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13.4.12

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Álamo revisitado
Olsen Jr.

Rosário dos Pretos
Emanuel Medeiros Vieira

Deus e a Evolução
Leonardo Boff


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O ÁLAMO REVISITADO

Por Olsen Jr.

Foi durante o café, no restaurante aqui perto de casa, que a pergunta me surpreendeu. Já deveria estar vacinado contra certos tipos de interpelações. Todas às vezes que alguém começa afirmando “oh, fulano, você que é mais esclarecido”... Vem um pedido em seguida. Bem, mas o garçom se limitou em afirmar: o que é o Álamo? O que esta palavra significa? Olhei para ele, esquisito, partindo de quem partiu. Lembrei na hora do conto bem humorado de Artur de Azevedo em que o garoto pergunta para o pai, o que é plebiscito? Começo a rir sozinho enquanto o garçom, sem entender nada, tenta acompanhar-me acreditando que fosse com ele. Desculpe, digo, me veio à cabeça uma história que li quando criança e depois eu conto.
- Tudo bem, diz o garçom, só queria saber...
- É que, assim solta, a palavra fica a mercê de várias possibilidades, brinco, tentando adivinhar de qual contexto aquilo tinha saído. Como ele não esclareceu, fui dizendo as primeiras coisas que me ocorreram. Tinha que começar por algum lugar, o Álamo é uma árvore, é um conhecido estúdio de gravação e dublagem... Também é o nome de um forte no Texas. Na verdade, uma Vila que tinha sido colonizada por espanhóis e quando o território foi disputado por americanos e mexicanos, serviu de palco para uma das mais conhecidas batalhas da história onde cerca de 400 pessoas, entre agricultores e pecuaristas e mais alguns pequenos grupos de voluntários resistiram por quase 20 dias o cerco de um exército com mais de seis mil homens. Aliás, deu um belo filme com John Wayne e Richard Widmark... E no final, acrescento, tendo súbita lembrança, como a ordem era não deixar sobreviventes, restou algumas mulheres e crianças, também, alguns homens, entre eles, talvez um dos poucos heróis (com tudo o que esta palavra significa) da história norte-americana, o David Crockett, que acabou sendo executado. Também, digo, era um dos meus gibis favoritos, num tempo em que estes “heróis” ainda tinham caráter. Para concluir, aqueles quase 20 dias de resistência no Álamo, permitiram que se fizesse uma Constituição para o Texas, e que foi, em seguida, anexado aos outros Estados da União.
O garçom se deu por satisfeito e foi cuidar dos seus afazeres. Ainda bem, pensei, porque não me ocorre mais nada envolvendo a palavra Álamo. Depois que ele se afastou, fiquei imaginando aqueles heróis dos gibis, tirados da história, do guia e pioneiro Kid Carson, do caçador William Sidney Cody, o Búfallo Bill como ficou conhecido porque matava búfalos para alimentar os homens que construíam as estradas de ferro, do Daniel Boone... Do Roy Rogers e do Rex Allen, tirados do cinema, e claro, do Gordon Scott, Lex Barker e Johnny Weissmüller interpretando o famoso Tarzan, do Edgar Rice Burroughs... Não temos o hábito, nem a tradição, de cultuar nossos homens célebres, mas vejo o que poderia ser feito com o Cândido Rondon, a Coluna Prestes, e naturalmente, o bom e velho Monteiro Lobato, mas aí seria baratear os nossos sonhos, talvez, ficam as dúvidas.
O que eu não confessei para o Cleber, no restaurante, foi que “O Álamo” tinha sido o primeiro filme que assisti, em Curitiba, Cine Vitória (final de 1969), por isso estava impregnado na minha memória, tinha 14 anos e marcou muito. Está bem, mas a gente não precisa contar tudo sempre, pô!
Ah! E o Arthur de Azevedo ficou para outro dia...


*Olá, camaradas, salve!
Tendo de viajar em breve, talvez amanhã mesmo, para Florianópolis, antecipo a crônica...
Talvez consiga enviar mais um texto, além deste porque nunca sei quando vou voltar...
Tudo vai acontecendo assim, como no texto, basta tirar partido, na condição de observador...
A música poderia ser esta, a mesma da trilha sonora do filme.
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Composta por Dimitri Tiomkin com letra de Paul Francis Webster...
O filme ganhou o “Oscar” de 1961 na categoria de Melhor Som, a Melhor Trilha Original...
Dimitri era norte-americano naturalizado, de origem judaico-ucraniana...
Compôs grandes trilhas para filmes como: “O Velho e o Mar”, “Os Canhões de Navarone”, “Disque M para Matar”, “Um Fio de Esperança”, “A Queda do Império Romano”, entre outros... (Olsen Jr.)
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ROSÁRIO DOS PRETOS
(NOVAS CARTAS BAIANAS)
IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS
(E BARUCH DE SPINOZA)

Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA*

Os membros da Irmandade dos Homens Pretos “perderam a paciência ante os constantes atrasos das obras de restauração da Igreja do Rosário dos Pretos”, uma das mais famosas de Salvador.

Como informa o jornalista Biaggio Talento, eles resolveram reabrir o templo, mesmo com a reforma inconclusa, no próximo domingo, dia 15.

A Igreja do Rosário dos Pretos foi erguida no século XVIII, e é referência histórica no processo de resistência dos negros.

A reforma custou cerca de R$2,3 milhões – recursos do ministério do Turismo, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e contrapartida do governo estadual.

O prazo? Estourou! E os Irmãos da Confraria não se conformaram.

É preciso fazer algo pelo Pelourinho – abandonado à cracolândia, à violência, à mendicância –, quem sabe, o monumento histórico mais importante do Brasil.

É um pedaço fundamental da nossa História, que está sendo constantemente degradado.

Andar por lá, só com companhia, segurança e em determinados horários (de preferência, matinais).

A INTOLERÂNCIA É ATEMPORAL E ETERNA

Foi com essas palavras que a comunidade judaica de Amsterdã, no século XVIII, excomungou o filósofo Baruch de Spinoza (1631-1677), um dos mais importantes da História:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza. Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele”.

MAS A SUA OBRA PERMANECE!

Quem se lembra dos seus inquisidores?

(Salvador, abril de 2012)


* Celso, meu irmão
Não quero te atropelar com textos.
Mas é algo muito importante:
A Igreja do Rosário dos Pretos, aqui em Salvador, é um monumento do século XVIII, muito importante.
é referência histórica no processo de resistência dos negros.
Os prazos para a sua reforma estouraram. E a Irmandade dos Homens Pretos perdeu a paciência ante os constantes atrasos na sua restauração. E RESOLVERAM REABRIR O TEMPLO NO PRÓXIMO DOMINGO, DIA 15.
[...]
Faço também uma meditação sobre a degradação do Pelourinho - e algo que acho, igualmente, muito valioso - sobre a "excomunhão" do filósofo Baruch de Spinoza, um dos mais importantes da História.
[...]
Gestei esse texto durante bom tempo!
Abraços do Emanuel

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Como Deus emerge no
processo evolucionário?


Por Leonardo Boff*

A nova cosmologia, derivada das ciências do universo, da Terra e da vida, vem formulada no arco da evolução ampliada. Esta evolução não é linear. Conhece paradas, recuos, avanços, destruições em massa e novas retomadas. Mas, olhando-se para trás, o processo mostra uma direção: para frente e para cima.
Somos conscientes de que renomados cientistas se recusam a aceitar uma direcionalidade do universo. Ele seria simplesmente sem sentido. Outros, cito apenas um, como o conhecido físico da Grã-Bretanha Freeman Dyson que afirma: “Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, tanto mais evidências encontro de que ele, de alguma maneira, devia ter sabido que estávamos a caminho”.
De fato, olhando retrospectivamente o processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões de anos, não podemos negar que houve uma escalada ascendente: a energia virou matéria, a matéria se carregou de informações, o caos destrutivo se fez generativo, o simples se complexificou, e de um ser complexo surgiu a vida e da vida a consciência. Há um propósito que não pode ser negado. Efetivamente, se as coisas em seus mínimos detalhes, não tivessem ocorrido, como ocorreram, nós humanos não estaríamos aqui para falar destas coisas.
Escreveu com razão o conhecido matemático e físico Stephen Hawking em seu livro Uma nova história do tempo (2005): “tudo no universo precisou de um ajuste muito fino para possibilitar o desenvolvimento da vida; por exemplo, se a carga elétrica do elétron tivesse sido apenas ligeiramente diferente, teria destruído o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra, a vida não poderia existir".
Como emerge Deus no processo cosmogênico? A ideia de Deus surge quando colocamos a questão: o que havia antes do big-bang? Quem deu o impulso inicial? O nada? Mas do nada nunca vem nada. Se apesar disso apareceram seres é sinal de que Alguém ou Algo os chamou à existência e os sustenta no ser.
O que podemos sensatamente dizer, é: antes do big bang existia o Incognoscível e vigorava o Mistério. Sobre o Mistério e o Incognoscível, por definição, não se pode dizer literalmente nada. Por sua natureza, eles são antes das palavras, da energia, da matéria, do espaço e do tempo.
Ora, o Mistério e o Incognoscível são precisamente os nomes que as religiões e também o Cristianismo usam para significar aquilo que chamamos Deus. Diante dele mais vale o silêncio que a palavra. Não obstante, Ele pode ser percebido pela razão reverente e sentido pelo coração como uma Presença que enche o universo e faz surgir em nós o sentimento de grandeza, de majestade, de respeito e de veneração.
Colocados entre o céu e a terra, vendo as miríades de estrelas, retemos a respiração e nos enchemos de reverência. Naturalmente nos surgem as perguntas: Quem fez tudo isso? Quem se esconde atrás da Via-Lactea? Como disse o grande rabino Abraham Heschel de Nova York: “Em nossos escritórios refrigerados ou entre quatro paredes brancas de uma sala de aula podemos dizer qualquer coisa e duvidar de tudo. Mas inseridos na complexidade da natureza e imbuídos de sua beleza, não podemos calar. É impossível desprezar o irromper da aurora, ficar indiferentes diante do desabrochar de uma flor ou não quedar-se pasmados ao contemplar uma criança recém-nascida”. Quase que espontaneamente dizemos: foi Deus quem colocou tudo em marcha. É Ele a Fonte originária e o Abismo alimentador de tudo.
Outra questão importante é esta: que Deus quer expressar com a criação? Responder a isso não é preocupação apenas da consciência religiosa, mas da própria ciência. Sirva de ilustração o já citado Stephen Hawking, em seu conhecido livro Breve história do tempo (1992): “Se encontrarmos a resposta de por que nós e o universo existimos, teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus” (p. 238). Até hoje os cientistas estão ainda buscando o desígnio escondido de Deus.
A partir de uma perspectiva religiosa, suscintamente, podemos dizer: O sentido do universo e de nossa própria existência consciente parece residir no fato de podermos ser o espelho no qual Deus mesmo se vê a si mesmo. Cria o universo como desbordamento de sua plenitude de ser, de bondade e de inteligência. Cria para fazer outros participarem de sua superabundância. Cria o ser humano com consciência para que ele possa ouvir as mensagens que o universo nos quer comunicar, para que possa captar as histórias dos seres da criação, dos céus, dos mares, das florestas, dos animais e do próprio processo humano e religar tudo à Fonte originária de onde procedem.
O universo está ainda nascendo. A tendência é acabar de nascer e mostrar as suas potencialidades escondidas. Por isso, a expansão significa também revelação. Quando tudo tiver se realizado, então se dará a completa revelação do desígnio do Criador.

*Leonardo Boff é teólogo e filósofo. Texto encaminhado pela escritora Urda Alice Klueger.

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Ondulaçoes no mar de Santo Antônio. Fotos: Celso Martins

5.4.12

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Encantados do Vale

Olsen Jr.
SEXTA-FEIRA SANTA

Urda Alice Klueger
LEMBRANÇAS DA PÁSCOA

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Sexta-feira Santa

Por Olsen Jr.*

O “dia não é de alegria!”...
Foi a primeira frase que ouvi, logo seguida de um complemento: “as pessoas costumam meditar, fazer uma auto-análise daquilo que pretendem com a vida que levam, também se impõe uma espécie de penitência em que se inclui o jejum”...
Meu pai disse aquilo ao mesmo tempo em que me entregava uma obra "O Mais Belo Rabi", com a recomendação "leia este livro". A indicação vinha como uma ordem, e lá em casa se respeitava uma determinação paterna, pelo menos na infância. Era a primeira vez que ele me impunha uma leitura. Normalmente apenas comunicava os livros que havia comprado e estavam disponíveis na biblioteca. Sempre fui um rebelde e não gosto de imposições. Mas, acredito, naquele dia devia estar com um semblante indefinido, naquela incerteza que acompanha um "não saber qualquer", a dúvida que antecede uma nova escolha, no caso, de recomeçar a leitura ou de descobrir uma obra interessante para se ler, mas voluntariamente, sem indicação externa. Tinha entre 9 e 12 anos e sabia, por experiência própria, que quando se tem uma tarefa para cumprir, o melhor era acabar logo com a incumbência e se livrar do peso de um remorso, a posteriori, e a maldita consciência do dever não cumprido. E já estava encarando a leitura como um compromisso e não um prazer pessoal dela decorrente. É Sexta-Feira Santa e existe uma aura no ar, como convém a um dia especial. Dia de consternação, de ficar só...
Tudo passa num instantâneo enquanto observo um pai levando um filho pelas mãos em frente do banco onde estou em uma praça no centro da cidade, a criança vem sorrindo alheia ao que se celebra hoje, está contente - como disse Bertolt Brecht, porque ainda não havia recebido a má notícia... Mais além, outro garoto caminha sozinho, não tem a quem recorrer, por isso recorre a todos. Aquela mãozinha estendida era de cortar o coração. Que espécie de sociedade permite tal desempenho? De repente me descubro nela, dentro dela, sou ela, logo a lembrança de Sartre, a respeito da obra "A Náusea", afirmava que enquanto uma criança passasse fome no mundo, aquele livro não tinha o menor sentido. Era retórico para chamar a atenção sobre outra realidade, o que conseguiu...
Descubro-me, igualmente, sem ter a quem recorrer, estou tão só como aquele garoto, e por isso me lembro do meu pai e daquele livro, "O Mais Belo Rabi", que tratava da vida de Jesus Cristo. Uma leitura gratificante, edênica, menos dolorida que o filme "A Paixão de Cristo", dirigido por Mel Gibson. Depois, no ano seguinte voltei a relê-lo, e hoje apenas folheio as páginas detendo-me em parágrafos aleatórios alimentando a consciência de que a liberdade que permite essas elucubrações só faz sentido porque ainda não perdi a capacidade de me indignar!





*Olá, camaradas, salve!

Os últimos dias serviram para alguma reflexão... Um pequeno contraponto nesse vértice do redemoinho chamado vida e que estamos, mais por contingência (sentido sartriano) menos por necessidade...

A música "Amazing Grace" é um fenômeno...

Escrita por John Newton em parceria com o poeta William Cowper. Inicialmente para ilustrar um sermão no Dia do Ano Novo de 1773...

Foi publicada no hinário "Olney Hymns" em 1779...

Somente em 1835 foi oficializada (acordo "New Britain") a melodia como se conhece hoje...

Dito pelo escritor Gilberto Chase, "Amazing Grace é sem dúvida o mais famoso de todos os hinos folk"...

Estima-se que seja tocada mais de 10 milhões de vezes ao ano e teve uma influência na música popular, sua mensagem universal teve um resurgimento massivo nos anos de 1960 nos Estados Unidos e foi gravada uma centena de vezes e frequentemente aparece nas paradas de músicas populares, serviu de trilha de filmes, embalou passeatas pelos direitos civis, contra a guerra do Vietnan, serviu de canção de protestos com Joan Baez e até esteve no Festival de Woodstock em 1969 com Arlo Guthrie...

Foi gravada por Elvis Presley, Johnny Cash, Willie Nelson, The Byrds, John Lomax... Ella Fitzgerald, Mahalia Jackson, Judy Collins...

Uma versão com os índios Cherokees, espetacular... E grupos escoceses com as bagpipes, igualmente...

Difícil escolher a mais agradável, fiquei com o Elvis Presley porque foi com ele que descobri tudo isso, quase ao acaso... (Olsen Jr.)

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LEMBRANÇAS DE PÁSCOA

Por Urda Alice Klueger*

(Para Laura Alice Klueger)

Faz cerca de um quarto de século. Preparávamo-nos com grande antecedência, com semanas de planejamento, para que tudo saísse perfeito. Um campista, naquela altura, tinha que ser autossuficiente, pois ainda não era o tempo em que existiam os restaurantes de comida pronta e nem campings com cozinhas comunitárias e geladeiras. Então, tínhamos que levar tudo, desde colchões, roupa de cama, mesas, banquinhos, fogareiros, panela elétrica, caixas de isopor com gelo, comidas e louças, sem contar as enormes barracas de lona, que seriam armadas a partir de fortes tubos de metal, e essas barracas davam tal volume que ocupavam como que meio carro! No meio de tudo, muito bem acondicionados e escondidos, os ovos de Páscoa, tanto as casquinhas recheadas de amendoim, quanto Coelhinhos e ovinhos de chocolate (ainda não era o tempo dos grandes ovos de chocolates dos supermercados), fora os bombons cala-a-boca, feitos pela Fábrica de Balas Pfeiffer, aqui em Blumenau, e envolvidos individualmente em colorido papel celofane picotado!
Sempre já era outono, mas às vezes ainda era quente, e levávamos biquínis, vestidinhos e outras roupas assim para encarar a boa temperatura e aproveitar banhos de mar e banhos de sol. O ar fino e translúcido era estonteante e o mundo parecia perfeito, e acampávamos em Balneário Camboriú, que tinha um grande, imenso camping na Barra Sul, dando para a praia e para o rio, um dos lugares que naquela época eu mais gostava no mundo e onde a gente não encontrava a Farra do Boi, e que se foi embora debaixo de ruas calçadas e da especulação imobiliária.
Íamos com diversas barracas, diversas pessoas, mas havia uma rainhazinha para todo aquele aparato, para toda aquela movimentação e preparativos: Laura, nossa menina Laura, pequerrucha que parecia feita de maçã e de ouro, a inteligência como um estandarte , toda a fantasia e imaginação que uma criança pode ter a envolvê-la como se ela estivesse dentro de uma nuvem de tons suaves e cambiantes.
Como éramos felizes naqueles dias de Páscoa lá no camping de Camboriú! Brincávamos com Laura pelo camping e pela praia; íamos com ela olhar o rio e os mistérios que poderiam haver atrás de cada árvore, de cada moita, e de tardinha o Coelho fazia suas primeiras investidas pelo camping. De repente, como se tivesse surgido do nada, lá no meio da grama ou detrás de um arbusto havia casquinhas de Páscoa, quem sabe um ovinho de chocolate... Encantada, surpresa, nossa menina ia correndo buscar aqueles produtos da magia, os grandes olhos azuis arregalados de pasmo, e ela me olhava enquanto me mostrava aquelas coisas e me dizia num suspiro:
- Uva! - (que era como me chamava).
Ao redor da mesinha, esticadas em cadeiras de praia, tomávamos nossos cuba-libres enquanto aproveitávamos as últimas benesses do clima e imaginávamos a surpresa seguinte que faríamos àquela menina que era o nosso grande amor. Íamos para o camping na quinta-feira, e o ápice era na manhã de Páscoa, no domingo, quando por todos os lados havia casquinhas, cala-a-boca e chocolates escondidos, e Laura não sabia como fazer para dar conta de recolher tudo, enchendo diversas cestas daquelas guloseimas mágicas que vinham do mundo encantado onde morava o Coelho. Até a avó Minervina ia junto, algumas vezes, sem contar com a querida Dona Maria Geiser, que então já se aproximava dos oitenta anos, creio.
Depois, um dia o camping já não existia mais e Laura foi embora da minha vida irremediavelmente, e o meu coração verteu tanto sangue que não sei como se sobrevive a coisas assim.
Por sorte, restaram as Páscoas, e outras crianças para fazer a Páscoa, e esta coisa preciosa que eu tenho, chamada Literatura, que me permite lembrar assim, neste tempo de abril.
Feliz Páscoa da tua Uva, minha pequena!

Blumenau, 04 de Abril de 2012.

*Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.
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Entardecer de 4 de abril de 2012 na praia do Fogo
(Sambaqui, Florianópolis-SC). Fotos: Celso Martins

20.12.11

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Sessão Viking
DOSE DUPLA
Olsen Jr.

Os emperdenidos de amanhã.
Por que o Natal me dói?



Ilustração: Ylário Belquér

OS EMPEDERNIDOS DE AMANHÃ

Por Olsen Jr.

Havia um par de chinelos na entrada do restaurante, no primeiro degrau da escada que dava para a calçada. Era de uma criança. Os dois pés deveriam estar alinhados no lado direito da porta, não fosse alguém ter chutado o esquerdo, sem o perceber, quando entrou. Era um calçado de material sintético e não destes comuns, de tiras que quase todo o mundo na região usava. Faço aquelas observações mentalmente enquanto cumprimento o garçom, acreditando no inusitado daquela atitude: típica da população interiorana. É o que me ensinaram na década de 1950, quando era guri em Chapecó. Todas às vezes que ia visitar alguém, num gesto instintivo (de uma educação que lhe era anterior) tirava os sapatos e os deixava na porta de entrada.

Entro e vejo o relógio na parede dos fundos marcando 21h50min, estranho penso, alguém ter esquecido aqueles chinelos lá. Quando me aproximo do balcão, quase não dou por elas, duas crianças com menos de nove anos de idade, tendo nas mãos o que parecia ser estas embalagens de isopor onde se leva o que os comensais não conseguiram degustar em uma refeição, ou eles próprios pedem para levar para comer em outra hora.

Ao ver os dois pequenos ali em frente faço logo a advertência de que não deveriam deixar os calçados por aí, que alguém poderia levar, e um deles arregala os olhos e tive a sensação de que uma vida inteira lhe passou pela cabeça antes de certificar-se de que estava falando dos “seus” chinelos e sair em disparada, driblando os garçons entre as mesas, não sem antes agradecer o que viera fazer ali e ser secundado pelo outro garoto que repetiu o gesto, do agradecimento e da desabalada correria ali dentro.

Pergunto para um garçom se eles queriam comida. --- “Não sei” – respondeu... Indago para outro sobre o que “eles” pretendiam. --- “Quem?” Devolve-me a indagação dando a entender que não tinha visto nada... Hei! Interpelo um terceiro, o que as crianças estavam fazendo aqui sozinhas há esta hora? --- “Estava atendendo uma das mesas, não prestei atenção nelas “...

Vou para o balcão, enquanto aguardo, fico imaginando o quanto estamos ensimesmados com nós mesmos. Duas crianças entram num restaurante lotado e ninguém dá por elas. Estavam ali sozinhas, aparentemente sem nenhum responsável... Sou interrompido pelo barman que me pede “vai o de sempre?”, aceno com a cabeça e resolvo fazer mais uma tentativa para saber o que os dois pequenos queriam ali àquela hora... “Estavam vendendo alho” , responde-me o caixa que os havia atendido, erguendo à altura da cabeça, uma bela réstia contendo várias cabeças daquele tempero. Antes que fizesse algum comentário, ele próprio acrescentou (ainda com a amostra do que tinha adquirido nas mãos) “onde já se viu, duas crianças trabalhando a esta hora”... “E nem é o trabalho, mas eram duas crianças”, ratifica “vai ver que os pais estão por aí, em algum bar, esperando elas chegarem com algum dinheiro para beber mais”... Ele, após aquela observação, volta-se para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

Beber ou não beber, não tem importância, o que deveria importar é o que estamos fazendo com as “nossas” crianças? Estas criaturinhas que tiveram as “suas” infâncias suprimidas, que ficaram “adultas” antes do tempo, vão se tornar os “durões” de amanhã, sem formação, sem sensibilidade para interromperem aquela seqüência hereditária, apenas reproduzindo de maneira ambígua a velha lição, aprendida nas ruas, no infortúnio: diante da vida, sobreviver é o que importa e se há um paraíso aos homens de boa vontade, bem, então vamos descobrir por nós mesmos, embora, claro, ninguém acredite nisso por que: primeiro, negamos-lhes a infância com a nossa caridade; depois, sustentamos-lhes a adolescência com a nossa indiferença; mais tarde, suportamos-lhes a maioridade com o nosso medo. Ontem, lhes demos o que tínhamos de menos: o excedente do nosso egoísmo; hoje, pensamos ouvir-lhes os gritos com o que temos demais: o zelo pelo que acumulamos e amanhã, pretendemos perdoar-lhes devolvendo-lhes a cidadania com o que ainda resta, trocando o nosso desprezo pelo desprezo deles!


A música é esta...



“I Started a Joke”, do Bee Gees…
Lançada em 1968, foi a primeira canção deles a fazer sucesso no Brasil e primeira colocada na lista da Billboard...
Também integrou a trilha sonora da novela “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso em 1969...
A primeira novela a romper com os cânones do que até então se fazia na área, a primeira a incluir cenas aéreas, em fazer tomadas de rua, a incluir a gíria, a usar o merchandising...
A insolência do cotidiano cabe aqui, acredito, combina com o texto, o que procuro fazer sempre... (Olsen Jr.)

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POR QUE O NATAL ME DÓI?

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem)

Por Olsen Jr.

Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “...Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”... As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando... Vinha o café... Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram... Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído... A família foi se distanciando... Depois os meus pais também morreram... Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura... Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros... Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói... Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!


Imagine




A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon, mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil...
Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la...
Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”... Lembrar da Utopia também é válido...
Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também...
Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972... Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto...
A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971... Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia... (Olsen Jr.)

14.11.11

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OS NOVOS BEATNIKS
Ou um elogio à liberdade


Por Olsen Jr.

Nos finais e começos de ano, é sempre assim, há um mecanismo inconsciente que faz com que abramos a guarda. De repente ficamos dóceis, ternos, receptivos. É uma constatação que faço e isso nada tem a ver com o cristianismo, apenas com a época, uma vibração diferente. A observação é uma das ferramentas de um escritor, já a sensibilidade para captar a nuance do que é observado pode ser atributo de um poeta. Se você conseguir reunir os dois quesitos em uma pessoa só, melhor. Mas isso ocorre o ano inteiro, então por que lembrar isso apenas agora?

Well, penso que ao afrouxar um pouco o ceticismo contemplativo com que a maioria das pessoas leva a vida, a realidade não parece ser tão soturna como imaginamos quando estamos mais pessimistas que o habitual. Percebi isso agora, vendo aquele grupo. Na verdade acompanho todos eles individualmente andando por aí, a esmo, sem destino e nem objetivos determinados.

Um grupo de pessoas, seis ao todo, lembra aquele livro “Cannery Row”, do John Steinbeck, escrito em 1945 e que integra uma saga do escritor norte-americano que já tinha publicado “Tortilla Flat”, em 1935 e prosseguiu com “Sweet Thursday”, em 1954.

Sim, foi um vislumbre da obra de Steinbeck, dadas as semelhanças, porque aqui na Lagoa da Conceição como lá em Monterey (na Califórnia) estes meio-habitats se parecem. Alguns indivíduos que estão unidos por laços comuns, quer dizer, nenhum deles tem um trabalho fixo, aliás, são os novos beatniks, agora os do século vinte e um. Todos têm certa habilidade em alguma área, seja carpintaria, artesanato, alvenaria e outras ocupações que exijam o emprego das mãos. Só o fazem, entretanto, quando não há mais alternativas para conseguirem o mínimo necessário para levar a vida numa boa.

Na última sexta-feira encontrei-os em um terreno gramado à beira da Lagoa. Na calçada mostravam o trabalho em jóias de arame, prata, bijuterias transformadas em brincos, braceletes, pingentes, camafeus, cordões, prendedores de cabelos, uma variedade de ornamentos capazes de satisfazer qualquer vaidade feminina menos sofisticada, mas de bom gosto para a simplicidade combinando sempre com o velho jeans de guerra. Também, o chimarrão passando de mão em mão enquanto alguém cuidava do fogo, sim, porque havia carne sendo assada, tudo isso ao lado de uma banca de revistas, embaixo de algumas árvores numa manhã de sol claro depois de toda a tragédia que se abateu sobre alguns lugares em Santa Catarina.

Aspirei aquele odor de carne assada, me deu saudades de ver a família reunida, e aquele dolce far niente a que eventualmente dávamos ao luxo de nos entregar. O momento vivido era único. O futuro é um espaço que não existe. Caminho devagar quando passo por eles, também por momentos queria ter a sensação de viver aquela heresia, de não pensar no “depois”... A despreocupação está nos rostos, pelo menos naquela hora.

Que País infernal é esse Brasil, penso.

Registro esse encantamento com a espontaneidade para celebrar a livre escolha, para eternizar a ação de se fazer o que se pode mesmo em uma situação que, muitas vezes, não deveria nem possibilitar esse “poder”: uma escolha apenas, mas vocês que estão chegando agora, que não precisaram viver o que nos foi imposto “como natural” durante o regime militar, leitores, não imaginam o que é viver essa liberdade, o que é desfrutá-la assim, como companheira de viagem, porque se não vamos chegar a lugar nenhum, então ela deve vir junto, afinal, de tudo o que nos podem “tirar” na vida: o vínculo com os nossos pais, o amor que se dizia eterno ou o que conseguimos com o nosso esforço, do homem revoltado às paixões inúteis, é a liberdade o único bem que não suportamos perder na vida... É por isso que todas as ditaduras caem, não importa por quanto tempo dissimulem ficar em pé!





Sobre “San Francisco”

A música é esta, nem poderia ser outra neste caso.
Na primavera de 1967 a música “San Francisco” (Be sure to wear some flowers in your hair)
estourou em todo o mundo.
A letra é de John Phillips (líder da banda “The Mamas & The Papas” – John Phillips, Michelle Gillian, Cass Elliot e Denny Doherty) e a interpretação de Scott McKenzie.
Tem composições que se tornam clássicas, ficam impregnadas de época, é o caso desta...
Aliás, foi em cima de “San Francisco” que o grupo “Bee Gees” fez a outra chamada “Massachusetts”, mas é outra história... (Olsen Jr.)