Ao apostilar a proposição de emenda tornando o porvir do Conselho Municipal de Cultura de Florianópolis mero artefato decorativo, sem faculdade decisória, o vereador Norberto Stroich Filho (PMDB) alinhavou argumentos que ajudam a apreender por que certas coisas acontecem na cidade. Caso o projeto original de autoria da ex-vereadora Angela Albino fosse consagrado, segundo ele, o Conselho se sobreporia ao Executivo municipal e a Fundação Franklin Cascaes. Foi o que Stroich argumentou ao DC, resumindo:
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Não é possível que o Conselho aprove a concessão de auxílios financeiros a instituições. Ele deverá ser deliberativo no sentido de aprovar projetos culturais, mas não de definir distribuição de recursos.Desse modo, temos um Executivo que, no perceber de Stroich, deve mandar, desmandar, perpetrar e desfazer sem dar satisfação a quem quer que seja. É plenipotenciário, único, dono absoluto da administração municipal, onipresente até, detentor da verdade absoluta, único capaz de distinguir o "certo" do "errado". São posturas assim que alimentam autocracias e ditaduras lideradas por déspotas, mesmo os esclarecidos.
Qual figurinha de presépio, o futuro conselheiro vai aprovar os projetos, mas os recursos serão disseminados pelo Executivo, caso tenha simpatia pelo tema/autor indicado. Ou seja, não é a representação social do futuro Conselho que vai definir o que tem qualidade, resulta de esforço criativo e está revestido de originalidade. Não! Isso cabe ao Executivo, onde estão os iluminados, os guiados por Deus, quem sabe, e quiçá, algumas sumidades intelectuais. É esse, na prática, o tirocínio que o nobre edil está sustentando.
É possível que seus colegas que subscreveram essa emenda castratória da autonomia do Conselho, não possuam noção do que estão fazendo. Talvez não tenham usado a massa no interior de seus crânios o suficiente, avaliado a extensão da bobagem que estão fazendo. Até prova em contrário, Edinon Manoel da Rosa, o Dinho (PSB), Erádio Manoel Gonçalves (DEM), João Itamar da Silveira, o João da Bega (PMDB), César Belloni Faria (DEM) e Celso Sandrini (PMDB) estão apenas se comportando como base governista, seguindo obedientes as ordens do chefe, como vemos no Senado. Não acredito que tenham feito o que fizeram de sã consciência, depois de muito refletir, auscultar, ponderar prós e contras.
Stroich sim, esse sabe muito bem o que está fazendo, e seu raciocínio é cristalino e coerente, segundo seu ponto de vista, sua visão de mundo. Neo-peemedebista, como tantos outros nesses últimos anos, parece não ter sequer lido o Programa de seu partido. Assim como os demais não o fizeram. Tivessem tido o trabalho de consultar o documento, certamente teriam ponderado duas vezes antes de cometer as imprudências temerárias.
Vejamos o que diz o Programa do PMDB que, acredito, não seja apenas para enfeite ou visando cumprir as formalidades legais da constituição partidária. No item 2.7 (Democracia e Cultura), está escrito: “O PMDB tem confiança irrestrita na capacidade de criar e resistir do nosso povo e vê nas manifestações de cultura popular a certeza de um futuro autônomo da civilização brasileira”. Assim sendo, “a tarefa principal do PMDB é, através de um debate permanente, contribuir para a elaboração da cultura política, trazer à luz os valores, interesses e aspirações sociais, acrescentar racionalidade e capacidade de construir alternativas em resposta às grandes questões".
Lembrar o Programa partidário nesse momento talvez nem seja apropriado, tendo em vista o ítem 13 dos Princípios Básicos, que reza: “o PMDB continuará movendo implacável combate à corrupção e sonegação. Denunciará às autoridades competentes cada caso que lhe chegar ao conhecimento, para apuração da responsabilidade dos envolvidos. Apoiará também as iniciativas da comunidade em resguardo do erário e do interesse público”.
Os integrantes do DEM, antigo PFL, também não se deram ao trabalho de consultar o “Ideário dos Democratas”, ou saberiam que “o compromisso maior do Partido é com a liberdade, sob todas as suas formas. Combateremos, portanto, qualquer manifestação de autoritarismo ou restrição da liberdade”. E que seus integrantes também devem questionar "a centralização, doença crônica de nosso organismo político-administrativo".
Para os Democratas é preciso "libertar as imensas energias criadoras do homem brasileiro, historicamente sufocadas pelo centralismo e pelo estatismo". À par da descentralização, "a grande revolução a realiza-se neste País é a da liberdade da iniciativa em todos os planos - no político, no social e no econômico. É premente e necessário estimular, por todos os modos, a participação comunitária, abrindo-se oportunidade à fecunda manifestação de nossas diversidades".
Esses vereadores se comportam como se precisassem do povo apenas para votos e aplausos, mas sabemos que isso não é verdade. Precisamos acreditar que eles têm capacidade de reflexão e raciocínio, sensibilidade aos reclamos sociais e espírito liberto, capaz de fazer uma autocrítica e verificar que estão perto de pisar na bola. Como são parlamentares e não atletas, certamente vão ficar longe da pelota.