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21.11.12

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA
Salvação - Alameda dos Amigos Mortos




SALVAÇÃO

Por Emanuel Medeiros Vieira


O tempo é a espera de Deus que mendiga nosso amor”. (Simone Weil)

O tempo é uma nave sem governo, umas vezes avança, outras baloiça-se nas ondas oleosas.
O tempo é uma perpetuidade cansada; o chão que pisamos é feito de infinidade, o sol despenha-se do alto para que o recebamos, e não para medir a noite e o dia.
Cada livro é uma peregrinação
”. (Agustina Bessa  Luís)


Salvar o tempo do tempo: é preciso.
Toda matéria vem da memória.
Todo tempo é derradeiro.
Estóicos – não desistimos.
Tudo termina em morte.
Exorcizamos a finitude  através do que criamos?
Salvamos o tempo vivido.



ALAMEDA DE AMIGOS MORTOS

Por Emanuel Medeiros Vieira                                                                

ALAMEDA DE AMIGOS MORTOS:
CHAMAM-ME PARA NAVEGAR NO BARCO
DAS PARCAS.
MANHÃ COM CHEIRO DE MARESIA,
FLOR RETORCIDA DO CERRADO,
MORANGOS NA CESTA.
E TUDO CONTINUARÁ.
OUTRO CAFÉ, OUTRO DOMINGO, OUTRO MENINO,
E TODO VENTO DA MEMÓRIA JÁ PASSOU.

ALAMEDA DE AMIGOS MORTOS:
NAUTA, NAVIO ENCALHADO, CASCO, GOSTO DE SAL,

GAIVOTA, PORTO, GARRAFA AO MAR, BILHETE.

ALAMEDA DE AMIGOS MORTOS:
ALÉM DE MIM, ALÉM DO PÓ.
ALGUEM FECHA MEUS OLHOS,
APÓS O MOMENTO DERRADEIRO.

NADA MAIS PODE SER COMPENSADO:
FUI APENAS MEMÓRIA,
NÁUFRAGO NA MINHA PÁTRIA SOBERANA: O EXÍLIO.


Fotos: Celso Martins (Sambaqui, Florianópolis-SC)

26.10.12




Dá-lhe Emanuel, manda ver!

O escritor catarinense Emanuel Medeiros Vieira, residente em Salvador-BA, encaminha três textos recentes para publicação: Que fazer? (decicado a Elmodad Azvedo), Herança (para Gerônimo  Wanderley Machado, Remy  José Fontana e Yan Carreirão) e Sebos (em memória a Eric Hobsbawm). As fotos são de Celso Martins.


QUE FAZER?

Por Emanuel Medeiros Vieira
PARA ELMODAD AZEVEDO
(OUVINDO CARTOLA E ELIS)

– TAMBÉM BEETHOVEN  – numa sexta-feira, enquanto anoitece –
“Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele.”
(Jean-Jacques Rousseau)



O que fazer quando qualquer gesto parece inútil e o rio parece inundado de impotência?
Não controlamos o nosso destino – o acaso?
Não, não é auto-ajuda.
Somos finitos – pó  seremos.
O que fazer enquanto estamos aqui, longe do mundo vão das celebridades instantâneas, da idiotice generalizada, da mediocridade hegemônica?
Somos poucos, mas parecemos muitos – e seremos mais.
Manter o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade?
Sim. Também isso.
Um passo a frente, dois atrás.
Dois à frente, um atrás.
Cansamos dos podres poderes. Chegamos ao limite da tolerância com a calhordice no poder.
Não é preciso trair valores.
É preciso atravessar a margem do rio – preservando-os.
Até à terceira margem.
É um mundo pós-utópico, árido, cinzento.
Mas um pássaro canta neste final de tarde.
Existe a amizade, o amor (como nossa maior sede antropológica, e não beijo de novela), o mar, memórias.
Cheiro de café moído, de pão feito em casa. Um pão repartido com fraternidade.
Palavras como a mãe, irmão, amigo.
O hoje não deveria ser o carbono de ontem.
O instante poderia ser convertido em sempre.
A guerra sangrenta europeia – onde se mata pelo CAPITAL –, onde tantos sofrem, deveria impedir o individualismo feroz.
Que fazer, irmão?
Não, não sabemos.
Não é nostalgia, mas pioramos.
Melhorarmos em engenhocas eletrônicas.
Internamente, regredimos.
Mas poderemos crescer.
Acumular conhecimento, resistir, envelhecer com dignidade.
Não digo nada de novo? Não.
E manter o humor.
“Seguro morreu de guarda-chuva”, pontificava o mágico-poeta Mário Quintana.
Que fazer?
Alguém disse que não entende porque tantas pessoas moram em outros lugares, enquanto Paris ainda existe...
(Salvador, outubro de 2012)



HERANÇA

Por Emanuel Medeiros Vieira


Para Gerônimo  Wanderley Machado, Remy  José Fontana e Yan Carreirão

O amolador segue, dobra no fim da rua e some/A noite engole o dia; a fome, agora, é outra fome
(Fred Souza Castro – 1931-2012)

Tudo o que vivemos se apaga.
Não?
Algo de nós ficará?
O que se fez, deixará marca no mundo?
Evaporará no oblívio?
Tudo se dissipa no esquecimento?
Seremos órfãos dos sonhos da juventude?
Ou a ele fiéis?
Não vendendo a alma aos quarenta anos?
Continuando a fazer – sempre.
Seguindo a Rua, remando (tantas vezes) contra a maré – mas remando.
Por nós, pela dádiva de cada amanhecer, por cada amor vivido, pelos amigos mortos, pelos cabelos brancos, pela vida.
Somos efêmeros – sim, transeuntes.
Mas algum gesto na jornada terá sido eterno.

“O tempo é uma nave sem governo.  Umas vezes baloiça-se nas ondas oleosas. O tempo é uma perpetuidade cansada; o chão que pisamos é feito de infinidades, o sol despenha-se do alto para que o recebamos, e não para medir a noite e o dia;
Cada livro é uma peregrinação.”
(Agustina Bessa Luís)
E viveremos cada dia, sim, cada dia, até a outra Rua–  a Terceira Margem.
(Salvador, outubro de 2012)




SEBOS

Por Emanuel Medeiros Vieira

EM MEMÓRIA DE ERIC HOBSBAWM
“Não creio que haja coisa pior no mundo do que a leviandade, pois os homens levianos são instrumentos prontos a tomar qualquer partido, por mais infame, perigoso e pernicioso que seja; sendo assim, é melhor fugir deles como se foge do fogo”
                        (Francesco Guicciardini)

Bibliotecas, museus, sebos, cheiro de papel.
Nada me dizem os aparelhos eletrônicos de última geração – e logo virão outros.
Nostalgia, passadismo?
Eis a memória do mundo.
Essa é a “modernidade” que nos foi dada?
(Que palavra é essa?)
Seremos os últimos amantes disso tudo?
Somos os pistoleiros do entardecer?
Os deslumbrados compram tudo.
“Dinossauros” – assim somos qualificados.
O que importa é o que está dentro, não o seu aparato.
Quase todos só querem a aparência do bolo.
Mas o rebanho quer a novidade.
Cristo parou e foi meditar.
Buda parou e foi meditar.
Os rebanhos enchiam as praças de Berlim, e   berravam “viva Hitler”.
Todos querem ter tudo, e não têm nada.
Sebos, sim, sebos.
Livros de papel – sim, livros de papel.
Não me interessam maquininhas utilitárias.
O esforço é outro.
Sou cristão, sou marxista, sou agnóstico, estou dentro e fora – nasci em errada época – sou apenas um fragmento de tudo – , e sou finito.
Aridez pós-utópica?
Assim se vive?
(Sonhos estilhaçados?)
A literatura é o ópio dos intelectuais?
E a TV?
 Nada mais importa, tudo é irrelevante.
Resta-nos o individualismo, e a banalização de tudo?
A passividade de um povo é a glória do Governo.
(“Puro panfletarismo retórico”, adverte o promotor interno.)
“Toda época sonha a anterior.”
(Jules Michelet – 1798–1874))
Cavalguemos.
Sigamos – cavalgando solitários, mas sempre cavalgando – sempre, até o assobio das Parcas.
(Talvez com dor no coração, mas iluminados).
Valores? Isso é bobagem.
(Não, não para nós.)
 Importa a eficácia – a “moral” da época.
Cavalguemos – sempre.
(Salvador, outubro de 2012)

14.8.12


Emanuel Medeiros Vieira:
Nunca mais voltaremos para casa

Emanuel Medeiros Vieira tem voado muito entre Salvador e Brasília, escreve copiosamente, mantém contatos com os amigos, dispara e-mails e divulga como poucos seu mais recente livro – Nunca mais voltaremos para casa (dedicado ao titular do Sambaqui na Rede e a outros amigos).



Pedidos
 Editora Dobra Literatura 
www.dobraeditorial.com.br
(Tel: 11 5083-3090)

*

Emanuel segundo Maura

Os dois textos a seguir escritos por Maura Soares estão repletos de incursões à Florianópolis de antigamente. Sob o pretexto de comentar a obra Cerrado Desterro, ela dá algumas pinceladas no perfil de Emanuel Medeiros Vieira e, sobretudo, apresenta elementos do imaginário da criação literária - dela, de Emanuel e outros autores. 

Maura Soares


CERRADO DESTERRO
PALAVRAS PARA EMANUEL

Iniciei a leitura de Cerrado Desterro na manhã  de 4 de abril de 2010, domingo de Páscoa. Sem querer fiz uma leitura, digamos, em conta-gotas, lendo à noite ao deitar ou pela manhã, ao acordar.
Fechei o livro nesta manhã, sem querer ler os depoimentos ao final do livro, pois tenho comigo que se fosse ler poderia me influenciar no quero dizer e até repetir o que os amigos e familiares disseram. Fica para depois, com calma, degustar as palavras daqueles que se dispuseram a dar seus testemunhos.
Se fosse ler poderia perder um pouco a emoção que a obra encerra.
Emanuel, mais uma vez, enviou-me um filho seu para ser acarinhado.
Já havia degustado “Olhos azuis – Ao sul do efêmero” e lhe enviado minhas modestas considerações, pois ainda não tenho o volume de leitura de escritores como Emanuel, e a amiga acadêmica Urda Klueger, pois são pessoas dedicadas quase que 24 horas à literatura e eu cheia de afazeres em três instituições culturais em que presto colaboração, não consigo ter o volume de leituras que eles tem.
Emanuel pede lá pelo meio da obra que seus leitores não a lessem apressadamente, no afogadilho, mas que a cada página meditassem sobre tudo o que estava ali estampado – parodiando o autor – num coração despedaçado em folhetins.
Quando um ser tem sua convicção política e não esmorece diante das adversidades, fatalmente encontrará barreiras a transpor, feras a domar.
Ainda luta após tantos anos com seus demônios interiores, ainda tenta exorcizar o que a fé católica em que foi criado, incutiu em sua mente, o pecado, o sentimento de culpa.
Desprendida que sou deste sentimento, pelo menos não fico me provando a toda hora, tentarei dizer palavras para Emanuel  que brotarem a partir daqui, diretamente do meu coração de uma pretensa poetisa para um poeta nato, um poeta em que até nas adversidades transforma sua narrativa em poesia, até num simples e-mail que me envia, entrega seu sofrido coração.
Mudou o Natal ou mudei eu?
Onde ouvi esta frase? Creio que de uma peça de teatro, de quem não sei, só sei que a fala foi do amigo irmão ator Édio Nunes.
Mudou o Natal ou Emanuel mudou?
Não, Emanuel não mudou, apenas as circunstâncias da vida fizeram com que ele adormecesse suas convicções políticas pra não se machucar mais, para que sua amada Clarice não sofresse ao ver o sofrimento do amado pai.
Agora, na plenitude de sua vida,  Emanuel revê seu Cerrado e seu Desterro “com olhos lassos, com ironias e cansaços” e até com certa amargura. Mas ele foi “treinado” para amar o próximo, nele foram imbuídos os sentimentos cristãos de um pai amoroso, de um pai trabalhador que seguia a fé católica como deve ser, desprendido de apego a bens materiais, embora muitos “doutores” da Igreja Católica vivam nababescamente invocando o nome de Deus.



Cerrado Desterro. Este é o foco das minhas palavras.

A obra é dedicada aos amigos, àqueles que com ele empreenderam a jornada da vida, que o ampararam quando de suas internações hospitalares, quando em dolorosa peregrinação como o Cristo em direção ao Calvário, ele sofreu.
A obra em seu desenvolvimento é dedicada àqueles que ao seu lado saíram às ruas enfrentando o poder político, o militar, o golpe de 64.
64 ainda não terminou. Os porões da ditadura não foram devidamente devassados.
“Encerra este papo”, pode alguém querer me dizer. “Os tempos são outros”. “Aquelas frases de efeito “ o povo unido jamais será..” “ abaixo” “fora FMI” não existe mais, não vês como eles estão hoje colocando dinheiro nas meias e cuecas?” “Pra que reviver isto, pra que mexer em velhas feridas”?
Pois é. Soltaram o Arruda. Podem ter certeza: nosso povo não tem memória. O homem vai dar um tempo e vai se candidatar de novo, ganhar a eleição e continuar o que deixou antes de “sofrer” na prisão.
Não, mas o foco é Cerrado Desterro em que Emanuel se desnuda, exorciza seus demônios, escancara suas veias, derrama seu sangue ao mesmo tempo em que seu coração de menino não se desprende da Ilha-terra natal-capital.
Não se desliga da casa da avenida Rio Branco, do Grupo Modelo Dias Velho – onde também eu e meus irmãos estudamos – não se separa, ou não quer se afastar, da casa na praia, dos seus passeios com pés descalços nas areias da Ilha onde tantas vezes meditou sobre sua vida, tantos papos tantas bebidas, qual o sentido da vida que se apresentava.
Pouca foi a minha experiência hospitalar diante do sofrimento de Emanuel.
Após acidente sofrido em janeiro de 2009 –  um simples atropelamento em que um irresponsável com o celular ao ouvido me colheu com um pé na calçada – e me deixou no “estaleiro”  por sete meses, peregrinando por hospitais em Florianópolis e Blumenau. Também como Emanuel as veias para soro e retirada de sangue para os devidos exames se esconderam causando mais sofrimento. É grande a dor quando enfermeiros procuram a veia boa para o exame. A dor é imensa, mas passa. A dor passa. Não o sentimento que dela emana.
Me recuperei pois a minha dor foi física, no entanto,  a de Emanuel foi a dor da alma e por mais que ele a exorcize, um quê de tristeza ainda fica guardado lá no fundo, no escaninho de sua memória.
Quem passou pela vida e não sofreu, simplesmente não viveu, já disse alguém. Não sou muito pródiga em citações embora colha em diversos PPS e obras e as guarde para ler antes das reuniões do Grupo de Poetas Livres, de Florianópolis, cuja presidência exerço desde 2000 e irei até 2012, se Deus assim o permitir,pois mais uma gestão – ou gestação como digo – se me apresenta.
Pois bem, tenho que parar de fazer digressões e ir ao que interessa: as minhas impressões sobre o livro que o autor me dedica com as palavras que não posso deixar de citar: ”Para Maura, generosa amiga e sensível colega de ofício, seguem umas evocações desse longo sofrido; mas sempre adorável andar, com o carinho sincero do Emanuel”.
Cerrado Desterro impressionou-me por sua narrativa memorialista.
O quarto do hospital palco de seu sofrimento, mas também de suas recordações, de seus devaneios trouxe-lhe o cheiro do mar da Ilha-capital, trouxe de volta os seus discursos, a sua voz inflamada contra os que torturaram, os que seviciaram, os que tentaram abortar a fé em dias melhores para a nação brasileira.
Não costumo fazer isso, mas nesta obra peguei uma lapiseira, depois um lápis, pois o grafite havia acabado e comecei a fazer pequenas chaves em parágrafos, sublinhar  em quase todas as páginas nos trechos que me tocaram e me ajudariam a reler para dar este testemunho.
Ressalto Elliot que disse que autor, o poeta, escreve para se livrar das emoções e já na página 42 Emanuel cita Elliot quando diz que as palavras se movem.
Assim se move o livro: anos 60 anos 90, anos 70 , 2004 e nesse vai e vem a memória do autor passeia por sua história, de um quarto de pensão, à casa dos pais, da cela de prisão à outra prisão, o leito do hospital.
Seu sofrimento no leito hospitalar conseguiu em parte botar pra fora neste livro. Só quem sofreu pode avaliar o sofrimento alheio.
Aquele senhor nascido em 1945 quer voltar pra casa, ganhar o beijo do pai, virar novamente menino, passear na região da avenida Rio Branco, sei lá, empinar pandorga no Campo do Manejo, caçar passarinho, brincar no rio da Avenida Hercilio Luz, roubar fruta no pátio do Colégio Catarinense.
Lembro-me quando no Dias Velho, na hora do recreio, ia para a parte de trás do Grupo e roubava amora do pé, enquanto os auxiliares de disciplina não me pegassem.



Diz Emanuel “A memória é elemento nuclear de toda a minha escrita: modesto memorialista; sou desta tribo”.

Sua prodigiosa memória dá saltos do Golpe de 64 em que o Brasil mergulhou num regime de exceção, vai à faculdade de Direito em Porto Alegre, retorna à Confeitaria Chiquinho, ao Campo da Liga, ao Roda Bar onde meu irmão Saulo tantas cervejas deve ter tomado, onde minha mãe designava um dos pequenos para chamar o irmão dizendo que o almoço já estava na mesa e todos tinham que comer na mesma hora, pois família grande tudo tinha que ser repartido irmamente.
Enquanto falo de Emanuel também cito coisas minhas, contemporâneos que fomos freqüentando quase os mesmos lugares da Ilha formosa.
Não vou seguir capítulo por capítulo de Cerrado Desterro, nem pretendo fazer análise crítica, não é esta minha intenção de momento. Nem tampouco analiso a obra. Falo, sim, com o coração degustando o livro como pede o autor no decorrer da obra.
Pensar a vida, revivê-la quando a plenitude chega dando-nos a oportunidade de contar, de deixar para a posteridade seu relato, fase de uma vida, espaço-tempo da memória em que tudo o que foi relatado não foi ficção, foi uma realidade nua e crua em que a alma do poeta dourou a pílula, deixando para o leitor imaginar cenas de tortura e dada sua bondade, até se enternecer com um dos algozes, homem bruto sem cultura, admirando aquele jovem alto e magro escritor, poeta nascido na Ilha de encantos, de casos e ocasos raros.
O que lhe valeu foram as boas leituras que teve ao longo de sua trajetória, que ficaram gravadas em seu subconsciente; o que lhe valeu foi a sua inquebrantável força interior em receber sua cota de sofrimento na OBAN, a grande sucursal do inferno no Brasil, como diz.
Machucaram o nobre amigo, mas não lhe impediram de pensar, de raciocinar, isto tortura nenhuma apaga.
Emanuel além de desnudar-se arranca “pedaços de sua pele, e esses pedaços não acabam nunca, puxando, puxando, tantas camadas superpostas”.
Quem sofreu tortura sabe avaliar o sofrimento alheio,repito. E diz Emanuel – para exorcizar os demônios – “é preciso escrever. Para lembrar. Para deixar exposto para os que vierem. Isso aconteceu. Os demônios voltam, como cadáveres mal enterrados, cujos braços e pedaços acabam aparecendo, vindo à superfície, à terra. Uma chuva, uma tempestade, e lá estão eles”.

Emanuel escreve. E Emanuel com sua prodigiosa memória que o sofrimento debaixo da pata do governo, não eliminou, escreve. Escreve dourando a pílula para que o leitor viva com ele, mas que como bom cristão, não quer que o leitor chore como ele chorou com o abuso do poder, não quer que seus amigos, aqueles que com ele empreenderam a jornada não sejam esquecidos, mas também não se revoltem com o que passou não da forma de vingança pois estariam fazendo a mesma coisa que eles, mas que após tanta dor que venha o amor, o amor de Clarice estampado em muitas passagens, o amor por Lucas que se percebe no olhar como se uma câmera estivesse focando quando Emanuel olha Lucas ao completar um ano, 24 de maio.
O olhar do pai de coração a gente vê, aquele olhar compassivo daquele homem que sofreu, mas que continua a escrever para deixar aos que vierem depois dele, um pouco da história que viveu, para que futuros historiadores revirem o baú de suas memórias, tentem imaginar a Ilha-Capital dos anos 60 – em que éramos felizes e não sabíamos – citar as passagens da obra na tentativa de reconstruir a época porém quem viveu sabe o que aconteceu; tenha seus encantos, suas alegrias, suas dores, suas revoltas, suas lágrimas.
Quem viveu a época do golpe de 64 a 79 – anos 80, sabe o quanto a vida foi dura, o quanto teve que amargar, mas no fim, o Brasil ficou o mesmo, pois “sempre haverá um habeas corpus para os grandes ladrões”.
O que a ditadura não tirou e nem vai tirar tanto de Emanuel quanto de Adolfo, Pedro, Gerônimo, companheiros de infortúnio, é a fé inquebrantável num país sem desmandos, num país onde o bem perdure, onde a economia favoreça a todos.
O que “eles” tentaram e não destruíram foi a alma do menino, aluno do Grupo Modelo Dias Velho, a alma do jovem inconformado que bebeu todas e hoje se contenta com água mineral, a alma do menino que andava nas ruas de sua cidade natal despreocupadamente, que observava a praia, o vai vem das ondas.
A alma e o Amor, aquele que vence qualquer batalha, aquele que dá forças para continuar, aquele amor de Clarice e de Lucas, perpetuações do Amor Divino.
Mais não posso dizer. Que os leitores que vierem após sintam também a emoção ao apreciar, com vagar, as páginas de Cerrado Desterro.
Que os leitores sintam que Emanuel foi um daqueles seres, uma daquelas crianças que nasceram na geração das crianças traídas, mas que sobreviveram a tudo, pois há em seus corações o toque da esperança.
Um beijo em teu coração tão despedaçado, meu amigo Emanuel Tadeu, aquele que está no coração dos homens puros louvando a Deus.

Aos 15 de abril de 2010, madrugada, quinta-feira, como sempre escrevendo sobre o travesseiro, com o barulho da feira de hortaliças a se organizar debaixo de sua janela.

*Maura Soares pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Academia Desterrense de Letras e Grupo de Poetas Livres.

*.

CERRADO DESTERRO II

Teci comentários a respeito de Cerrado Desterro que tem, agora, mais um capítulo. Emanuel pede que participe desta edição. Com satisfação, compareço. A obra é dedicada aos amigos, àqueles que com ele empreenderam a jornada da vida, que o ampararam quando de suas internações hospitalares, e àqueles que ao seu lado saíram às ruas enfrentando o poder político, o militar, o golpe de 64, ano que ainda não terminou. Os porões da ditadura não foram devidamente devassados. Emanuel se desnuda, exorciza seus demônios, escancara suas veias, derrama seu sangue ao mesmo tempo em que seu coração de menino não se desprende da Ilha-terra natal-capital. Quem passou pela vida e não sofreu, simplesmente não viveu, já disse alguém. Cerrado Desterro impressionou-me por sua narrativa memorialista.
O quarto do hospital palco de seu sofrimento, mas também de suas recordações, de seus devaneios trouxe-lhe o cheiro do mar da Ilha-capital, trouxe de volta os seus discursos, a sua voz inflamada contra os que torturaram, os que seviciaram, os que tentaram abortar a fé em dias melhores para a nação brasileira. Assim se move o livro: anos 60 anos 90, anos 70 , 2004 e nesse vai e vem a memória do autor passeia por sua história, de um quarto de pensão, à casa dos pais, da cela de prisão à outra prisão, o leito do hospital.
Seu sofrimento no leito hospitalar conseguiu em parte botar pra fora. Só quem sofreu pode avaliar o sofrimento alheio. Diz Emanuel “A memória é elemento nuclear de toda a minha escrita: modesto memorialista; sou desta tribo”. Sua prodigiosa memória dá saltos do Golpe de 64 em que o Brasil mergulhou num regime de exceção, vai à faculdade de Direito em Porto Alegre, retorna à Confeitaria Chiquinho, ao Campo da Liga, ao Roda Bar onde meu irmão Saulo tantas cervejas deve ter tomado,discutido política com os frequentadores, inflamado que ele era, tanto que graduou-se em Direito. Pensar a vida,  revivê-la quando a plenitude chega dando-nos a oportunidade de contar, de deixar para a posteridade seu relato, fase de uma vida, espaço-tempo da memória em que tudo o que foi relatado não foi ficção, foi uma realidade nua e crua em que a alma do poeta dourou a pílula, deixando para o leitor imaginar cenas de tortura e dada sua bondade, até se enternecer com um dos algozes, homem bruto sem cultura, admirando aquele jovem alto e magro escritor, poeta nascido na Ilha de encantos, de casos e ocasos raros. As torturas sofridas nos porões machucaram meu nobre amigo, mas não lhe impediram de pensar, de raciocinar, isto tortura nenhuma apaga.
Emanuel além de desnudar-se arranca “pedaços de sua pele, e esses pedaços não acabam nunca, puxando, puxando, tantas camadas superpostas”. Quem sofreu tortura sabe avaliar o sofrimento alheio, repito. E diz Emanuel – para exorcizar os demônios – “é preciso escrever. Para lembrar. Para deixar exposto para os que vierem. Isso aconteceu. Os demônios voltam, como cadáveres mal enterrados, cujos braços e pedaços acabam aparecendo, vindo à superfície, à terra. Uma chuva, uma tempestade, e lá estão eles”. Emanuel escreve. Com sua prodigiosa memória que o sofrimento debaixo da pata do governo, não eliminou, escreve. Escreve dourando a pílula para que o leitor viva com ele, mas que como bom cristão, não quer que o leitor chore como ele chorou com o abuso do poder, não quer que seus amigos, aqueles que com ele empreenderam a jornada não sejam esquecidos, mas também não se revoltem com o que passou não da forma de vingança pois estariam fazendo a mesma coisa que eles, mas que após tanta dor que venha o amor, o amor de Clarice, Célia  e do pequeno Lucas.
O que a ditadura não tirou e nem vai tirar tanto de Emanuel quanto de Adolfo, Pedro, Gerônimo, é a fé inquebrantável num país sem desmandos, num país onde o bem perdure, onde a economia favoreça a todos. “Eles” jamais destruirão aquele Emanuel que acreditava e acredita num Brasil verdadeiro.
Que os leitores sintam novamente a emoção nas páginas de Cerrado Desterro II. (Por M.S.)

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Na rede
O site Ares e Mares (http://www.aresemares.com) têm publicado textos de Emanuel Medeiros Vieira. Acompanhe

 Fotos: Celso Martins

13.4.12

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Álamo revisitado
Olsen Jr.

Rosário dos Pretos
Emanuel Medeiros Vieira

Deus e a Evolução
Leonardo Boff


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O ÁLAMO REVISITADO

Por Olsen Jr.

Foi durante o café, no restaurante aqui perto de casa, que a pergunta me surpreendeu. Já deveria estar vacinado contra certos tipos de interpelações. Todas às vezes que alguém começa afirmando “oh, fulano, você que é mais esclarecido”... Vem um pedido em seguida. Bem, mas o garçom se limitou em afirmar: o que é o Álamo? O que esta palavra significa? Olhei para ele, esquisito, partindo de quem partiu. Lembrei na hora do conto bem humorado de Artur de Azevedo em que o garoto pergunta para o pai, o que é plebiscito? Começo a rir sozinho enquanto o garçom, sem entender nada, tenta acompanhar-me acreditando que fosse com ele. Desculpe, digo, me veio à cabeça uma história que li quando criança e depois eu conto.
- Tudo bem, diz o garçom, só queria saber...
- É que, assim solta, a palavra fica a mercê de várias possibilidades, brinco, tentando adivinhar de qual contexto aquilo tinha saído. Como ele não esclareceu, fui dizendo as primeiras coisas que me ocorreram. Tinha que começar por algum lugar, o Álamo é uma árvore, é um conhecido estúdio de gravação e dublagem... Também é o nome de um forte no Texas. Na verdade, uma Vila que tinha sido colonizada por espanhóis e quando o território foi disputado por americanos e mexicanos, serviu de palco para uma das mais conhecidas batalhas da história onde cerca de 400 pessoas, entre agricultores e pecuaristas e mais alguns pequenos grupos de voluntários resistiram por quase 20 dias o cerco de um exército com mais de seis mil homens. Aliás, deu um belo filme com John Wayne e Richard Widmark... E no final, acrescento, tendo súbita lembrança, como a ordem era não deixar sobreviventes, restou algumas mulheres e crianças, também, alguns homens, entre eles, talvez um dos poucos heróis (com tudo o que esta palavra significa) da história norte-americana, o David Crockett, que acabou sendo executado. Também, digo, era um dos meus gibis favoritos, num tempo em que estes “heróis” ainda tinham caráter. Para concluir, aqueles quase 20 dias de resistência no Álamo, permitiram que se fizesse uma Constituição para o Texas, e que foi, em seguida, anexado aos outros Estados da União.
O garçom se deu por satisfeito e foi cuidar dos seus afazeres. Ainda bem, pensei, porque não me ocorre mais nada envolvendo a palavra Álamo. Depois que ele se afastou, fiquei imaginando aqueles heróis dos gibis, tirados da história, do guia e pioneiro Kid Carson, do caçador William Sidney Cody, o Búfallo Bill como ficou conhecido porque matava búfalos para alimentar os homens que construíam as estradas de ferro, do Daniel Boone... Do Roy Rogers e do Rex Allen, tirados do cinema, e claro, do Gordon Scott, Lex Barker e Johnny Weissmüller interpretando o famoso Tarzan, do Edgar Rice Burroughs... Não temos o hábito, nem a tradição, de cultuar nossos homens célebres, mas vejo o que poderia ser feito com o Cândido Rondon, a Coluna Prestes, e naturalmente, o bom e velho Monteiro Lobato, mas aí seria baratear os nossos sonhos, talvez, ficam as dúvidas.
O que eu não confessei para o Cleber, no restaurante, foi que “O Álamo” tinha sido o primeiro filme que assisti, em Curitiba, Cine Vitória (final de 1969), por isso estava impregnado na minha memória, tinha 14 anos e marcou muito. Está bem, mas a gente não precisa contar tudo sempre, pô!
Ah! E o Arthur de Azevedo ficou para outro dia...


*Olá, camaradas, salve!
Tendo de viajar em breve, talvez amanhã mesmo, para Florianópolis, antecipo a crônica...
Talvez consiga enviar mais um texto, além deste porque nunca sei quando vou voltar...
Tudo vai acontecendo assim, como no texto, basta tirar partido, na condição de observador...
A música poderia ser esta, a mesma da trilha sonora do filme.
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Composta por Dimitri Tiomkin com letra de Paul Francis Webster...
O filme ganhou o “Oscar” de 1961 na categoria de Melhor Som, a Melhor Trilha Original...
Dimitri era norte-americano naturalizado, de origem judaico-ucraniana...
Compôs grandes trilhas para filmes como: “O Velho e o Mar”, “Os Canhões de Navarone”, “Disque M para Matar”, “Um Fio de Esperança”, “A Queda do Império Romano”, entre outros... (Olsen Jr.)
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ROSÁRIO DOS PRETOS
(NOVAS CARTAS BAIANAS)
IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS
(E BARUCH DE SPINOZA)

Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA*

Os membros da Irmandade dos Homens Pretos “perderam a paciência ante os constantes atrasos das obras de restauração da Igreja do Rosário dos Pretos”, uma das mais famosas de Salvador.

Como informa o jornalista Biaggio Talento, eles resolveram reabrir o templo, mesmo com a reforma inconclusa, no próximo domingo, dia 15.

A Igreja do Rosário dos Pretos foi erguida no século XVIII, e é referência histórica no processo de resistência dos negros.

A reforma custou cerca de R$2,3 milhões – recursos do ministério do Turismo, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e contrapartida do governo estadual.

O prazo? Estourou! E os Irmãos da Confraria não se conformaram.

É preciso fazer algo pelo Pelourinho – abandonado à cracolândia, à violência, à mendicância –, quem sabe, o monumento histórico mais importante do Brasil.

É um pedaço fundamental da nossa História, que está sendo constantemente degradado.

Andar por lá, só com companhia, segurança e em determinados horários (de preferência, matinais).

A INTOLERÂNCIA É ATEMPORAL E ETERNA

Foi com essas palavras que a comunidade judaica de Amsterdã, no século XVIII, excomungou o filósofo Baruch de Spinoza (1631-1677), um dos mais importantes da História:

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza. Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele”.

MAS A SUA OBRA PERMANECE!

Quem se lembra dos seus inquisidores?

(Salvador, abril de 2012)


* Celso, meu irmão
Não quero te atropelar com textos.
Mas é algo muito importante:
A Igreja do Rosário dos Pretos, aqui em Salvador, é um monumento do século XVIII, muito importante.
é referência histórica no processo de resistência dos negros.
Os prazos para a sua reforma estouraram. E a Irmandade dos Homens Pretos perdeu a paciência ante os constantes atrasos na sua restauração. E RESOLVERAM REABRIR O TEMPLO NO PRÓXIMO DOMINGO, DIA 15.
[...]
Faço também uma meditação sobre a degradação do Pelourinho - e algo que acho, igualmente, muito valioso - sobre a "excomunhão" do filósofo Baruch de Spinoza, um dos mais importantes da História.
[...]
Gestei esse texto durante bom tempo!
Abraços do Emanuel

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Como Deus emerge no
processo evolucionário?


Por Leonardo Boff*

A nova cosmologia, derivada das ciências do universo, da Terra e da vida, vem formulada no arco da evolução ampliada. Esta evolução não é linear. Conhece paradas, recuos, avanços, destruições em massa e novas retomadas. Mas, olhando-se para trás, o processo mostra uma direção: para frente e para cima.
Somos conscientes de que renomados cientistas se recusam a aceitar uma direcionalidade do universo. Ele seria simplesmente sem sentido. Outros, cito apenas um, como o conhecido físico da Grã-Bretanha Freeman Dyson que afirma: “Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, tanto mais evidências encontro de que ele, de alguma maneira, devia ter sabido que estávamos a caminho”.
De fato, olhando retrospectivamente o processo evolucionário que já possui 13,7 bilhões de anos, não podemos negar que houve uma escalada ascendente: a energia virou matéria, a matéria se carregou de informações, o caos destrutivo se fez generativo, o simples se complexificou, e de um ser complexo surgiu a vida e da vida a consciência. Há um propósito que não pode ser negado. Efetivamente, se as coisas em seus mínimos detalhes, não tivessem ocorrido, como ocorreram, nós humanos não estaríamos aqui para falar destas coisas.
Escreveu com razão o conhecido matemático e físico Stephen Hawking em seu livro Uma nova história do tempo (2005): “tudo no universo precisou de um ajuste muito fino para possibilitar o desenvolvimento da vida; por exemplo, se a carga elétrica do elétron tivesse sido apenas ligeiramente diferente, teria destruído o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra, a vida não poderia existir".
Como emerge Deus no processo cosmogênico? A ideia de Deus surge quando colocamos a questão: o que havia antes do big-bang? Quem deu o impulso inicial? O nada? Mas do nada nunca vem nada. Se apesar disso apareceram seres é sinal de que Alguém ou Algo os chamou à existência e os sustenta no ser.
O que podemos sensatamente dizer, é: antes do big bang existia o Incognoscível e vigorava o Mistério. Sobre o Mistério e o Incognoscível, por definição, não se pode dizer literalmente nada. Por sua natureza, eles são antes das palavras, da energia, da matéria, do espaço e do tempo.
Ora, o Mistério e o Incognoscível são precisamente os nomes que as religiões e também o Cristianismo usam para significar aquilo que chamamos Deus. Diante dele mais vale o silêncio que a palavra. Não obstante, Ele pode ser percebido pela razão reverente e sentido pelo coração como uma Presença que enche o universo e faz surgir em nós o sentimento de grandeza, de majestade, de respeito e de veneração.
Colocados entre o céu e a terra, vendo as miríades de estrelas, retemos a respiração e nos enchemos de reverência. Naturalmente nos surgem as perguntas: Quem fez tudo isso? Quem se esconde atrás da Via-Lactea? Como disse o grande rabino Abraham Heschel de Nova York: “Em nossos escritórios refrigerados ou entre quatro paredes brancas de uma sala de aula podemos dizer qualquer coisa e duvidar de tudo. Mas inseridos na complexidade da natureza e imbuídos de sua beleza, não podemos calar. É impossível desprezar o irromper da aurora, ficar indiferentes diante do desabrochar de uma flor ou não quedar-se pasmados ao contemplar uma criança recém-nascida”. Quase que espontaneamente dizemos: foi Deus quem colocou tudo em marcha. É Ele a Fonte originária e o Abismo alimentador de tudo.
Outra questão importante é esta: que Deus quer expressar com a criação? Responder a isso não é preocupação apenas da consciência religiosa, mas da própria ciência. Sirva de ilustração o já citado Stephen Hawking, em seu conhecido livro Breve história do tempo (1992): “Se encontrarmos a resposta de por que nós e o universo existimos, teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus” (p. 238). Até hoje os cientistas estão ainda buscando o desígnio escondido de Deus.
A partir de uma perspectiva religiosa, suscintamente, podemos dizer: O sentido do universo e de nossa própria existência consciente parece residir no fato de podermos ser o espelho no qual Deus mesmo se vê a si mesmo. Cria o universo como desbordamento de sua plenitude de ser, de bondade e de inteligência. Cria para fazer outros participarem de sua superabundância. Cria o ser humano com consciência para que ele possa ouvir as mensagens que o universo nos quer comunicar, para que possa captar as histórias dos seres da criação, dos céus, dos mares, das florestas, dos animais e do próprio processo humano e religar tudo à Fonte originária de onde procedem.
O universo está ainda nascendo. A tendência é acabar de nascer e mostrar as suas potencialidades escondidas. Por isso, a expansão significa também revelação. Quando tudo tiver se realizado, então se dará a completa revelação do desígnio do Criador.

*Leonardo Boff é teólogo e filósofo. Texto encaminhado pela escritora Urda Alice Klueger.

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Ondulaçoes no mar de Santo Antônio. Fotos: Celso Martins

11.4.12


FRAGMENTOS E FRASES

(NOVAS CARTAS BAIANAS)

Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA


“QUEM FALA DE MIM NA MINHA AUSÊNCIA É PORQUE RESPEITA A MINHA PRESENÇA”.
(Bob Marley)

“A ida de Crivella para o Ministério da Pesca é o milagre da multiplicação, não dos peixes nem do seu pequeno PRB, mas da influência do setor evangélico no governo ‘laico’.”
(Chico Alencar)

É muito triste perceber que alguém que se passava como Catão ou arauto da moralidade, usar o instituto do “’habeas corpus”, não para negar seu envolvimento com a corrupção, mas _ utilizando tecnicismos jurídicos –, desejar anulas as provas colhidas pela Polícia Federal.
(Deste escriba)

“O lugar da poesia/é onde possa inquietar.”
(Lindolf Bell – poeta catarinense)

“Se não for pela poesia, como crer na eternidade?”
(Alphonsus de Guimaraens Filho – poeta mineiro)

“Realmente, somos livres para assistir ao que queremos, e gosto não se discute. Uns preferem assistiras lutas de MMA, outros gostam de BBB. E ainda os que apreciam os amistosos da seleção brasileira.”
(De um leitor)

“O ministro da Educação (observação: Aloizio Mercadante, um homem de palavra!) tem razão ao dizer que os alunos são do século 21 e os professores do século 20. Acrescendo, ainda, que os salários dos mestres são do século 19 e os políticos da Idade da Pedra.”
(De outro leitor)

“No fim, se você fez algo (interferência estética no rosto), dá para ver. Aquilo não me enche de admiração, me enche de dó.”
Cate Blanchette – atriz)

Em 2012, a previsão de gastos no Brasil com incentivos fiscais é de R$146 bilhões.
Desse valor, aproximadamente 1% será destinado à cultura.
(Deste redator)

O Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou relatório nas obras dos estádios da Copa do Mundo de 2014. O sobrepreço nas contas do Maracanã já chegou a R$163 milhões.
(Idem)

“Nossa Guia (observação: para quem sabe, o nosso Pequeno Napoleão, também conhecido por Lula) telefonou para o empresário Elke Batista, solidarizando-se com o seu filho, aperreado pelo episódio em que atropelou o ciclista Wanderson Pereira dos Santos. Ao tempo em que ele rodava o programa Lula 1.0, teria ligado também para a família de Wainderson, que morreu.”
(Elio Gaspari)

É preciso que toda a chamada sociedade civil se mobilize para não deixar que prescreva o processo do Mensalão – que está no STF.
(Apelo deste escriba)

E dando os trâmites por findos, parodio Antônio Gramsci: É preciso manter o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade.

(Salvador, abril de 2012)


Fotos: Celso Martins

4.4.12

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Relevância da Páscoa
Emanuel Medeiros Vieira
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Mandala de pescador (Laguna-SC)
Fátima Barreto Michels
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Um entardecer na orla de
Santo Antônio de Sambaqui

Celso Martins

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RELEVÂNCIA DA PÁSCOA


Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA


O Cristianismo é uma idéia que sai dos limites dos dogmas estabelecidos pelas igrejas que o adotam.

Poucos são os hierarcas e fiéis que têm a consciência das reais da dimensão da mensagem cristã.

“A Encarnação em Cristo, para muitos pensadores, é a assunção da grandeza do homem enquanto homem”.

Na interpretação dos humanistas, o jovem Cristo foi um dos muitos judeus daquele tempo, que, inquietos com a situação política de seu povo, procuravam uma saída para a liberdade.

A Palestina estava sob domínio do Império romano e era tempo de Tibério, representado por Pilatos. O território se dividia em cinco pequenos reinos, depois da morte de Herodes.

Como analisou alguém, como outros fundadores de religiões, a ele se atribui origem divina, correspondendo à necessidade humana de lidar com a finitude, o desaparecimento e a Morte.

“Era necessária a reafirmação da antiga aliança, com a Encarnação, a renovação da promessa mediante um homem de carne e osso, enviado do Absoluto, para pregar o amor – ou seja, a solidariedade essencial entre os homens como pressuposto de sua salvação”.

Sim: Ele é tanto mais o filho de Deus quanto é amigo e irmão de todos os homens.

“O irmão e o amigo a que recorremos, nos rincões de nossa alma, onde se recolhe o sofrimento, porque n’Ele – que é parte de nós mesmos – podemos confessar as humilhações sofridas, o nosso desespero, a nossa desesperança do futuro, o nosso desamor para com o próximo, e contar com o seu consolo e perdão”, como analisa sabiamente Mauro Santayana.

Isso não absolve os erros da Igreja desde Constantino.

Mas Cristo é maior que a Igreja.

Páscoa é Ressurreição.

Cristo está além dos super-mercados da fé, que usam o seu nome para ludibriar e enganar os carentes, os humilhados e ofendidos deste mundo.

A teologia deve ser da esperança, e não da mera prosperidade material.

Importa agora é o Cristo reconciliado com nós mesmos, e não o mau uso do seu nome por impérios religiosos que usam o se nome, arrecadando bilhões.

“Nós podemos contar com Cristo, em qualquer capelinha de estrada, em todos os corações que sofrem”.

Insisto – não esqueçamos: Páscoa é Ressurreição, e nessa capelinha de estrada nos mostramos como nós somos, sem subterfúgios, sem dissimulações, sem hipocrisias.

Nus e desamparados – em busca da verdade.

(Salvador, abril de 2012)

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Um entardecer na orla de
Sambaqui e Santo Antônio

















Fotos: Celso Martins (3.4.2012)


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Começando a
Semana Santa


Por Fátima Barreto Michels

...e por isto amigos,

estive nos Molhes da Barra ontem [31.3] ao final da tarde.

Vai procês um mandala* que o pescador desenhou com sua tarrafa.


Mandala em 3 Clics







(*) Mandala.

1. No tantrismo, diagrama composto de círculos e quadrados concêntricos, imagem do mundo e instrumento que serve à meditação.

P.S.: eu não sabia, mas MANDALA é substantivo masculino (Aurélio virtual)