), membro Correspondente da Academia de Teófilo Otoni e da Academia de Artes de Cabo Frio (ARTPOP).

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Que este dia possa lhe trazer
Momentos de fé e de esperança.
Que você possa fazer deste dia...
Todos os dias da sua vida.
Que a paz possa reinar...
Eternamente em seu coração...
Deixando que a alegria...
Se manifeste em todos os momentos
Da sua vida.
São os nossos sinceros desejos...
Da Familia Blanco
Para este Natal e todo o Novo Ano que se aproxima!!!

JOSE CARLOS BLANCO, MARIA HELENA E FAMILIA

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QUEIRA RECEBER NOSSOS VOTOS DE UM FELIZ NATAL E UM ANO NOVO DE MUITAS BENÇÃOS E ALEGRIAS!

ROGÉRIO QUEIROZ e ETEL.

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Queridos amigos,
Desejo hoje e sempre Paz, Saúde, Harmonia, Amor e Alegrias em suas vidas, e que a bondade e consciencia se espalhem e contaminem outras vidas .... como neste video que encanta com cores, ritmos e artistas .
grande beijo!
Tereza Barbosa


21.12.11

'Seo' Chico se encantou!

Faleceu no Campeche o senhor Chico Daniel. Seu corpo está sendo velado na capela de São Sebastião. O enterro acontece às 17 horas desta quarta-feira (21.12). Confira a manifestação da jornalista Elaine Tavares sobre a morte do sr. Chico. "Foi-se embora o pescador, o homem que trouxe tanta alegria ao Campeche. Seu Chico acaba de encantar... Nestes tristes dias de fim de ano, sua perda há de fertilizar a estrada de tantas lutas que ainda estarão por vir. O bar do Seu Chico fez história no Campeche e sua derrubada também o derrubou. Mais um ponto para os vilões do amor!!!! A tristeza é infinita...".

20.12.11

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Sessão Viking
DOSE DUPLA
Olsen Jr.

Os emperdenidos de amanhã.
Por que o Natal me dói?



Ilustração: Ylário Belquér

OS EMPEDERNIDOS DE AMANHÃ

Por Olsen Jr.

Havia um par de chinelos na entrada do restaurante, no primeiro degrau da escada que dava para a calçada. Era de uma criança. Os dois pés deveriam estar alinhados no lado direito da porta, não fosse alguém ter chutado o esquerdo, sem o perceber, quando entrou. Era um calçado de material sintético e não destes comuns, de tiras que quase todo o mundo na região usava. Faço aquelas observações mentalmente enquanto cumprimento o garçom, acreditando no inusitado daquela atitude: típica da população interiorana. É o que me ensinaram na década de 1950, quando era guri em Chapecó. Todas às vezes que ia visitar alguém, num gesto instintivo (de uma educação que lhe era anterior) tirava os sapatos e os deixava na porta de entrada.

Entro e vejo o relógio na parede dos fundos marcando 21h50min, estranho penso, alguém ter esquecido aqueles chinelos lá. Quando me aproximo do balcão, quase não dou por elas, duas crianças com menos de nove anos de idade, tendo nas mãos o que parecia ser estas embalagens de isopor onde se leva o que os comensais não conseguiram degustar em uma refeição, ou eles próprios pedem para levar para comer em outra hora.

Ao ver os dois pequenos ali em frente faço logo a advertência de que não deveriam deixar os calçados por aí, que alguém poderia levar, e um deles arregala os olhos e tive a sensação de que uma vida inteira lhe passou pela cabeça antes de certificar-se de que estava falando dos “seus” chinelos e sair em disparada, driblando os garçons entre as mesas, não sem antes agradecer o que viera fazer ali e ser secundado pelo outro garoto que repetiu o gesto, do agradecimento e da desabalada correria ali dentro.

Pergunto para um garçom se eles queriam comida. --- “Não sei” – respondeu... Indago para outro sobre o que “eles” pretendiam. --- “Quem?” Devolve-me a indagação dando a entender que não tinha visto nada... Hei! Interpelo um terceiro, o que as crianças estavam fazendo aqui sozinhas há esta hora? --- “Estava atendendo uma das mesas, não prestei atenção nelas “...

Vou para o balcão, enquanto aguardo, fico imaginando o quanto estamos ensimesmados com nós mesmos. Duas crianças entram num restaurante lotado e ninguém dá por elas. Estavam ali sozinhas, aparentemente sem nenhum responsável... Sou interrompido pelo barman que me pede “vai o de sempre?”, aceno com a cabeça e resolvo fazer mais uma tentativa para saber o que os dois pequenos queriam ali àquela hora... “Estavam vendendo alho” , responde-me o caixa que os havia atendido, erguendo à altura da cabeça, uma bela réstia contendo várias cabeças daquele tempero. Antes que fizesse algum comentário, ele próprio acrescentou (ainda com a amostra do que tinha adquirido nas mãos) “onde já se viu, duas crianças trabalhando a esta hora”... “E nem é o trabalho, mas eram duas crianças”, ratifica “vai ver que os pais estão por aí, em algum bar, esperando elas chegarem com algum dinheiro para beber mais”... Ele, após aquela observação, volta-se para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

Beber ou não beber, não tem importância, o que deveria importar é o que estamos fazendo com as “nossas” crianças? Estas criaturinhas que tiveram as “suas” infâncias suprimidas, que ficaram “adultas” antes do tempo, vão se tornar os “durões” de amanhã, sem formação, sem sensibilidade para interromperem aquela seqüência hereditária, apenas reproduzindo de maneira ambígua a velha lição, aprendida nas ruas, no infortúnio: diante da vida, sobreviver é o que importa e se há um paraíso aos homens de boa vontade, bem, então vamos descobrir por nós mesmos, embora, claro, ninguém acredite nisso por que: primeiro, negamos-lhes a infância com a nossa caridade; depois, sustentamos-lhes a adolescência com a nossa indiferença; mais tarde, suportamos-lhes a maioridade com o nosso medo. Ontem, lhes demos o que tínhamos de menos: o excedente do nosso egoísmo; hoje, pensamos ouvir-lhes os gritos com o que temos demais: o zelo pelo que acumulamos e amanhã, pretendemos perdoar-lhes devolvendo-lhes a cidadania com o que ainda resta, trocando o nosso desprezo pelo desprezo deles!


A música é esta...



“I Started a Joke”, do Bee Gees…
Lançada em 1968, foi a primeira canção deles a fazer sucesso no Brasil e primeira colocada na lista da Billboard...
Também integrou a trilha sonora da novela “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso em 1969...
A primeira novela a romper com os cânones do que até então se fazia na área, a primeira a incluir cenas aéreas, em fazer tomadas de rua, a incluir a gíria, a usar o merchandising...
A insolência do cotidiano cabe aqui, acredito, combina com o texto, o que procuro fazer sempre... (Olsen Jr.)

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POR QUE O NATAL ME DÓI?

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem)

Por Olsen Jr.

Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “...Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”... As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando... Vinha o café... Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram... Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído... A família foi se distanciando... Depois os meus pais também morreram... Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura... Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros... Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói... Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!


Imagine




A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon, mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil...
Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la...
Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”... Lembrar da Utopia também é válido...
Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também...
Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972... Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto...
A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971... Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia... (Olsen Jr.)
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Imagens correlatas

É aqui que o Sol se esconde.

Jesus na moldura do escultor Cláudio Andrade.

Presépio artesanal de Anézio Agenor de Andrade.

Fotos: Celso Martins

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Mosquito por Evangelista

Confira o texto A morte do blogueiro,
por Fernando Evangelista, sobre
Amilton Alexandre (Mosquito).
No site Nota de Rodapé.

19.12.11

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Honduras/ESPECIAL



Estão nos matando”, denuncia
jornalista Ronnie Huete Salgado


O jornalista hondurenho Ronnie Huete Salgado*, que passou um período de exílio em Sambaqui (Florianópolis-SC), pulou e fotografou o Carnaval de Santo Antônio de Lisboa, escreve denunciando: “Estão nos matando”. Por uma questão de solidariedade com aquele povo sofrido, publicamos o artigo na íntegra, em espanhol, esperando contribuir, minimamente que seja, na divulgação do que se passa em Honduras.


“¡Nos están matando!”

Las mujeres periodistas que recién fueron torturadas públicamente por la guardia presidencial y los militares, exhiben ante el mundo el irrespeto a la libertad de expresión.

Tegucigalpa, 15 de dic. La era del “porfiriato” involuciona su intolerancia a la crítica, a un sistema neo fascista de principios del siglo XXI.

El pasado martes 13 de diciembre quedó claro. Reprimir hasta acallar, en frente de lo que representa la casa presidencial del régimen del “porfiriato” es un hecho.

Ante el asesinato imparable de los periodistas en Honduras, la prensa independiente realizó una marcha pacífica hasta casa presidencial. La organización de esta actividad la efectuaron un grupo de mujeres periodistas, quienes con velas y vestidas de luto marcharon para exigir el respeto a la vida.

Esta marcha pacífica se convirtió en una embestida dirigida por las órdenes del “porfiriato” que con sus perros amaestrados a los que llaman guardia presidencial, y militares que resguardan la casa presidencial, atacaron irracionalmente a las marchantes.


Moderna dictadura

La lucha fue frente a frente, con la ganancia de la razón y las exigencias del respeto a la vida, contra la más cruda intolerancia de la dictadura “moderna del porfiriato” quien no dudo en torturar públicamente a las mujeres periodistas.

Claudia Mendoza, Iris Mencia, Sandra Sánchez, Miriam Amaya, Eleana Borjas, entre otras que no claudicaron ante la represión de gases lacrimógenos, y las armas de tortura que utilizan los enemigos del pueblo, llamados militares.

Una de las marchantes, quien por razones de seguridad pidió no se revelara su nombre, manifestó que esta marcha fue por la vida, por el respeto a los derechos humanos y la libertad de expresión.

Uno de los objetivos de la marcha era de llegar a casa presidencial y leer un comunicado y hacer una protesta pacífica contra los asesinatos a los periodistas, así como recién lo hizo un grupo de periodistas, quienes en su mayoría representan al “porfiriato”.


Merito de asesinato

La brutalidad de la guardia presidencial y los militares que resguardan ese lugar gubernamental, fue extrema, describe la periodista que también fue afectada por las bombas lacrimógenas.

Según la reportera, en la calle, en la esquina o en cualquier lugar por donde se camina en Honduras es imposible vivir, puesto que la vida de los periodistas que redactan lo visible en la dictadura del “porfirtiato” es merito para asesinarles.

“los periodistas no nos sentimos libres de caminar públicamente, ¡nos están matando!”, describió con impotencia la periodista.

Las mujeres periodistas que participaron en esta marcha exigen que por lo menos se nombre una comisión interventora, y que exista una verdadera depuración de la policía nacional de este país centroamericano.


Instituciones Incrédulas

Según la entrevistada, en Honduras se ha llegado al punto de que el sistema no funciona,”se vive en un estado fallido”, puesto que a su criterio todas las instituciones que representan la seguridad estatal ya no tienen credibilidad.

Alguno de los medios tradicionales en Honduras entre ellos los que pertenecen a Carlos Flores Facussé, Jorge Canahuati y Rafael Ferrari, publican reacciones de malestar de estos dueños, quienes mandan a sus sirvientes de la comunicación a despotricar cualquier intento de lucha social por la liberación de Honduras.

Bajo este terrorismo mediático, la prensa independiente o alternativa de Honduras lucha, para denunciar los acontecimientos de la dictadura del porfiriato.

El Colegio de Periodistas de Honduras (CPH), actúa según los mandatos de estos mercaderes de la información, puesto que sus acciones conservadoras siguen los lineamientos de la dictadura del “porfiriato”, convocando marchas sin sentido y sin ninguna demanda.


Periodistas de “estomago”

La periodista afectada también describió que el periodista como cualquier ciudadano debe ser político y tomar una postura, puesto que si no lo hace no se le puede considerar un ser humano.

“El periodista debe denunciar, no acallar, no debe de convertirse en periodista de estomago como la mayoría que trabaja en los medios golpistas” afirmo con ahínco la entrevistada.

¿Qué íbamos hacer un grupo de mujeres vestidas de negro?, se pregunto la periodista, ante la embestida de los militares y la guardia presidencial. “que podemos esperar si torturan públicamente a un grupo de mujeres desarmadas” finalizó la entrevistada.


Según el informe del Observatorio de la Violencia publicado en octubre pasado, se espera que a fin de año la tasa de homicidios en Honduras alcance la dramática cifra de 86 por cada 100,000 habitantes. Es decir, el doble de la tasa registrada durante el primer semestre de 2011 (43.7) y casi tres veces la de 2010 (36.6). Cifras que superan con creces las de varios países en guerra.


*El autor de este artículo y fotografías es corresponsalía voluntaria de la revista Caros Amigos editada en São Paulo, Brasil para Centroamérica, La Agencia informativa Latinoamericana Prensa Latina, Kaos en la red y el portal http://desacato.info editado en Florianópolis, Brasil.

Cualquier atentado o amenaza para el autor de este artículo es responsabilidad de quienes representan y gobiernan el Estado de Honduras.

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Filhote de bem-te-vi. Fotos: Celso Martins

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M O S Q U I T O

Missa de sétimo dia


A família de Amilton Alexandre convida para a missa de sétimo por seu falecimento, a se realizar nesta segunda-feira (19.12), às 19 horas, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, junto à praça de mesmo nome, no bairro do Estreito (Florianópolis-SC).

Confira abaixo um texto de Emanuel Medeiros Vieira sobre o falecido.

As fotos que acompanham a presente postagem foram feitas na tarde deste domingo (18.12) na praça Getúlio Vargas (Santo Antônio de Lisboa). O filhote de bem-te-vi caiu do ninho e permaneceu no chão, acossado por outros pássaros, gritando desesperadamente pelos pais. Mais foi recolocado próximo ao ninho, onde poderia receber a atenção dos pais.



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DEPRESSÃO, SOLIDÃO
E OUTROS TEMAS
NÃO NATALINOS.
(NÃO?)



Por Emanuel Medeiros Vieira


EM MEMÓRIA DO MEU QUERIDO AMIGO AMILTON ALEXANDRE (“MOSQUITO”)

“A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer
companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós”.
(José Saramago)



A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a depressão como de caráter pandêmico, acreditando que existam hoje 240 milhões de pessoas que são portadoras deste transtorno no mundo todo.

Muitos consideram que alguns eventos da vida, como a solidão, o medo e a ansiedade, o excesso de informações, a carência de tempo, sejam algumas das causas para o elevado número de deprimidos e dos portadores da síndrome do pânico.

Em outros textos, tenho me referido à absolutização dos valores mercantis, à alienação, ao individualismo, à crença na juventude eterna, a falta de valores consistentes além do verbo comprar, como elementos da vida em sociedade nos dias de hoje, no qual valemos apenas pelo número do nosso cartão de crédito.

Quero ir um pouco mais além.

Andrew Solomon – em sua densa obra “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia Da Depressão” – lembra que há duas modalidades importantes de tratamento da depressão: as terapias da fala, que lidam com palavras, e terapias de intervenção física, que incluem os cuidados farmacológicos e os eletrochoques ou terapia eletroconvulsiva (TEC).

Quero me deter na terapia da fala.

As terapias da fala saem da psicanálise, “que por sua tem origem no ritual de expor os pensamentos perigosos oralmente”, formalizado inicialmente pela doutrina confessional da Igreja”.
Segundo o autor, a psicanálise é uma forma de tratamento, na qual técnicas específicas são usadas para desenterrar um trauma que desencadeou uma neurose.

Parece moda, falar mal de Freud, mas, descobrindo o inconsciente (o “saber que não se sabe”), ele abriu um caminho ou uma fonte no qual a maioria foi beber, e precisa beber.

O modelo freudiano – nas palavras de T.M. Luhrmann, “uma visão da complexidade humana, da profundidade, uma forte exigência de luta contras as recusas próprias de cada um, e um respeito pelas dificuldades da vida humana.”

Podemos reconhecer – lembra Solomon – APENAS UM PEQUENO FRAGMENTO DOS NOSSSOS ÍMPETOS E UM FRAGMENTO AINDA MENOR DOS ÍMPETOS DE OUTRAS PESSOAS.

Por muitos anos, falar sobre a depressão era a melhor cura. Ainda é uma cura.

“Tome nota” – escreveu Virginia Woolf em “Os Anos” – e “a dor vai embora”.

O que se busca é uma luz para a existência de cada um se tornar melhor – além das ancestralidades dolorosas, da hereditariedade, e de um modelo imposto que vampiriza os nossos mais generosos projetos, amesquinhando quase tudo ao nosso redor.

E que, cada um à sua maneira, vá aprendendo – no luto e na dor – a lidar com perdas.

Pois para todos – cultos, fúteis, deslumbrados, egoístas ou generosos – chegará o momento da Revelação. Ninguém escapa.


PS: Desejo aos pacientes leitores, um presente ótimo, um futuro melhor ainda, e que possamos sempre sorrir do Tempo – Senhor dos nossos dias.
Apesar de tudo, a vida é o valor maior: um luminoso 2012!
Se Deus Quiser, estarei de volta em fevereiro.


(Salvador, dezembro de 2011)

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15.12.11



O legado de Mosquito é
apropriado e interpretado

Um sensível poema de Emanuel Medeiros Vieira e um texto vibrante de Geraldo Barbosa sobre Amilton Alexandre abrem a postagem do pós-falecimento do Mosquito blogueiro, o “paladino malcriado”. Também publicamos uma opinião editorial sobre as apropriações (legítimas e ilegítimas) da memória e do legado do jornalista que estão em andamento.

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M O S Q U I T O

Por Emanuel Medeiros Vieira

Te conheci nos anos 70 – na luta intensa contra a ditadura, fazias a “TV do Povo”, articulações, reuniões, batalhando com outros também já “encantados”, como Roberto Motta, Adolfo Luiz Dias, Marcos Cardoso, Alécio Verzola, Jarbas Benedet – não citando muitos.

Foste meu aluno no Instituto.

Moraste uns tempos na minha casa da Lagoinha (e do Janga), onde abriste um bar.

Nos correspondíamos.

Quando ias à Brasília, me procuravas.

E soube hoje agora que partiste.

A literatura é sempre um caminho de transcendência e, sem pretensões maiores, queria te homenagear.

Pelo teu espírito crítico, pela tua inquietude, pela tua coragem.

Farás falta, num tempo de tanto individualismo, de levar vantagem em tudo, da crescente banalização do mal e da traição de tantos valores que forjaram as nossas gerações.

Mas não quero ideologizar o discurso.

Para André Malraux, a arte é “o lado vitorioso do único animal que sabe que vai morrer”.

A tragédia da morte – para ele – está no fato de que ela transforma a vida em destino, de que a partir dela, nada mais pode ser compensado.

Mas não podemos esquecer.

É preciso deixar que os ”mortos falem”.

É preciso escrever e vencer o nosso pobre e efêmero eu!

Que àqueles que eventualmente se rejubilam com esta perda, saibam que nada acaba, que tudo é dialético, e que novos “mosquitos” já estão sendo fecundados.

E depois de nos, outros pegarão o bastão.

Em favor da paz, conserve a fidelidade a si mesmo.

Lembre-se que, no dia do Calvário, a massa aplaudia a causa triunfante dos crucificadores, mas o Cristo, solitário e vencido, era a causa de Deus.

Continuaremos por ti, amigo Amilton Alexandre, mais conhecido por Mosquito.

Viva o Mosquito!

Mosquito vive!

(Salvador, dezembro de 2011)

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M O S Q U I T O

Por Geraldo Barbosa*

A morte de Amilton Alexandre, o MOSQUITO, não afeta apenas a nós – seus amigos, familiares, admiradores e companheiros de militância – atinge a toda a nossa geração e aos lutadores do povo de Santa Catarina. Ele foi um grande lutador pelas causas mais bonitas e valiosas da humanidade: a liberdade, a justiça social, a democracia para o povo trabalhador, o socialismo.

Eu o conheci na viagem para o Congresso de refundação da UNE (Salvador – BA) em 1979 e ali conheci a saúde civil e a impressionante capacidade de indignação que marcava sua personalidade. Durante a viagem, diante de uma barreira policial que tentava impedir nossa delegação de chegar ao Congresso da UNE (então proibido pela ditadura) como uma “ventania” do sul aglutinou rapidamente um protesto. Atuamos juntos, em seguida, na campanha para a eleição estudantil na Universidade Federal de Santa Catarina. Ele era candidato ao Diretório do Centro Sócio-Econômico e apoiava a nossa chapa - Unidade - para o DCE (eleita com Adolfo Dias na presidência, eu era um dos vice-presidentes). Este ano de 1979 ficou na nossa memória histórica como o ano mais importante do movimento estudantil em Santa Catarina. Naquele ano, Mosquito teve um importante papel, marcado por sua presença de espírito, na lutas por um novo Restaurante Universitário e pela preservação da UFSC como Universidade pública; contra o projeto do governo Figueiredo que tentava privatizar as Universidades federais. Fomos companheiros na organização da Novembrada e no cárcere da ditadura.

Depois da Novembrada, Mosquito participou com bravura da luta pela revogação da Lei de Segurança Nacional, enfrentando frontalmente o regime militar. Era um companheiro valente e sincero. Ele marcou nossa geração, que se formou na luta política sob e contra a ditadura, como um símbolo vivo da juventude insubmissa.

Nos últimos anos - no seu “Blog” Tijoladas do Mosquito - denunciou corruptos e corruptores, denunciou crimes dos donos do dinheiro, do poder e da mídia. Em cada tijolada ele falava e publicava o que não se permite publicar na imprensa controlada pelos monopólios econômicos. As causas pelas quais lutou e as denuncias verdadeiras que realizou (e pelas quais foi perseguido) tem por herdeiros a luta do povo trabalhador e de todos que se identificam com sua sede de justiça. Não buscava benefícios pessoais; mas praticar, do jeito que podia e sabia fazer, seu compromisso de vida e de luta.

Sua vida é toda ela um testemunho de rebelião criadora, exemplo de integridade, coragem política. Buscava um socialismo humanista. Sua identidade socialista não se dividia; assim como o ser humano não se divide: não se pode ser socialista em política e agir em contradição com o socialismo em questões econômicas, culturais ou morais.

É difícil prestar um depoimento sobre um amigo. Sua amizade franca, alegre e calorosa enriquecia nossas vidas. Trazia consigo alegria de viver e generosidade espontânea; o que se combinava com sua agressividade na luta pelas causas dos explorados e oprimidos. A evocação de seu compromisso com a humanidade permanecerá presente conosco na luta por uma sociedade verdadeiramente humana. Mosquito lutava por uma sociedade de seres humanos livres e iguais; onde a liberdade de cada será a condição da liberdade de todos e a liberdade de todos a condição para a liberdade de cada indivíduo. Mosquito, obrigado por ter existido.

(14 de dezembro de 2011)

*O professor Geraldo Barbosa foi um dos sete estudantes presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional em 1979 pela participação (ativa) na Novembrada, junto com Amilton Alexandre e outras cinco pessoas.

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O P I N I Ã O
Apropriações
e apropriações
de um legado


Por Celso Martins*

Um dia após o enterro de Amilton (Mosquito) Alexandre dois episódios ilustram que existem apropriações e apropriações, uma legítima, com respaldo na solidariedade, camaradagem e parceria, outra, com ares de ilegitimidade, tende a cair nos braços de interesses político-eleitorais.

A apropriação legítima está sendo operada com muita competência pelos jornalistas Sérgio Rubim (Canga) e Jerônimo Gomes Rubim, já faz algum tempo, através da ocupação do espaço que Mosquito deixou, ainda vivo, conforme podemos observar nos textos por ele deixados (Tijoladas do Mosquito continua no ar). Na real os Rubim continuam uma trajetória iniciada antes do surgimento do Tijoladas, com características próprias.

A outra iniciativa, que poderia assumir características de “desobediência civil” e, aí sim, resultar em medidas concretas e eficazes de moralização da coisa pública, nasce aparentemente tutelada. Estaria surgindo no cabresto de interesses outros, desassociados do que poderíamos chamar de “memórias mosquitianas” ou o jeito “mosquitiano” de se manifestar. Trata-se, aqui, caso a iniciativa tome o rumo apontado em manifesto**, de uma apropriação indébita, uma extorsão intelectual, um estupro politizado.

Felizmente, entre os que tomaram a iniciativa do ato desta sexta-feira (16.12, 17 horas, Catedral), existem cabeças iluminadas que podem conduzir a indignação resultante da morte de Mosquito – pela forma e nas circunstâncias em que aconteceu –, no caminho Político sim, mas com P maiúsculo, sem visar votos na próxima eleição. Caso este setor do movimento social de Florianópolis não consiga conduzir este sentimento pelo caminho sadio e desinteressado, teremos nada mais que um comitê de campanha em franca (e antecipada) atividade.

Nunca é demais lembrar: nos dias que antecederam a morte, Mosquito escreveu e telefonou para diversas pessoas pedindo emprego, queria refazer a vida e precisava de um plus para dar a start. Aquele era o momento para os acólitos de hoje "exaltarem a memória" do blogueiro.


*Celso Martins é jornalista e historiador, editor do Portal de Notícias Daqui na Rede e dos blogs Sambaqui na Rede2 e Fragmentos do tempo2. Cobriu pelo jornal O Estado a Novembrada em 1979 em Florianópolis que resultou nas prisões de sete estudantes, entre eles Amilton Alexandre.

**O citado manifesto abre anunciando o mote: “Mandem me prender! Afirmo, como Mosquito afirmou: Dário é corrupto!” E anuncia um “Júri Popular” denominado “Tijolada por Justiça”, informando em seguida a data e local do ato.

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Enquanto isto, em Santo Antônio de Lisboa...
Foto: Celso Martins, manhã de 15.12.2011

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Meu cachorro de Natal



Urda, Atahualpa e Manuelita Saens. Foto: Divulgação

Por Urda Alice Klueger*

Ele veio para minha vida num dia de São Nicolau[1], dia muito mágico para a minha cultura, tempo em que o coração da gente começa a se preparar para o Natal. Era pequenino e doentinho, e já escrevi diversos textos sobre essa chegada de Atahualpa na minha vida. Faz quatro anos, e naquele primeiro Natal passamos nós três, Aldo[2], Atahualpa e eu em duas festas de Natal, onde Aldo e eu nos socorríamos da profunda dor da partida inesperada do nosso amigo Teles[3], um mês antes, matado por uma louca do trânsito, e Atahualpa se socorria das suas mazelas devorando, nas sobras das festas, carne, lingüiça e banha, tanta quanta suportou, o que foi excelente para ele, que recuperou a saúde naquela esbórnia gastronômica.

Correu o ano enquanto ele crescia, um ano de chuva, muita chuva, que culminou, no mês de novembro, com uma tragédia de águas que veio alterar a vida de toda a nossa região de Santa Catarina/Brasil[4]. Estava chegando o segundo Natal de Atahualpa, e nós o passamos num depósito de livros de uma editora, só nós dois, embora a noite de Natal a tenhamos passado com os amigos de um abrigo cheio de gente que perdera as suas casas na tragédia, onde houve farto jantar sob o comando da doce Luzia[5], minha amiga cientista social que lá estava dando seu coração e suas forças para aquela gente sofrida, que a natureza magoara tanto. Mas, na manhã seguinte, quando entreguei ao meu bichinho seu presente de Natal, que era um cachorrinho de pano, queria morrer de ternura quando vi o quanto ele ficou com medo do mesmo, dando grandes voltas no depósito de livros onde vivíamos, para não passar perto dele. Demorou alguns dias para ele aceitar aquele intruso na sua vida!

Então, no outro Natal, que era o terceiro, nós já tínhamos dado a volta por cima da tragédia do ano anterior, e já morávamos nesta casinha onde vivemos até hoje, e que até tem cheiro de flor! Foi um Natal requintado: fiz todos os enfeites, todas as comidas, tudo o que se faz num grande Natal, mas decidi que o passaria somente com o meu bichinho, como que para exorcizar o que acontecera no ano anterior, e foi lindo estarmos juntos, vendo as estrelas de luz piscando na varanda e tendo um vislumbre do trenó do Weinachtsmann percorrendo o céu!

No Natal número quatro também cumprimos todos os rituais, mas fomos para a casa da minha afilhada Ana Paula, onde passamos divertida noite. Na volta, havia tantos presentes para abrir, tantas cartinhas de alunos para ler, que acabei dormindo de exaustão.

E então veio este ano de 2011 e uma coisa nova na minha vida: não estaria com a saúde de sempre em dezembro. Bem no começo do mês tive que fazer uma cirurgia, que deixou um grande corte na minha barriga. Não tinha como cuidar do meu cachorrinho, e ele teve que ir passar uns tempos na sua casa 2, que é a casa da minha prima Rosiane Lindner Gieland.

Quando a gente corta a barriga, dói um bocado, mas, mais que sentir a dor da cirurgia, doía-me o coração por estar sem meu cachorrinho tão amado!

Os dias se passaram: 2, 3, 4, 5... 11, 12, 13 – no dia 13, que foi ontem, o médico me disse que eu já estava tão bem que poderia reaver o meu bichinho e, ao telefone, Rosiani disse que o traria para mim!

Céus, como a gente é servo do coração! Pus-me a cuidar de tudo, cozinhar carne, cozinhar osso, cozinhar fígado, trocar as roupas de cama do meu cachorro, fazer papinha de bolo com leite, acender as luzes da árvore de Natal, escolher as mais bonitas músicas de Natal para recebê-lo – e então não sabia mais o que fazer e sentei-me na varanda, como tantas vezes fazíamos nos dias de chuva, e a tardia noite de dezembro caía e ele não chegava. Mas ali sentada na varanda eu me pus a chorar tanto que tive que entrar e me esconder, para não alarmar os vizinhos: de supetão, de uma vez só, veio a grande dor acumulada por 13 dias, aquela dor que a gente vai engolindo quando ama e se vê diante da impossibilidade: por todos aqueles dias eu tivera que ficar sem o meu cachorro e suportando a dor da cirurgia, e a dor 2 era tão desconfortável que eu escondia de mim própria que tinha a dor 1, para poder agüentar a outra, e naquele choro eu descobria que era terrível ter agüentado a dor da falta de Atahualpa, muito mais terrível a dor do coração que a do corpo.

Então, ele chegou com Rosiani e Germano, e estava bastante desconfiado, farejando as coisas por aqui, assim como quem diz: “O que aconteceu, que eu tive que ficar longe quando sinto que o teu cheiro estava aqui na casa? E porque minha irmã gatinha pode ficar contigo e eu não?”. Claro que pulava em mim e me lambia, mas estava desconcertado e não sabia muito bem como agir. Acabou comendo e aceitando carinho, mas algo dentro dele não estava bem.

Fomos dormir, afinal, ele rejeitando muito contato, escondido debaixo da cama, sem sequer ir para sua caminha, e eu esperando o amanhecer, para ver se as coisas melhoravam. No meio da madrugada, no entanto, algo se resolveu lá dentro do coração dele, e senti-o subir na minha cama e dormir um pouquinho aconchegado a mim, como faz às vezes. Então entendi que o Natal chegara. Ainda faltam 10 dias para a noite oficial, mas dentro de mim o Natal já chegou! Perto de Atahualpa, é Natal todos os dias do ano!

Blumenau, 14 de Dezembro de 2011.


*Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.


Notas

[1] Dia 06 de dezembro.
[2] Aldo Renê Vera Sarubbi.
[3] Adenilson Teles dos Santos, morto tragicamente um mês antes.
[4] Os detalhes da minha vida com Atahualpa nesse tempo fazem parte do livro “Meu cachorro Atahualpa”.
[5] Luzia Jacinta Fistarol Soares.

14.12.11

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Corpo do blogueiro
Amilton Alexandre
está sendo velado por
amigos no Itacorubi


Velório de Mosquito. Foto: Celso Martins



“Mosquito: valeu!” A expressão da professora Telma Piacentini encerrou as celebrações do padre Vilson Groh durante o velório do blogueiro Amilton Alexandre, o Mosquito, hoje (14.12) de manhã no bairro do Itacorubi, onde será sepultado logo mais às 15 horas. Confira mais informações no Portal de Notícias Daqui na Rede.

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Mosquito recebe homenagem na Câmara do
vereador Dr. Ricardo. Foto: Gabinete Dr. Ricardo


Mosquito: velório e
enterro no Itacorubi


O corpo do blogueiro Amilton Alexandre (Mosquito) será velado à partir das 10 horas desta quarta-feira (14.12) no Cemitério São Francisco de Assis, no bairro do Itacorubi. O enterro será às 15 horas no mesmo local. Às 11 horas o padre Vilson Groh estará no cemitério para fazer uma homenagem a Mosquito.

Segundo a professora Telma Piacentini, Mosquito foi um “irreverente, corajoso e inteligente jornalista”. E Mais: “Foi também um dos primeiros a levar o cinema para a periferia de Fpolis, trabalhando nos sábados e domingos, em programas culturais da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal, nos anos 80. Calou-se uma voz, de forma violenta, que dificilmente será substituída”.

Confira o comovente depoimento do jornalista Sérgio Rubim (Canga) sobre como ficou sabendo da morte de Mosquito. O arquiteto Ci Ribeiro encaminhou um texto também publicado abaixo na íntegra. (C. M.)

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A ÚLTIMA TIJOLADA

Por Sérgio Rubim (Canga)

A notícia da morte do blogueiro Amilton Alexandre, o Mosquito, causou comoção entre os frequentadores da Kibelândia no final da tarde de ontem (13). A notícia se explalhou rapidamente pela internete e em poucos minutos a morte do blogueiro era o assunto mais citado no twitter do Brasil.
Soube da morte no momento em que entrava na Kibelândia, por volta das 18:30hs. Um telefonema do meu amigo Izidoro Azevedo dos Santos trazia a trágica notícia:
- Canga, o Mosquito se matou!

Pôrra, isso é uma coisa brutal!

Liguei imediatamente para um vizinho do Muska, Gonzaga, e perguntei de onde ele tinha tirado a notícia. Se ele me confirmava a morte. Respondeu que era verdade. Estava em frente ao Mosquito, morto. Aguardavam apenas o IML.

A partir desse momento o telefone não parou mais de tocar. Eram pessoas me passando infiormações e outras tantas querendo informações. minha mesa na Kibelândia virou um centro de notícias onde operava o cangablog, o twitter, o FaceBook, o telefone, o menssenger e os canais de voz do FB e do gmail.

Começaram a chegar pessoas na Kibelândia com a notícia e vários grupos se foirmaram na rua e dentro do bar. Teorias da conspiração e outras teorias se misturavam a comentários de látimas e sentimentos de perda. Várias pessoas choravam e lamentavam a morte do Mosquito.

Tentando manter o foco e sair daquele turbilhão de pensamentos e stress que me invadiu ainda conseguia observar o comportamento da massa. Uma coisa me chamou a atenção. Nenhuma daquelas pessoas eram íntimas ou mesmo amigas do Mosquito. Ele era solitário. O seu circulo de amizades era extremamente virtual. Era na internete, através das várias mídias que manipulava, que conseguia praticar parcerias e amizades que não tinha na vida real.
Mas mesmo assim todos estavam comovidos, demonstravam isso publicamente. Por que?
Porque embora até evitassem sentar na mesa do Mosquito quando ele estava na Kibelândia se sentiam parte integrante do blogueiro. Ele falava e escrevia o que todo o mundo queria falar e não tinha coragem para tal.

O Mosquito foi um fenômeno incrível em termos de mobilização de opiniões, se transformou em porta-voz da grande maioria das pessoas revoltadas com os crime cometidos por políticos, desembargadores, agentes do Ministério Público, juízes e conselheiros do Tribunal de Contas que eram incessantemente denunciados e escrachados no Tijoladas do Mosquito.

Essas pessoas que ali estavam não lamentavam a perda de um amigo, lamentavam a perda das suas vozes, lamentavam o fim de um canal de manifestação que pela primeira vez desnudou de fato toda e qualquer autoridade metida em crimes e falcatruas.

Se enganam os que, com a morte do Mosquito pensam que sairam vitoriosos do embate. Já estavam feridos de morte. O Mosquito na sua sanha vingativa contra a corrupção já tinha manchado as suas "ilibadas" histórias. Já estavam derrotados desde o primeiro dia que frequentaram as páginas do Tijoladas do Mosquito.

Ainda há poucos dias colocou no twitter: - Eu tenho um amigo! O Canga!

Gostava de mim e me ouvia. Nunca tivemos uma amizade próxima. Pelo contrário, brigamos uma vez e eu sempre o evitava. Mais tarde com o surgimento do Cangablog voltamos a nos falar. Ele mandava comentárias diariamente, muitos eu não publicava por escatológicos. Com tanta reclamação da parte dele propus que criasse um blog. Surge, então, o Tijoladas do Mosquito. Ensinei-o a blogar e depois ele disparou.

Conseguiu a fantástica façanha de, num só dia, atingir a marca de mais de 70 mil acessos. Foi quando denunciou o caso do estrupo que envolvia menores filhos de famílias ricas de Florianópolis.

Atuávamos em conjunto. Trocávamos informações e denunciávamos casos de corrupção em conjunto. Mosquito tinha uma quantidade de fontes de informações incrível. Conhecia muita gente. Fazia matéria de denúncia, investigativas. Fazia jornalismo.

Ainda ontem li no twitter um jornalista dizendo que tudo que ele não fazia era jornalismo.
Despeito!

Talvez para esse jornalista, praticar jornalismo é fazer assessoria de imprensa e colunas elogiativas de autoridades. Está enganado. Mesmo com diploma de Administração, o Mosquito fazia jornalismo. Morreu em plena atividade da profissão.
obre a sua morte, ele já vinha há dias mandando sinais de que pretendia dar cabo da vida. sozinho, semdinheiro, com o seu blog fechado pela justiça, estava deprimido e parecia não encontrar saida para o fosso em que se meteu.

Tinhamos uma linha recuada de defesa. Um hacker, do bem, que mora em Laguna nos dava suporte constantemente. Com ele Mosquito falava bastante pelo twitter. Semana passada escreveu:
- O circulo está se fechando. Não vejo mais saída. Acho que vou me matar!

Com um grande arsenal de tijolos para atirar nos corruptos que enlouqueceu neste tempo em que atuou, resolver guardar o último para si.

Uma pena!


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MATARAM
O MOSQUITO...
quem e como?!?


Por Ci Ribeiro

MATARAM DIRETA E INDIRETAMENTE;
MATARAM A PLURALIDADE DE OPNIÃO
E O DIREITO AO CONTROLE SOCIAL
DA COISA PÚBLICA, PILARES DA DEMOCRACIA

É repugnante ver a cobertura da imprensa local, como se esse fosse mais um fato isolado e de desajuste psico-social. Pouco ou nada se fala do cenário político e social que envolve esta morte. É sabido que a imprensa majoritária estadual e regional não tem qualquer compromisso orgânico e histórico com a democratização da noticia e dos fatos jornalísticos. Não tem qualquer função social em defesa do bem comum, e é movida apenas pelos interesses privados de seus lucros e dos seus anunciantes. Por origem e base social das famílias de seus proprietários, a mídia oficial tem incapacidade de gestar processo plural e democrático, por isso é alma gêmea das novas e velhas oligarquias políticas e econômicas regionais, e para tanto se faz monopolista, perfeita coveira do debate democrático, do jornalismo investigativo e da pluralidade de opinião!

Porem o mais preocupante nos parece são os partidos políticos: o quê estes tem a dizer neste momento de luto e de luta? O silêncio da classe política diante da morte de uma personagem política tão destemida é reveladora da podridão e dos constrangimentos que a ideologia do terror impõe, aos sem rabo preso, aos do contra, e aos políticos em geral. Precisamos saber como se portarão partidos e políticos eleitos neste momento para a apuração dos fatos, e na véspera de alianças eleitorais e financiamentos de campanha?

AVISO:

Esta mensagem não trata-se de uma homenagem ao Hamilton Alexandre, popular blogueiro do Tijoladas do Mosquito, integrante da Novembrada de 1979, um legítimo companheiro dos contras. Todos sabemos que Mosquito não queria homenagens, mas sim manifestações contra, por isso suas tijoladas eram contra: Contra à Corrupção; Contra a Privatização e Destruição do Patrimônio Público; Contra a Destruição da Natureza; Contra a Falta de Ética na Política; Contra o Pensamento Único! Por isso esta mensagem é uma simples...

Tijolada, Manifesto e Denúncia Pública das perseguições e da morte anunciada pela própria vitima!

Vejam o que Hamilton Alexandre/Mosquito escreveu a menos de duas semanas atrás:
“O blog Tijoladas acabou para eu continuar vivo. Não é uma capitulação. Não mudei meu modo de pensar. Não mudei minhas convicções.” Informação postada no seu Blog, no dia 30 de novembro de 2011; “Estou com medo da justiça de Santa Catarina.” e “Promotor pede minha prisão em flagrante em audiência na 3ª vara criminal da Capital e juiza decreta a mesma.” Postadas no dia 28 de novembro de 2011

Todos na região sabíamos das denuncias envolvendo LHS, Marcondes de Matos, a família Sirotski, Berger e Pavan, os recentes escândalos da ALESC, da AFLOV, os episódios da Hantei/Ponta do Coral, das Eleições da UFSC... Todos sabíamos das perseguições e da morte acima anunciada: sabiam os pauteiros dos jornalecos e jornalões; sabiam os blogueiros, ancoras e os bocas-pagas de plantão; sabiam os empreiteiros, vereadores, prefeitos, governador e deputados da região; sabia o padre, o pastor, o pai de santo, o delegado, o promotor e seu patrão; sabiam também as prostitutas e seus clientes de contramão; sabia até a justiça que cega nossa razão; mas antes sabiam e assim queriam muitas “vitimas de suas tijoladas sem compaixão”, pois este mosquito abnegado ainda picaria mais de um milhão, por isso era sabido que os coveiros lhe espreitavam nos fóruns, nas galerias e multidão, mas covardemente montaram e criaram as condições para a cena sórdida da solidão, sem testemunho aos seus últimos suspiros de resistência e indignação, para assim confundir a opinião do povo e esconder o verdadeiro motivo da linchação pública que vinha sofrendo, onde este homicídio monstruoso suicídio-enganação, é parte ativa da covardia de quem criminaliza e rotula de radical o desejo pleno de querer ser cidadão. Por estes fatos, agora sobre estas cabeças recaem nosso desejo de justiça na apuração exemplar deste caso concreto, neste cenário de terror psico-social e ódio que estão submetidos os movimentos sociais e apoiadores na região. Nem uma família poderá dormir sossegada sem que se exponham todas as versões e fatos desta morte anunciada! Mataram o Mosquito, mas saibam que seu legado segue vivo nos demais militantes sociais, homens e mulheres livres, jovens e idosos esperançosos de justiça, fraternidade e união dos excluídos.

EM DEFESA DA VIDA DIGNA E DA CIDANANIA PLENA!!
NÃO À IDEOLOGIA DO TERROR E AO TERROR COMO IDEOLOGIA!!

- A quem interessa a criminalização dos movimentos e de lideranças populares e sindicais?

- A quem interessa o monopólio da mídia e da crítica jornalistica?

- A quem interessa os profetas do pensamento único, redatores, colunistas e jornalistas maniqueístas que propagandeiam e rotulam que tudo que não é do desejo de seu patrão e anunciante, é contra aos interesses públicos?

Até onde essa prática ante democrática destes senhores não criaram e contribuíram para o cenário desta violência e morte do Hamilton Alexandre/Mosquito?

ATÉ QUANDO VAMOS ESPERAR QUE AS COISAS MUDEM?

Basta, queremos justiça! Apuração profunda e cautelosa, por isso se exige que nada poderá ser precipitado neste processo de investigação, das causas e circunstancias políticas e sociais, que culminaram com a morte de Hamilton Alexandre, destemido militante social e homem público, personagem da política regional e promotor de sérias denuncias de corrupção ativa e passivas de agentes públicos e privados!!

Chega de Criminalização dos Movimentos!

Florianópolis, 13 de Dezembro de 2011

Saudações democráticas aos homens e mulheres livres e defensores do direito à vida plena para todos e todas!


*Ci Ribeiro é arquiteto e militante da reforma urbana membro da Camara Setorial de Meio Ambiente e Saneamento do FORUM DA CIDADE

DESPERTAR É PRECISO
Vladimir Maiakóvski

“Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada.”
o

Mosquito em ação com seu laptop na Beira-Mar. Foto: Celso Martins


Morte de Amilton Alexandre é
investigada em inquérito policial

A morte do blogueiro Amilton Alexandre, o Mosquito, começa a repercutir, com o envolvimento direto do secretário da Segurança Pública, Cesar Grubba, que vai acompanhar de perto o inquérito policial. Confira os depoimentos do jornalista Celso Martins e do advogado João Manoel do Nascimento.

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Muska, o paladino malcriado

Por Celso Martins

Conheci Amilton Alexandre quando ele ganhou o apelido de Mosquito no final do anos 1970, na UFSC, fazendo o curso de Administração e metido no movimento estudantil, presente em todas as festas, luaus e carnavais. De Joinville, no início da década seguinte, acompanhei de longe o bar Havana na rua Saldanha Marinho (Centro). Fui reencontrá-lo efetivamente nas jornadas de protestos dos estudantes contra os aumentos dos coletivos em 2005-2006, alçando-se a líder num primeiro momento e mero participante depois.
Mosquito também esteve ao lado do candidato Francisco de Assis na sucessão de Angela Amin, contra o então ex-prefeito de São José Dário Berger. Na eleição seguinte se alinhou com Esperidião Amin, também contra Berger. Mais tarde integrou o Movimento em Defesa das Baías de Florianópolis, contra a implantação do estaleiro da OSX.
Por esse tempo, quando abriu o blog Tijoladas, veio falar comigo. Disse a ele que a linha de denúncia pretendida precisava ser sustentável, baseada em provas, depoimentos, elementos materiais comprobatórios de qualquer acusação. Como o jornalista Sérgio Rubim faz hoje com muita propriedade e competência. Na ocasião ele esteve aqui em Sambaqui, almoçou, depois caminhou pela Ponta e foi embora. Dias depois o Tijoladas se tornou conhecido por ser o Tijoladas: linguagem violenta e agressiva, usada por um aguerrido paladino da moralidade, atirando para todos os lados, sobretudo na direção de petistas, ex-comunistas e ex-pemedebistas, como Vilson Rosalino, Márcio de Souza e Édison Andrino, além do próprio Berger, jornalistas renomados e a família de um empresário da comunicação.
Tudo isso provocou milhares de acessos e travou provedores, tornando o mais tarde jornalista Amilton Alexandre, com registro no Ministério do Trabalho, mais conhecido que tainha e vento sul. Famoso e acumulando processos, mais de três dezenas, por todos quantos se sentiram de alguma forma ofendidos pelas investidas do oleiro das palavras. Assumi sua defesa em algumas ocasiões, baseado naquele princípio de que não concordava com a forma como ele fazia a coisa, mas achava que tinha o direito de se manifestar.
É irresistível a tentação em descrer que ele tenha se auto-passado. Somos levados por um impulso inominado a crer na mão dolosa de outrem a arriar a corda no pescoço do Mosquito. Se porventura o sinistro laço foi por ele obrado e ajeitado, isso tem relação direta com a forte pressão a que vivia submetido por conta de denúncias formuladas, com ou sem fundamento.
Há também um componente nisso tudo: acolitado pelo judiciário, se esgueirando dos oficiais de Justiça, procurando evitar certos ambientes e personagens, mal ganhando para o gasto diário, se viu em certo momento abandonado por aqueles que, lá embaixo, costumam gritar “pula! pula!” ao aspirante a se atirar do alto de um prédio. Os mesmos que incensam, instigam, sempre “inticando”, mandando o outro fazer primeiro, mas sempre mantendo a mão (e o nome) longe da cumbuca. O Mosquito foi envolvido por uma corriola do gênero, encarregada de fornecer meias denúncias, informações pela metade, armadilhas sutis. “Bota que eu garanto!”, e ele punha, escancarada e malcriadamente.
Novo no ramo, mas querendo ser jornalista, e de fato tinha um faro (raro) de repórter, um raciocínio rápido, conhecimento técnico em Administração e certa erudição, lhe faltou a experiência para saber que o tapinha nas costas de hoje é a senha do tabefe na face mais tarde. E foi dessa forma que nosso fraternal Mosquito se viu apoiado por meia dúzia de sinceros e evitado pelas dezenas de integrantes das maltas da maledicência. Os mesmos que nesses momentos podem estar brindando com taça nos ambientes de “vítimas” ou “alvos” do Mosquito.
Que Deus o tenha. Que São João Maria proteja sua alma. Que os anjos o recebam com trombetas no lugar dos puros de coração.

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Mosquito em ato contra o estaleiro da OSX,
novembro de 2010, avenida Beira-Mar Norte,
Florianópolis-SC. Foto: Celso Martins.

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O “MOSQUITO”
NÃO
PODE MORRER!


Por João Manoel do Nascimento*

Estou meio desnorteado com a notícia da morte do blogueiro Amilton Alexandre no dia de hoje, 13/12/2011. Suicídio? Eu não acredito! O Mosquito sabia muito podre de muita gente. Ele foi o responsável por tornar pública muita sujeira de muitos poderosos.

Certamente ele não era um herói.

Nunca fui um fã de seu método meio “wikileaks” de denunciar escancaradamente e sem limites tudo que tomava conhecimento, mas seria extremamente injusto se eu não reconhecesse o quanto ele foi corajoso em sempre publicar na internet a podridão na qual vivemos atualmente.

É verdade que ele era polêmico, muitas vezes ofensivo, mal educado e até irresponsável, porém, sem dúvida, ele prestava um relevante serviço à sociedade catarinense, pois não permitia que verdades incômodas fossem ocultadas, não hesitava diante de indícios e tornou impossível que alguns episódios não fossem ao menos investigados.

Se a sensação de impunidade nos ilícitos e nos atos de improbidade por ele revelados ainda remanesce, a culpa é do “sistema” (que existe para nos enganar, os otários e honestos). No seu modus operandi, o que importava era que os fatos criminosos eram trazidos ao conhecimento público.

É triste ver um aguerrido defensor de Florianópolis deixar esta vida de maneira tão abrupta. Todos aqueles que nada têm a esconder estão de luto e todos aqueles que o temiam estão em festa.

Que o “Mosquito original” faleceu, eu posso até me acostumar (depois de uma investigação policial profunda), o que eu não admito é que o “Mosquito” que existe em todos nós que lutamos por um mundo melhor também morra.

Viva a verdade!

Adeus Mosquito.

*João Manoel do Nascimento é advogado e líder comunitário em Florianópolis.

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Acompanhe a cobertura da morte de
Amilton Alexandre no
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