9.1.12


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Baía de Santo Antônio de Lisboa. Florianópolis-SC, 8.1.2012

UM DIA DE O. HENRY

(para Júlio de Queiroz)

Por Olsen Jr.

O escritor norte-americano William Sidney Porter, conhecido como O. Henry foi o criador de tipos e de uma técnica narrativa que durante muito tempo cativou leitores em todo o mundo. Até hoje uma das láureas mais cobiçadas nos EUA para quem escreve ficção é o Prêmio O. Henry. Bom observador, imaginação fértil, conseguiu, com fluência, captar o romantismo, a mesquinhez e o que move a gente simples, da ambição ao altruísmo, enfim, o que faz a grandeza e a pequenez dos seres humanos. Daí a empatia com os leitores fascinados, invariavelmente, com os desfechos inesperados e engenhosos de suas histórias.

No conto “O Guarda e o Hino”, por exemplo, o personagem, um mendigo diante do inverno rigoroso que se avizinha em Nova York, decide cometer algum delito para ser enviado a uma prisão (que ele chama de “A Ilha”) por três meses. Preso, teria um lugar para ficar: teto, cama, banho e comida. Enfim, tudo sem precisar humilhar-se com as instituições de caridade. Decisão tomada começa apedrejando uma vitrine e esperando ser preso. O guarda não acredita que ele tenha feito aquilo e persegue outra pessoa que está correndo nas proximidades para pegar um ônibus; depois ele decide jantar em um restaurante e sair sem pagar a conta, os seguranças do lugar limitam-se a jogá-lo na calçada; tenta assediar uma mulher que finge contemplar algo exposto em uma loja, a mulher topa o convite e o policial não pode fazer nada; mais tarde, furta um guarda-chuvas (de alguém que já o tinha encontrado em outro local) e acredita que ele seja o legítimo dono, e nada acontece... Depois de tentar outros expedientes do gênero, passando por uma igreja, ouve um hino que lembra sua infância. Emociona-se com os acordes, percebe que teve uma família, amigos e ainda tem tempo de mudar a vida que leva. Empolga-se e decide recomeçar... Quando sente os braços de um policial que indaga sobre o que ele está fazendo? – Afirma “nada”, então é preso por vadiagem e enviado a tal “Ilha” (prisão) que tanto ambicionara antes...

Ironias à parte leio que o cidadão Marcelino Alves, 21 anos, pouco mais que um adolescente, simula um furto para ser preso e comer um cachorro quente, a primeira refeição decente depois de 15 dias, descontando o que comia catando no lixo... Aconteceu em Florianópolis, mais de 100 anos depois da narrativa escrita por O. Henry.

Que País é este que um cidadão deve sonhar com um presídio para dispor de um teto, uma cama, um prato de comida e um banho no final de um dia duro a procura de um trabalho que lhe subsidie este pesadelo?

O sujeito toma alguns goles de cana pra criar coragem, mas na “hora H” a moral fala mais forte e ele pensa “podia”, mas não vou “roubar nada”, gostaria que me prendessem para ter o que preciso: cama, comida e banho... Claro, enfatiza, gostaria de trabalhar...

Muitas pessoas me perguntam se “escrever é difícil?”, pô! Diante desta realidade toda a ficção é supérflua. Este País (basta ficar uma semana fora para saber) me traz idéias de esperança e sentimentos de desprezo, quando a arte recria a vida, eu sonho... Mas quando a vida imita a arte naquilo que denuncia, dá vontade de sair por aí, arregimentando homens de boa vontade para começar logo a revolução, tão prometida, tão esperada e que nunca acontece!





A MÚSICA

A música poderia ser esta, depende de cada um...
“He Ain’t Heavy, He’s My Brother”, do “The Hollies”…
A banda britânica formada no início dos anos de 1960. O nome foi uma homenagem ao compositor e cantor americano Buddy Holly...
Composta pelos amigos de infância Allan Clarke (vocalista), Grahan Nash (posteriormente membro do grupo “Crosby, Stills and Nash” que também já foi “Crosby, Stills, Nash and Young”), Don Rothbene (bateria), Eric Haydock (baixo), Vic Steele (guitarra solo) que foi logo substituído por Tony Hicks...
Contratados pela Palophone em 1963 foram coletas dos Beatles na mesma gravadora e durante muito tempo o grupo de maior sucesso depois dos Beatles na Grão-Bretanha...
Tinham um impecável trabalho vocal (duplos e triplos)... Emplacaram vários sucessos, entre eles: “Bus Stop”, “Sorry Suzanne”, “Stop in the Name of Love” e naturalmente, a indefectível “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”...
Em 2010 entraram para o Hall da Fama do Rock and Roll... (Olsen Jr.)

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Porto Gente
Famílias estão sendo despejadas por
causa do Porto do Açu, denuncia CPT


Por Vera Gasparetto
de Florianópolis/SC

Portogente conversou com Viviane Ramiro da Silva, que integra a Coordenação Regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da região do Espírito Santo e Rio de Janeiro, sobre a polêmica envolvendo pequenos agricultores do município de São João da Barra, o Porto do Açu do empresário Eike Batista e o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Ela conta que do total de famílias na área, 1,5 mil estão resistindo à remoção para a área imposta pelo Grupo EBX. Confira.



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Fotos: Celso Martins

5.1.12

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BROMÉLIA DE CASA


Presente de Natal da jornalista Anita Martins. Foto: Celso Martins

2.1.12

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E L A


Por Olsen Jr.

Não lembro o dia exato em que comecei a pensar nela. Tampouco, o porquê. Francamente, nenhuma destas dúvidas tem importância. Mas o pensamento ficou, como uma advertência falsamente descompromissada de que “ela” existia, poderia se fazer presente ao seu bel prazer, sem aviso prévio, sem data marcada, sem dia, hora ou local. Semelhante a uma visita indesejável, simplesmente aparecia.

Não costumo dilapidar energia com aquilo que não entendo. Procuro assimilar o fenômeno, aceito o inevitável, mas insubordino-me com o previsível, o que é o princípio do pensamento científico, e pode ensejar outros caminhos.

Agora, é revoltante a maneira como “ela” se apropria, envolve, consome, afasta, isola, tantaliza e despreza todas as pessoas que amamos. Senhora de si, nunca questionada, mais um espectro que ronda a nossa pequenez, por isso parece tão soberana e ao mesmo tempo, tão desprezível.

Aliás, “ela” é a senhora do tempo, uma vez que o tem integralmente, ignorando por esta razão o que nós mortais chamamos de “momentos” (sempre associados à felicidade)... Quer dizer, costumamos conceituar a “felicidade” como uma sucessão de “bons momentos” num determinado tempo, a consciência disso é que faz com que externemos tal convicção. Mas para “ela”, esta (in)distinta senhora a quem me refiro, que é o “seu” oposto, não há convicção que lhe faça frente, a não ser, é claro, a convicção de que não há convicção, tautologia.

Outro dia, tive a sensação de que “ela” estava aqui. Senti em todo o meu corpo o incômodo de sua presença. Algo estranho, a existência de dois olhos invisíveis me observando de algum ponto do universo, digo para mim mesmo que ainda não é chegada a hora e afasto aquele peso sinistro dos meus ombros, com atitudes práticas, metapreferências, se quiserem, facilmente constatáveis.

Feita a escolha, me sinto leve, como o fundista que no sprinter derradeiro, vence seus oponentes, porque (já exausto) não se espera nada mais dele... Talvez, se for um vencedor, que seja alguém diferente, o que pode ser o caso.

Precisamos da crença de que “somos” diferentes, senão a vida seria insuportável.

Apresento agora a “vetusta senhora”. Desprovida dos cinco sentidos, portanto, entre outros, não enxerga, não fala e não ouve: a morte! Que, periodicamente, leva, de uma só vez, várias pessoas de uma mesma família, não fazendo nenhuma distinção particular: se homem ou mulher, se velho ou jovem. Diz-se que é o destino quando acontece com os outros e pouca importância se dá, embora os jovens sofram mais. Mas naquele ano foi a vez de nossas famílias... E éramos jovens.

Uma sucessão de imagens, um volume avassalador de quadros, lembranças, figuras, ações, sonhos, frustrações, conquistas, fracassos, pessoas indo e vindo, tudo se misturando e confundindo enquanto faço o café e aspiro aquele odor familiar, uma vida em segundos, inacabada e perversa, e no rádio, quase imperceptível, a voz do Gilberto Gil cantarolando “... Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria”...

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A música é essa:
“A Day in the Life”,
dos Beatles…

Em muitos lugares a canção sofreu restrições porque se supunha era uma apologia as drogas...
Na verdade, foi a primeira vez que Lennon e McCartney fundiram duas composições inacabadas de cada um...
Lennon havia lido o jornal dentro do ônibus sobre a morte de um amigo dos Beatles (num acidente de carro)... E rabiscou alguma coisa aludindo a outras notícias do mesmo jornal...
Paul McCartney anexou uns versos em que lembrava o fato de acordar cedo, fumar um cigarro e sair correndo para pegar o ônibus para ir para à escola...
Well, a fusão das duas partes gerou “A Day in the Life”... Uma bela canção... E claro, tanto o Lennon como o McCartney devem ter ficado surpresos com as “razões” de cada um para escrever o que escreveram e mais ainda, pelo “casamento” perfeito com os versos deles fundidos no resultado do trabalho...
Parece que até os equívocos favorecem os gênios, digo, aos homens de talento, ou será que é o contrário? (Olsen Jr.)



30.12.11

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Farol de Santa Marta (Laguna-SC)
DESTRUÍRAM A PRAINHA


Prainha na manhã de 30.12.2011. Foto: Celso Martins

Por ação e omissão do poder público a Prainha do Farol de Santa Marta (Laguna-SC) está com os dias contados. Confira as postagens sobre o tema no Portal de Notícias Daqui na Rede.

27.12.11

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Eric Hobsbawm sobre 2011:
“Fez-me lembrar 1848...”



Eric Hobsbawm* assistiu às revoltas de 2011 com entusiasmo – e diz que, hoje, quem move as ondas populares é a classe média, não os trabalhadores. “Foi imensa alegria ver, mais uma vez, que o povo pode ir às ruas, manifestar-se e derrubar governos” – diz Eric Hobsbawm, no apagar das luzes de um ano de levantes populares no mundo árabe.

Hobsbawm viveu toda sua longa vida à sombra – ou à luz – de revoluções. Nascido alguns meses antes da Revolução Russa de 1917, foi comunista durante praticamente toda sua vida adulta – além de pensador e escritor inovador e influente. Foi historiador de revoluções e várias vezes militou a favor de mudanças revolucionárias.

Já chegado aos 95 anos, a paixão política sempre viva reflete-se no título de seu livro mais recente Como mudar o mundo [1] [São Paulo: Companhia das Letras, 2011] – e no ativo interesse pelos levantes populares no mundo árabe.

“Não há dúvidas de que me sinto entusiasmado e aliviado” – diz ele, em conversa em sua casa no norte de Londres, bem próxima de Hampstead Heath, casa de paredes cheias de livros de História em várias línguas, e sobre jazz.

“Se alguma revolução ainda é possível, terá de ser mais ou menos como o que estamos vendo. Pelo menos nos primeiros tempos. Gente saindo às ruas para manifestar-se a favor das coisas certas.” Mas logo acrescenta: “Sabemos que não vai durar.”

O historiador que há nele logo vê um paralelo entre a ‘Primavera Árabe’ de 2011 e o “ano das revoluções” na Europa há quase dois séculos, quando um levante na França foi logo seguido por outros nos estados italianos e germânicos, no Império dos Habsburgos e em outros pontos.


Democracias árabes?

“Fez-me lembrar 1848” – diz ele – “outra revolução surgida num país que depois, em pouco tempo, se espalhou por todo o continente.”

Para os que encheram a Praça Tahrir e hoje se preocupam com o futuro de sua revolução, Hobsbawm tem uma palavra de conforto.

“Dois anos depois de 1848, tudo parecia mostrar que a revolução fracassara. No longo prazo, viu-se que não fracassou. Houve muitos avanços progressistas. Aquela revolução fracassou, se analisada no calor da hora; mas, foi vitoriosa, pelo menos parcialmente, vista de mais longe. Embora, depois, já não sob forma de revolução.”

Seja como for, exceto talvez no caso da Tunísia, Hobsbawm vê pouca probabilidade de haver democracias liberais representativas, de estilo europeu, no mundo árabe. Tem-se dado pouca atenção, diz ele, às diferenças entre os países árabes nos quais tem havido manifestações de massa: “Estamos no meio de uma revolução – mas não é a mesma revoluções em todos os lugares”.

“Todas são parecidas, porque há em todas um mesmo descontentamento, e as forças mobilizáveis são semelhantes – uma classe média em modernização, sobretudo os estudantes jovens dessa classe média e, evidentemente, a tecnologia que torna hoje muito mais fácil mobilizar os que se queiram manifestar.”

Para Hobsbawm, as mídias sociais começaram a ter alguma significação para os movimentos globais, na campanha de eleição do presidente Obama nos EUA, que conseguiu mobilizar amplas fatias da população, até então politicamente inativas, através da Internet.

Para ele, “as atuais ocupações, na maioria dos casos, não são protestos de massa, os 99% não estão nas ruas, mas lá está o sempre mobilizável famoso “exército de palco” [2] de estudantes e militantes da contracultura. Algumas vezes, encontram eco na opinião pública, como se vê claramente nas ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas.”

Mas, em todo o mundo, a esquerda da qual Hobsbawm fez parte – como militante, cronista e, pelo menos como intenção, modernizador – está hoje à margem dos protestos de massa e das ocupações.

“A esquerda tradicional foi gerada num tipo de sociedade que já não existe, ou está saindo de cena. Aquela esquerda acreditava no movimento trabalhista de massa como agente que criaria o futuro. Hoje, o trabalho mudou – e fomos desindustrializados – e aquele projeto daquela esquerda deixou de ser viável.”

“Hoje, as mobilizações de massa mais efetivas brotam sobretudo de uma classe média modernizada de um corpo de estudantes imensamente inchado. São mais efetivas nos países nos quais, demograficamente, a população jovem, homens e mulheres, são fatia maior da população, do que o que se vê na Europa.”

Eric Hobsbawm não espera que as revoluções árabes tenham alcance maior no resto do mundo, não, pelo menos, como semente de revolução mais ampla. O mais provável, diz ele, é que os reformadores árabes sejam postos de lado por grupos islamistas, como já aconteceu no Irã.

Segundo ele, deve-se esperar, isso sim, um movimento gradual de reformas, como já se viu nos anos 1980s, quando, por exemplo, na Coréia do Sul, os movimentos jovens e de classe média, obtiveram algumas conquistas contra o poder dos militares [mas, no resto do mundo, a única reforma que se viu foram os muitos movimentos jovens e de classe média, serem cooptados pelo neoliberalismo mais selvagem, como se viu na Argentina e no Brasil, por exemplo (NTs)].


Uma revolução em idioma político do Islã: o Irã, 1979

Quanto aos dramas políticos que ainda se desenrolam nos países de língua árabe, Hobsbawm chama a atenção para o caso do Irã, em 1979, onde, embora se fale língua persa, aconteceu a primeira revolução concebida no idioma político do Islã. Para ele, um aspecto daquela revolução, pelo menos, encontrou eco nas revoluções do mundo muçulmano nos últimos meses:

“As pessoas que fizeram concessões ao Islã, mas não eram, elas próprias religiosas islâmicas, foram marginalizadas – por exemplo, os reformistas liberais e os reformistas comunistas. O que está emergindo como ideologia das massas árabes, não é a ideologia dos que iniciaram as manifestações.”

Embora os levantes árabes o tenham enchido de alegria (até de “alívio”), Hobsbawm vê esse aspecto como “desenvolvimento não previsto e não necessariamente bem-vindo”.


Notas dos tradutores

[1] O livro foi resenhado por Terry Eagleton na London Review of Books (23/2/2011, “Indomáveis”, Terry Eagleton, London Review of Books, em português.
[2] Orig. stage army. A expressão aparece na didascália da peças de Shakespeare, para designar grupos de coadjuvantes que cruzam o palco, desaparecem nas coxias e adiante, reaparecem, como a narrativa exija, e tornam a desaparecer nas coxias.


*Entrevista a Andrew Whitehead, BBC World Service News, London. Eric Hobsbawn on 2011: “It remind’s me of 1848...” Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.

26.12.11

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O PÔSTER NA PAREDE

Por Olsen Jr.

Recebo poucas visitas aqui em casa. Não é que esteja me tornando (as)social ou misantropo. Ou então, pior, em uma ação premeditada tentando “criar” um tipo mais ou menos como o do escritor Dalton Trevisan ou J. D. Salinger, porque a imaginação aguça a curiosidade e assim se pode mitificar o desconhecido tornando, quem sabe, a obra mais interessante.

A verdade é que pretendo deixar o “mundanismo” lá fora mesmo. Para se discutir obviedades há os botecos da vida. Claro que se pode fazer de qualquer canto uma espécie de taberna privilegiada, ou como disse outro dia, bem anotado pelo Horácio Braun em seu eclético cardápio “sou um boêmio, está certo, mas adoro minha casa, para mim é o meu segundo bar”. Não escondo o riso, assim posto, tudo parece muito simples.

Portanto, quando o meu sobrinho ligou indagando se podia me visitar porque tinha um trabalho para fazer na universidade e precisava discutir algumas idéias comigo, assenti. Costumava brincar afirmando que ele era o meu sobrinho favorito, o que era verdade. Inteligente, educado, com interesse igual por literatura, música, artes. De certa forma me enxergava nele quando tinha a sua idade.

No começo falou rapidamente sobre a importância das bebidas para a formação e consagração de talentos (ou não) desde o café e o álcool, passando pelo renascimento até nossos dias. Disse que era um ponto de vista interessante e tinha muito material. Mas percebi que não era bem aquilo que ele pretendia falar comigo, parecia ser mais um aquecimento antes de entrar no busílis (gostaram? Sempre quis usar esta palavra em algum lugar) da questão.

Depois o surpreendo em frente de um pôster na parede, representando num bico de pena, o Cavern Club, lugar onde os Beatles tocavam quando foram descobertos por Brian Epstein que viria a ser o seu primeiro empresário.

O quadro tinha uma história, aliás, como tudo ali. Fora presente de um marujo inglês que o trouxera de Londres e dado a Trude, proprietária de um bar à beira do cais na cidade de Itajaí. O bar era todo decorado com bandeiras de navios de dezenas de países. O pôster do Cavern Club era uma raridade e ficava em frente do balcão. Várias pessoas tinham tentado comprá-lo, inclusive eu, na primeira vez em que lá estive. A proprietária era inflexível, “não estava à venda e pronto”.

--- Como ele veio parar aqui, então? Quis saber.

--- Explico: o bar era freqüentado por médicos, advogados, prostitutas, gente do lugar, estrangeiros, turistas e a marujada que batia ponto ali. No dia em que pretendi comprar o dito, diante da negativa, pus-me a falar dos Beatles para o amigo que me acompanhava, ali mesmo no balcão, bebericando cerveja, olhando para o pôster na nossa frente e monologando sobre os Beatles. Falei, acredito, durante mais de duas horas sobre o assunto. Parecia que estava conversando sobre a minha própria família, tal a intimidade com fatos e coisas deles. Enquanto falava, percebi que a Trude estava sempre nas proximidades, ouvia o que estava dizendo, e para surpresa de todos ali presentes, quando terminei, ela foi até a parede, tirou o quadro, passou um pano devagar, com carinho, como se estivesse em uma cerimônia de adeus, e me deu de presente. “Toma, é teu!”. Não acreditei. “A senhora sabe o que está me dando? Questionei”. “Sim, é teu”. Um médico que estava vendo tudo me disse, “não sei o que você fez, mas meus parabéns fazem mais de três anos que venho tentando comprar este quadro”.

Depois da história sobre o pôster, a conversa se descontraiu um pouco, mas ele não dizia a verdadeira razão para estar ali, o que queria comigo? Também, não sabia como podia ajudá-lo. Nisso toca o celular, ele atende, afirma que a sua mãe veio buscá-lo e ele não pode perder a carona. Combinamos então, para hoje, a tal conversa, daqui a pouco ele deve estar chegando, penso!

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A música é esta “Im My Life”, do disco
Rouber Soul” (1965) dos Beatles...



John Lennon a considerava “sua” primeira obra-prima...
Refere-se as perdas que vamos acumulando na vida (amigos, pessoas que amamos) e também aos lugares que vão sendo desfigurados, das nossas referências que são alteradas... Nem sempre para melhor...
Mas, de tudo sempre resta algo, talvez aquele amor, você, ele ou ela... Que não se esquece...
Embora a via continue e no fundo, continuamos também, sempre sozinhos...
É uma das minhas canções (dos Beatles) favoritas... (Olsen Jr.)

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Natal molhado. Fotos: Celso Martins

24.12.11

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MENSAGENS RECEBIDAS

Da lagunense Maria de Fátima Barreto Michels.



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A AMAPESCA deseja a você e familia um feliz natal, e que o Espirito de Natal esteja com todos nós diariamente, assim tornando uma realidade a fraternidade entre todos os Homens do nosso planeta terra. (Associação dos Maricultores e Pescadores da Cachoeira do Bom Jesus).

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Este velho pps tem rodado todos os anos pelos e-mails, quase todo mundo já viu, não se sabe o autor, mas é um dos mais graciosos cartões de natal.
Com ele, desejo a todos os amigos e suas famílias, um FELIZ E NATAL e um FELIZ ANO NOVO.
Que a festa da natividade de Jesus traga felicidade a todos.

Márcio Rodrigues e Família.

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Queridos Amigos

Um Natal de muita paz, saúde e união!
E que as energias positivas destes dias, perdurem por todo o ano de 2012.

Beijos carinhosos

THERE

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Amigos queridos,

Que o espírito do natal perdure em nossos corações durante todo o ano de 2012, como fonte de esperança, fé e fraternidade.

Abraços,
Regina e Ben

ALGO MAIS NO NATAL

Senhor Jesus!
Diante do Natal, que te lembra a glória na manjedoura,
nós te agradecemos:
a música da oração;
o regozijo da fé;
a mensagem de amor;
a alegria do lar;
o apelo a fraternidade;
o júbilo da esperança;
a bênção do trabalho;
a confiança no bem;
o tesouro da tua paz;
a palavra da Boa Nova;
e a confiança no futuro!...
Entretanto, oh! Divino Mestre,
de corações voltados para o teu coração, nós te suplicamos algo mais! ...
Concede-nos, Senhor,
o dom inefável da humildade para que tenhamos a precisa coragem de seguir-te os exemplos!

EMMANUEL
(Do livro “Luz do Coração”, Francisco Cândido Xavier - Edição CLARIM)

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Olá amigos do Varal!

Voltamos de uma viagem a Santa Catarina onde participamos ativamente da 26ª Feira Catarinense do Livro, em Florianópolis. Um sucesso está sendo a Feira!
E voltando justamente para este frio europeu, resolvemos nos aquecer com as novidades do Varal!
Novidades? Tem muitas? Tem sim!
Estamos selecionando autores para o catálogo da Livraria Varal do Brasil para o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra 2012. O catálogo, que será editado e impresso colorido e em Francês, apresentará os autores de língua Portuguesa aqui na Europa para visitantes, agentes literários e editores. Você não vai deixar seu livro ficar de fora! Entre em contato pelo nosso e-mail varaldobrasil@bluewin.ch e peça as informações sobre como participar.
E se você foi selecionado para o livro Varal Antológico II, não se esqueça de preencher a ficha de adesão enviada para garantir sua participação. Não recebeu? Manda e-mail aqui pra gente! As últimas vagas estão sendo preenchidas na próxima semana!
A edição de Natal e Ano Novo está sendo distribuída e temos a alegria de dizer que já foi recebida por e-mail e baixada nos cinco continentes. São os autores do Varal seguindo firmes no caminho da divulgação da nossa literatura! Não viu ainda? Tem no site (www.varaldobrasil.com) e no blog (www.varaldobrasil.blogspot.com).
Para a edição de janeiro as inscrições estão fechadas, a revista sairá na primeira quinzena de janeiro de 2012. As inscrições encontram-se abertas para a edição de março, com o tema Paz e Amor: Faça Amor e Não a Guerra! Peça o formulário e venha participar conosco! Toda participação na revista é gratuita!
Neste mesmo caminho segue a Livraria Varal do Brasil que, além do catálogo para o Salão do Livro, também prepara uma série de atividades para o ano de 2012.
Gostaríamos de contar para vocês duas novidades de nossa editora: Jacqueline Aisenman* recebeu o prêmio de melhor livro do ano de 2011 (categoria contos) da Academia Catarinense de Letras com o livro Lata de Conserva. E acaba de lançar o livro de pensamentos Palavras Para o Seu Coração pelo Selo Editorial Varal do Brasil. O livro Palavras, que acaba de nascer, já está alcançando um excelente índice de venda!
Quer editar o seu livro? No Brasil temos parceria com a Design Editora e fazemos seu livro com o selo Varal do Brasil. Na Europa temos pareceria com as Edizioni Mandala. Assim, acompanhamos você de perto lá e cá.
E claro que agora ficou ainda mais fácil de saber todas as novidades do mundo cultural: Além dos sites www.varaldobrasil.com e www.livrariavaral.com o Varal do Brasil tem o seu blog de difusão cultural! www.varaldobrasil.blogspot.com. Você pode enviar seus eventos para divulgação e pode ler tudo o que anda sendo divulgado por lá! Além disto, você pode enviar também suas crônicas, contos, poemas, etc., para serem publicados no blog! Varal do Brasil, um blog cheio de pequenas surpresas!
Enviar seus livros para nossa Livraria, editar seu livro, participar da revista, do catálogo, da antologia... Nossa! Como tem novidades no Varal! Para saber detalhes de cada um dos assuntos, você já sabe: varaldobrasil@bluewin.ch

E neste momento festivo aproveitamos para desejar a você um Feliz Natal e um Ano de 2012 pleno de sucesso, saúde e realizações!
O Varal do Brasil estará de férias entre 23 de dezembro e 02 de janeiro.
Voltaremos em 2012 com toda a alegria para estar junto de vocês divulgando nossa cultura!

Um grande abraço,
A Equipe do Varal

Revista VARAL DO BRASIL
Livraria VARAL DO BRASIL SARL

www.varaldobrasil.com
www.livrariravaral.com
http://varaldobrasil.blogspot.com/

*A lagunense Jacqueline Aisenman é Representante da REBRA na Suíça, membro da Academia de Letras do Brasil, conselheira Interanacional da LITTERARTE, membro da União Brasileira de Escritores (UBE), membro Correspondente da Academia de Teófilo Otoni e da Academia de Artes de Cabo Frio (ARTPOP).

*

Que este dia possa lhe trazer
Momentos de fé e de esperança.
Que você possa fazer deste dia...
Todos os dias da sua vida.
Que a paz possa reinar...
Eternamente em seu coração...
Deixando que a alegria...
Se manifeste em todos os momentos
Da sua vida.
São os nossos sinceros desejos...
Da Familia Blanco
Para este Natal e todo o Novo Ano que se aproxima!!!

JOSE CARLOS BLANCO, MARIA HELENA E FAMILIA

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QUEIRA RECEBER NOSSOS VOTOS DE UM FELIZ NATAL E UM ANO NOVO DE MUITAS BENÇÃOS E ALEGRIAS!

ROGÉRIO QUEIROZ e ETEL.

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Queridos amigos,
Desejo hoje e sempre Paz, Saúde, Harmonia, Amor e Alegrias em suas vidas, e que a bondade e consciencia se espalhem e contaminem outras vidas .... como neste video que encanta com cores, ritmos e artistas .
grande beijo!
Tereza Barbosa


21.12.11

'Seo' Chico se encantou!

Faleceu no Campeche o senhor Chico Daniel. Seu corpo está sendo velado na capela de São Sebastião. O enterro acontece às 17 horas desta quarta-feira (21.12). Confira a manifestação da jornalista Elaine Tavares sobre a morte do sr. Chico. "Foi-se embora o pescador, o homem que trouxe tanta alegria ao Campeche. Seu Chico acaba de encantar... Nestes tristes dias de fim de ano, sua perda há de fertilizar a estrada de tantas lutas que ainda estarão por vir. O bar do Seu Chico fez história no Campeche e sua derrubada também o derrubou. Mais um ponto para os vilões do amor!!!! A tristeza é infinita...".

20.12.11

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Sessão Viking
DOSE DUPLA
Olsen Jr.

Os emperdenidos de amanhã.
Por que o Natal me dói?



Ilustração: Ylário Belquér

OS EMPEDERNIDOS DE AMANHÃ

Por Olsen Jr.

Havia um par de chinelos na entrada do restaurante, no primeiro degrau da escada que dava para a calçada. Era de uma criança. Os dois pés deveriam estar alinhados no lado direito da porta, não fosse alguém ter chutado o esquerdo, sem o perceber, quando entrou. Era um calçado de material sintético e não destes comuns, de tiras que quase todo o mundo na região usava. Faço aquelas observações mentalmente enquanto cumprimento o garçom, acreditando no inusitado daquela atitude: típica da população interiorana. É o que me ensinaram na década de 1950, quando era guri em Chapecó. Todas às vezes que ia visitar alguém, num gesto instintivo (de uma educação que lhe era anterior) tirava os sapatos e os deixava na porta de entrada.

Entro e vejo o relógio na parede dos fundos marcando 21h50min, estranho penso, alguém ter esquecido aqueles chinelos lá. Quando me aproximo do balcão, quase não dou por elas, duas crianças com menos de nove anos de idade, tendo nas mãos o que parecia ser estas embalagens de isopor onde se leva o que os comensais não conseguiram degustar em uma refeição, ou eles próprios pedem para levar para comer em outra hora.

Ao ver os dois pequenos ali em frente faço logo a advertência de que não deveriam deixar os calçados por aí, que alguém poderia levar, e um deles arregala os olhos e tive a sensação de que uma vida inteira lhe passou pela cabeça antes de certificar-se de que estava falando dos “seus” chinelos e sair em disparada, driblando os garçons entre as mesas, não sem antes agradecer o que viera fazer ali e ser secundado pelo outro garoto que repetiu o gesto, do agradecimento e da desabalada correria ali dentro.

Pergunto para um garçom se eles queriam comida. --- “Não sei” – respondeu... Indago para outro sobre o que “eles” pretendiam. --- “Quem?” Devolve-me a indagação dando a entender que não tinha visto nada... Hei! Interpelo um terceiro, o que as crianças estavam fazendo aqui sozinhas há esta hora? --- “Estava atendendo uma das mesas, não prestei atenção nelas “...

Vou para o balcão, enquanto aguardo, fico imaginando o quanto estamos ensimesmados com nós mesmos. Duas crianças entram num restaurante lotado e ninguém dá por elas. Estavam ali sozinhas, aparentemente sem nenhum responsável... Sou interrompido pelo barman que me pede “vai o de sempre?”, aceno com a cabeça e resolvo fazer mais uma tentativa para saber o que os dois pequenos queriam ali àquela hora... “Estavam vendendo alho” , responde-me o caixa que os havia atendido, erguendo à altura da cabeça, uma bela réstia contendo várias cabeças daquele tempero. Antes que fizesse algum comentário, ele próprio acrescentou (ainda com a amostra do que tinha adquirido nas mãos) “onde já se viu, duas crianças trabalhando a esta hora”... “E nem é o trabalho, mas eram duas crianças”, ratifica “vai ver que os pais estão por aí, em algum bar, esperando elas chegarem com algum dinheiro para beber mais”... Ele, após aquela observação, volta-se para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

Beber ou não beber, não tem importância, o que deveria importar é o que estamos fazendo com as “nossas” crianças? Estas criaturinhas que tiveram as “suas” infâncias suprimidas, que ficaram “adultas” antes do tempo, vão se tornar os “durões” de amanhã, sem formação, sem sensibilidade para interromperem aquela seqüência hereditária, apenas reproduzindo de maneira ambígua a velha lição, aprendida nas ruas, no infortúnio: diante da vida, sobreviver é o que importa e se há um paraíso aos homens de boa vontade, bem, então vamos descobrir por nós mesmos, embora, claro, ninguém acredite nisso por que: primeiro, negamos-lhes a infância com a nossa caridade; depois, sustentamos-lhes a adolescência com a nossa indiferença; mais tarde, suportamos-lhes a maioridade com o nosso medo. Ontem, lhes demos o que tínhamos de menos: o excedente do nosso egoísmo; hoje, pensamos ouvir-lhes os gritos com o que temos demais: o zelo pelo que acumulamos e amanhã, pretendemos perdoar-lhes devolvendo-lhes a cidadania com o que ainda resta, trocando o nosso desprezo pelo desprezo deles!


A música é esta...



“I Started a Joke”, do Bee Gees…
Lançada em 1968, foi a primeira canção deles a fazer sucesso no Brasil e primeira colocada na lista da Billboard...
Também integrou a trilha sonora da novela “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso em 1969...
A primeira novela a romper com os cânones do que até então se fazia na área, a primeira a incluir cenas aéreas, em fazer tomadas de rua, a incluir a gíria, a usar o merchandising...
A insolência do cotidiano cabe aqui, acredito, combina com o texto, o que procuro fazer sempre... (Olsen Jr.)

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POR QUE O NATAL ME DÓI?

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem)

Por Olsen Jr.

Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “...Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”... As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando... Vinha o café... Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram... Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído... A família foi se distanciando... Depois os meus pais também morreram... Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura... Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros... Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói... Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!


Imagine




A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon, mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil...
Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la...
Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”... Lembrar da Utopia também é válido...
Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também...
Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972... Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto...
A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971... Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia... (Olsen Jr.)
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Imagens correlatas

É aqui que o Sol se esconde.

Jesus na moldura do escultor Cláudio Andrade.

Presépio artesanal de Anézio Agenor de Andrade.

Fotos: Celso Martins

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Mosquito por Evangelista

Confira o texto A morte do blogueiro,
por Fernando Evangelista, sobre
Amilton Alexandre (Mosquito).
No site Nota de Rodapé.

19.12.11

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Honduras/ESPECIAL



Estão nos matando”, denuncia
jornalista Ronnie Huete Salgado


O jornalista hondurenho Ronnie Huete Salgado*, que passou um período de exílio em Sambaqui (Florianópolis-SC), pulou e fotografou o Carnaval de Santo Antônio de Lisboa, escreve denunciando: “Estão nos matando”. Por uma questão de solidariedade com aquele povo sofrido, publicamos o artigo na íntegra, em espanhol, esperando contribuir, minimamente que seja, na divulgação do que se passa em Honduras.


“¡Nos están matando!”

Las mujeres periodistas que recién fueron torturadas públicamente por la guardia presidencial y los militares, exhiben ante el mundo el irrespeto a la libertad de expresión.

Tegucigalpa, 15 de dic. La era del “porfiriato” involuciona su intolerancia a la crítica, a un sistema neo fascista de principios del siglo XXI.

El pasado martes 13 de diciembre quedó claro. Reprimir hasta acallar, en frente de lo que representa la casa presidencial del régimen del “porfiriato” es un hecho.

Ante el asesinato imparable de los periodistas en Honduras, la prensa independiente realizó una marcha pacífica hasta casa presidencial. La organización de esta actividad la efectuaron un grupo de mujeres periodistas, quienes con velas y vestidas de luto marcharon para exigir el respeto a la vida.

Esta marcha pacífica se convirtió en una embestida dirigida por las órdenes del “porfiriato” que con sus perros amaestrados a los que llaman guardia presidencial, y militares que resguardan la casa presidencial, atacaron irracionalmente a las marchantes.


Moderna dictadura

La lucha fue frente a frente, con la ganancia de la razón y las exigencias del respeto a la vida, contra la más cruda intolerancia de la dictadura “moderna del porfiriato” quien no dudo en torturar públicamente a las mujeres periodistas.

Claudia Mendoza, Iris Mencia, Sandra Sánchez, Miriam Amaya, Eleana Borjas, entre otras que no claudicaron ante la represión de gases lacrimógenos, y las armas de tortura que utilizan los enemigos del pueblo, llamados militares.

Una de las marchantes, quien por razones de seguridad pidió no se revelara su nombre, manifestó que esta marcha fue por la vida, por el respeto a los derechos humanos y la libertad de expresión.

Uno de los objetivos de la marcha era de llegar a casa presidencial y leer un comunicado y hacer una protesta pacífica contra los asesinatos a los periodistas, así como recién lo hizo un grupo de periodistas, quienes en su mayoría representan al “porfiriato”.


Merito de asesinato

La brutalidad de la guardia presidencial y los militares que resguardan ese lugar gubernamental, fue extrema, describe la periodista que también fue afectada por las bombas lacrimógenas.

Según la reportera, en la calle, en la esquina o en cualquier lugar por donde se camina en Honduras es imposible vivir, puesto que la vida de los periodistas que redactan lo visible en la dictadura del “porfirtiato” es merito para asesinarles.

“los periodistas no nos sentimos libres de caminar públicamente, ¡nos están matando!”, describió con impotencia la periodista.

Las mujeres periodistas que participaron en esta marcha exigen que por lo menos se nombre una comisión interventora, y que exista una verdadera depuración de la policía nacional de este país centroamericano.


Instituciones Incrédulas

Según la entrevistada, en Honduras se ha llegado al punto de que el sistema no funciona,”se vive en un estado fallido”, puesto que a su criterio todas las instituciones que representan la seguridad estatal ya no tienen credibilidad.

Alguno de los medios tradicionales en Honduras entre ellos los que pertenecen a Carlos Flores Facussé, Jorge Canahuati y Rafael Ferrari, publican reacciones de malestar de estos dueños, quienes mandan a sus sirvientes de la comunicación a despotricar cualquier intento de lucha social por la liberación de Honduras.

Bajo este terrorismo mediático, la prensa independiente o alternativa de Honduras lucha, para denunciar los acontecimientos de la dictadura del porfiriato.

El Colegio de Periodistas de Honduras (CPH), actúa según los mandatos de estos mercaderes de la información, puesto que sus acciones conservadoras siguen los lineamientos de la dictadura del “porfiriato”, convocando marchas sin sentido y sin ninguna demanda.


Periodistas de “estomago”

La periodista afectada también describió que el periodista como cualquier ciudadano debe ser político y tomar una postura, puesto que si no lo hace no se le puede considerar un ser humano.

“El periodista debe denunciar, no acallar, no debe de convertirse en periodista de estomago como la mayoría que trabaja en los medios golpistas” afirmo con ahínco la entrevistada.

¿Qué íbamos hacer un grupo de mujeres vestidas de negro?, se pregunto la periodista, ante la embestida de los militares y la guardia presidencial. “que podemos esperar si torturan públicamente a un grupo de mujeres desarmadas” finalizó la entrevistada.


Según el informe del Observatorio de la Violencia publicado en octubre pasado, se espera que a fin de año la tasa de homicidios en Honduras alcance la dramática cifra de 86 por cada 100,000 habitantes. Es decir, el doble de la tasa registrada durante el primer semestre de 2011 (43.7) y casi tres veces la de 2010 (36.6). Cifras que superan con creces las de varios países en guerra.


*El autor de este artículo y fotografías es corresponsalía voluntaria de la revista Caros Amigos editada en São Paulo, Brasil para Centroamérica, La Agencia informativa Latinoamericana Prensa Latina, Kaos en la red y el portal http://desacato.info editado en Florianópolis, Brasil.

Cualquier atentado o amenaza para el autor de este artículo es responsabilidad de quienes representan y gobiernan el Estado de Honduras.

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Filhote de bem-te-vi. Fotos: Celso Martins

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M O S Q U I T O

Missa de sétimo dia


A família de Amilton Alexandre convida para a missa de sétimo por seu falecimento, a se realizar nesta segunda-feira (19.12), às 19 horas, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, junto à praça de mesmo nome, no bairro do Estreito (Florianópolis-SC).

Confira abaixo um texto de Emanuel Medeiros Vieira sobre o falecido.

As fotos que acompanham a presente postagem foram feitas na tarde deste domingo (18.12) na praça Getúlio Vargas (Santo Antônio de Lisboa). O filhote de bem-te-vi caiu do ninho e permaneceu no chão, acossado por outros pássaros, gritando desesperadamente pelos pais. Mais foi recolocado próximo ao ninho, onde poderia receber a atenção dos pais.



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DEPRESSÃO, SOLIDÃO
E OUTROS TEMAS
NÃO NATALINOS.
(NÃO?)



Por Emanuel Medeiros Vieira


EM MEMÓRIA DO MEU QUERIDO AMIGO AMILTON ALEXANDRE (“MOSQUITO”)

“A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer
companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós”.
(José Saramago)



A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a depressão como de caráter pandêmico, acreditando que existam hoje 240 milhões de pessoas que são portadoras deste transtorno no mundo todo.

Muitos consideram que alguns eventos da vida, como a solidão, o medo e a ansiedade, o excesso de informações, a carência de tempo, sejam algumas das causas para o elevado número de deprimidos e dos portadores da síndrome do pânico.

Em outros textos, tenho me referido à absolutização dos valores mercantis, à alienação, ao individualismo, à crença na juventude eterna, a falta de valores consistentes além do verbo comprar, como elementos da vida em sociedade nos dias de hoje, no qual valemos apenas pelo número do nosso cartão de crédito.

Quero ir um pouco mais além.

Andrew Solomon – em sua densa obra “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia Da Depressão” – lembra que há duas modalidades importantes de tratamento da depressão: as terapias da fala, que lidam com palavras, e terapias de intervenção física, que incluem os cuidados farmacológicos e os eletrochoques ou terapia eletroconvulsiva (TEC).

Quero me deter na terapia da fala.

As terapias da fala saem da psicanálise, “que por sua tem origem no ritual de expor os pensamentos perigosos oralmente”, formalizado inicialmente pela doutrina confessional da Igreja”.
Segundo o autor, a psicanálise é uma forma de tratamento, na qual técnicas específicas são usadas para desenterrar um trauma que desencadeou uma neurose.

Parece moda, falar mal de Freud, mas, descobrindo o inconsciente (o “saber que não se sabe”), ele abriu um caminho ou uma fonte no qual a maioria foi beber, e precisa beber.

O modelo freudiano – nas palavras de T.M. Luhrmann, “uma visão da complexidade humana, da profundidade, uma forte exigência de luta contras as recusas próprias de cada um, e um respeito pelas dificuldades da vida humana.”

Podemos reconhecer – lembra Solomon – APENAS UM PEQUENO FRAGMENTO DOS NOSSSOS ÍMPETOS E UM FRAGMENTO AINDA MENOR DOS ÍMPETOS DE OUTRAS PESSOAS.

Por muitos anos, falar sobre a depressão era a melhor cura. Ainda é uma cura.

“Tome nota” – escreveu Virginia Woolf em “Os Anos” – e “a dor vai embora”.

O que se busca é uma luz para a existência de cada um se tornar melhor – além das ancestralidades dolorosas, da hereditariedade, e de um modelo imposto que vampiriza os nossos mais generosos projetos, amesquinhando quase tudo ao nosso redor.

E que, cada um à sua maneira, vá aprendendo – no luto e na dor – a lidar com perdas.

Pois para todos – cultos, fúteis, deslumbrados, egoístas ou generosos – chegará o momento da Revelação. Ninguém escapa.


PS: Desejo aos pacientes leitores, um presente ótimo, um futuro melhor ainda, e que possamos sempre sorrir do Tempo – Senhor dos nossos dias.
Apesar de tudo, a vida é o valor maior: um luminoso 2012!
Se Deus Quiser, estarei de volta em fevereiro.


(Salvador, dezembro de 2011)

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15.12.11



O legado de Mosquito é
apropriado e interpretado

Um sensível poema de Emanuel Medeiros Vieira e um texto vibrante de Geraldo Barbosa sobre Amilton Alexandre abrem a postagem do pós-falecimento do Mosquito blogueiro, o “paladino malcriado”. Também publicamos uma opinião editorial sobre as apropriações (legítimas e ilegítimas) da memória e do legado do jornalista que estão em andamento.

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M O S Q U I T O

Por Emanuel Medeiros Vieira

Te conheci nos anos 70 – na luta intensa contra a ditadura, fazias a “TV do Povo”, articulações, reuniões, batalhando com outros também já “encantados”, como Roberto Motta, Adolfo Luiz Dias, Marcos Cardoso, Alécio Verzola, Jarbas Benedet – não citando muitos.

Foste meu aluno no Instituto.

Moraste uns tempos na minha casa da Lagoinha (e do Janga), onde abriste um bar.

Nos correspondíamos.

Quando ias à Brasília, me procuravas.

E soube hoje agora que partiste.

A literatura é sempre um caminho de transcendência e, sem pretensões maiores, queria te homenagear.

Pelo teu espírito crítico, pela tua inquietude, pela tua coragem.

Farás falta, num tempo de tanto individualismo, de levar vantagem em tudo, da crescente banalização do mal e da traição de tantos valores que forjaram as nossas gerações.

Mas não quero ideologizar o discurso.

Para André Malraux, a arte é “o lado vitorioso do único animal que sabe que vai morrer”.

A tragédia da morte – para ele – está no fato de que ela transforma a vida em destino, de que a partir dela, nada mais pode ser compensado.

Mas não podemos esquecer.

É preciso deixar que os ”mortos falem”.

É preciso escrever e vencer o nosso pobre e efêmero eu!

Que àqueles que eventualmente se rejubilam com esta perda, saibam que nada acaba, que tudo é dialético, e que novos “mosquitos” já estão sendo fecundados.

E depois de nos, outros pegarão o bastão.

Em favor da paz, conserve a fidelidade a si mesmo.

Lembre-se que, no dia do Calvário, a massa aplaudia a causa triunfante dos crucificadores, mas o Cristo, solitário e vencido, era a causa de Deus.

Continuaremos por ti, amigo Amilton Alexandre, mais conhecido por Mosquito.

Viva o Mosquito!

Mosquito vive!

(Salvador, dezembro de 2011)

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M O S Q U I T O

Por Geraldo Barbosa*

A morte de Amilton Alexandre, o MOSQUITO, não afeta apenas a nós – seus amigos, familiares, admiradores e companheiros de militância – atinge a toda a nossa geração e aos lutadores do povo de Santa Catarina. Ele foi um grande lutador pelas causas mais bonitas e valiosas da humanidade: a liberdade, a justiça social, a democracia para o povo trabalhador, o socialismo.

Eu o conheci na viagem para o Congresso de refundação da UNE (Salvador – BA) em 1979 e ali conheci a saúde civil e a impressionante capacidade de indignação que marcava sua personalidade. Durante a viagem, diante de uma barreira policial que tentava impedir nossa delegação de chegar ao Congresso da UNE (então proibido pela ditadura) como uma “ventania” do sul aglutinou rapidamente um protesto. Atuamos juntos, em seguida, na campanha para a eleição estudantil na Universidade Federal de Santa Catarina. Ele era candidato ao Diretório do Centro Sócio-Econômico e apoiava a nossa chapa - Unidade - para o DCE (eleita com Adolfo Dias na presidência, eu era um dos vice-presidentes). Este ano de 1979 ficou na nossa memória histórica como o ano mais importante do movimento estudantil em Santa Catarina. Naquele ano, Mosquito teve um importante papel, marcado por sua presença de espírito, na lutas por um novo Restaurante Universitário e pela preservação da UFSC como Universidade pública; contra o projeto do governo Figueiredo que tentava privatizar as Universidades federais. Fomos companheiros na organização da Novembrada e no cárcere da ditadura.

Depois da Novembrada, Mosquito participou com bravura da luta pela revogação da Lei de Segurança Nacional, enfrentando frontalmente o regime militar. Era um companheiro valente e sincero. Ele marcou nossa geração, que se formou na luta política sob e contra a ditadura, como um símbolo vivo da juventude insubmissa.

Nos últimos anos - no seu “Blog” Tijoladas do Mosquito - denunciou corruptos e corruptores, denunciou crimes dos donos do dinheiro, do poder e da mídia. Em cada tijolada ele falava e publicava o que não se permite publicar na imprensa controlada pelos monopólios econômicos. As causas pelas quais lutou e as denuncias verdadeiras que realizou (e pelas quais foi perseguido) tem por herdeiros a luta do povo trabalhador e de todos que se identificam com sua sede de justiça. Não buscava benefícios pessoais; mas praticar, do jeito que podia e sabia fazer, seu compromisso de vida e de luta.

Sua vida é toda ela um testemunho de rebelião criadora, exemplo de integridade, coragem política. Buscava um socialismo humanista. Sua identidade socialista não se dividia; assim como o ser humano não se divide: não se pode ser socialista em política e agir em contradição com o socialismo em questões econômicas, culturais ou morais.

É difícil prestar um depoimento sobre um amigo. Sua amizade franca, alegre e calorosa enriquecia nossas vidas. Trazia consigo alegria de viver e generosidade espontânea; o que se combinava com sua agressividade na luta pelas causas dos explorados e oprimidos. A evocação de seu compromisso com a humanidade permanecerá presente conosco na luta por uma sociedade verdadeiramente humana. Mosquito lutava por uma sociedade de seres humanos livres e iguais; onde a liberdade de cada será a condição da liberdade de todos e a liberdade de todos a condição para a liberdade de cada indivíduo. Mosquito, obrigado por ter existido.

(14 de dezembro de 2011)

*O professor Geraldo Barbosa foi um dos sete estudantes presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional em 1979 pela participação (ativa) na Novembrada, junto com Amilton Alexandre e outras cinco pessoas.

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O P I N I Ã O
Apropriações
e apropriações
de um legado


Por Celso Martins*

Um dia após o enterro de Amilton (Mosquito) Alexandre dois episódios ilustram que existem apropriações e apropriações, uma legítima, com respaldo na solidariedade, camaradagem e parceria, outra, com ares de ilegitimidade, tende a cair nos braços de interesses político-eleitorais.

A apropriação legítima está sendo operada com muita competência pelos jornalistas Sérgio Rubim (Canga) e Jerônimo Gomes Rubim, já faz algum tempo, através da ocupação do espaço que Mosquito deixou, ainda vivo, conforme podemos observar nos textos por ele deixados (Tijoladas do Mosquito continua no ar). Na real os Rubim continuam uma trajetória iniciada antes do surgimento do Tijoladas, com características próprias.

A outra iniciativa, que poderia assumir características de “desobediência civil” e, aí sim, resultar em medidas concretas e eficazes de moralização da coisa pública, nasce aparentemente tutelada. Estaria surgindo no cabresto de interesses outros, desassociados do que poderíamos chamar de “memórias mosquitianas” ou o jeito “mosquitiano” de se manifestar. Trata-se, aqui, caso a iniciativa tome o rumo apontado em manifesto**, de uma apropriação indébita, uma extorsão intelectual, um estupro politizado.

Felizmente, entre os que tomaram a iniciativa do ato desta sexta-feira (16.12, 17 horas, Catedral), existem cabeças iluminadas que podem conduzir a indignação resultante da morte de Mosquito – pela forma e nas circunstâncias em que aconteceu –, no caminho Político sim, mas com P maiúsculo, sem visar votos na próxima eleição. Caso este setor do movimento social de Florianópolis não consiga conduzir este sentimento pelo caminho sadio e desinteressado, teremos nada mais que um comitê de campanha em franca (e antecipada) atividade.

Nunca é demais lembrar: nos dias que antecederam a morte, Mosquito escreveu e telefonou para diversas pessoas pedindo emprego, queria refazer a vida e precisava de um plus para dar a start. Aquele era o momento para os acólitos de hoje "exaltarem a memória" do blogueiro.


*Celso Martins é jornalista e historiador, editor do Portal de Notícias Daqui na Rede e dos blogs Sambaqui na Rede2 e Fragmentos do tempo2. Cobriu pelo jornal O Estado a Novembrada em 1979 em Florianópolis que resultou nas prisões de sete estudantes, entre eles Amilton Alexandre.

**O citado manifesto abre anunciando o mote: “Mandem me prender! Afirmo, como Mosquito afirmou: Dário é corrupto!” E anuncia um “Júri Popular” denominado “Tijolada por Justiça”, informando em seguida a data e local do ato.

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Enquanto isto, em Santo Antônio de Lisboa...
Foto: Celso Martins, manhã de 15.12.2011