27.9.12

assado, Luiz Fernando Galotti, Emanuel Medeiros Vieira, Sua majestade o canário, Olsen Jr., Passado, Luiz Fernando Galotti, Emanuel Medeiros Vieira, Sua majestade o canário, Olsen Jr., Passado, Luiz Fernando Galotti, Emanuel Medeiros Vieira, Sua majestade o canário, Olsen Jr., Passado, Luiz Fernando Galotti, Emanuel Medeiros Vieira, Sua majestade o canário, Olsen Jr.

 

Garça em Santo Antônio de Lisboa. Foto: Celso Martins

Dois ilustres escritores

Emanuel Medeiros Vieira encaminha o porma "Passado", dedicado a Luiz Fernando Galotti, falecido recentemente. "Meu primeiro livro foi lançado em 29 de setembro de 1972 na livraria Cruz e Sousa", que pertencia a Galotti, lembra Emanuel. "E a Vera Linhares [falecida] ajudou no preparo do lançamento".
Oldemar Olsen Júnior, o nosso Olsen Jr., andou por Florianópolis tratando de reformas em sua casa na Lagoa da Conceição e conversou com alunos do Colégio Maria Luiza de Melo, o popular Melão, em São José. Antecipou a crônica "Sua majestade o canário".

Gaivota na Ponta do Sambaqui (Sambaqui). Foto: Celso Martins

*

SUA MAJESTADE O CANÁRIO

Por Olsen Jr.

   Não é segredo para ninguém que os animais exercem um determinado fascínio sobre as pessoas. Desde tempos imemoriáveis estes seres, ditos irracionais, acompanham o gênero humano. Alguns destes espécimes como lembrou um amigo bem humorado, até se adaptaram melhor ao mundo que certos indivíduos que conheço, mas é outra história.
   O fato é que esta afetividade transplantada para o plano prático fez com que domesticássemos determinadas espécies para o nosso convívio, seja por razões impostas pelo trabalho, para fins bélicos, alimento, negócios, sociabilidade e até ocupações lúdicas...
   Por que estou lembrando isso?
   Certos fatos e acontecimentos estão tão incorporados em nossas vidas que, muitas vezes, não percebemos as dificuldades que envolveram nossos antepassados considerando a iniciativa que vai desde a captura de determinadas espécies de animais até o seu condicionamento para pô-las a disposição do convívio humano para os fins a que destinasse.
   Assim, a docilidade de um gato (seja de que raça for) aninhado em cima de um sofá na sala dificilmente evoca sua ancestralidade com os egípcios e a civilização que engendraram... Um cachorro abanando o rabo para receber um afago do dono raramente provoca um sentimento de gratidão  pelos povos asiáticos que os trouxeram para o nosso convívio... Do alimento para a caça, guarda e companheirismo, quem sabe quem chegou primeiro?  Talvez a sobrevivência mesmo, arrisco.
   Mas no lugar onde estou morando agora, Rio Negrinho (Norte do estado de SC) uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção, andando por aí, foi à ausência de cachorros nas ruas. A sensação é a de que os proprietários dos cuscos gostam deles o suficiente para não permitir que fiquem soltos por aí a mercê de um destino aventureiro que, aliás, não condiz com uma sociedade de colonização alemã.
  Outra constatação, a propósito foi uma amiga quem me alertou. Como ela gosta muito de bichos e sempre conviveu com gatos desde a infância (na casa dela sempre havia pelo menos dois) disse-me que era muito raro perceber a presença de um destes bichanos em qualquer local. Daí insuflado pela curiosidade comecei a reparar em todos os lugares por onde andasse se havia algum gato... Nada... Mesmo em casas habitadas por gente idosa onde tal incidência é quase rotineira, nem sinal daqueles animais assim tão limpos e delicados e inofensivos como sempre fazia questão de afirmar a minha amiga que, a bem da verdade tinha um em casa com o curioso nome de “Pacato”, segundo ela, a inspiração para nomeá-lo veio do seriado “He-Man” da televisão.
   Lembro que nos fizemos a mesma pergunta: “o que será que houve com os gatos (estávamos nos referindo aos felinos, evidentemente) desta cidade?
   A pergunta permaneceu no ar durante alguns meses... Outro dia encontro com esta amiga e comentamos sobre aquele fato inusitado, foi quando ela começou a rir... Aí foi a minha vez de ficar intrigado... “Qual a graça?”  – Indago, sem entender... “Descobri a razão da quase ausência dos gatos na cidade” – Disse ela, fazendo um breve suspense para apimentar o que iria dizer... “Estou ouvindo” – brinquei enquanto esperava pelo desfecho daquele enigma. Descobri a resposta, começou ela, por puro acidente. Dia destes, comentei com um morador antigo aqui da terra, que não tinha visto nem um gato nas imediações... Ele sem se constranger, simplesmente disse: “Ninguém tem gato em casa porque há muitos criadores de canários na cidade... E aqui o canário é rei!”... Rimos juntos... Lembrei do Lauro, meu barbeiro que coleciona troféus ganhos pelos seus canários, mas agora já é outra história!

.

A música que ilustra o texto poderia ser esta...



Do grupo “The Troggs” que pontificou na década de 1960 (só para variar)...
Eles emplacaram muitos sucessos, a maioria no ano de 1966 quando assinaram contrato com o mesmo empresário do “The Kings”...
Continuam na estrada até  hoje...
Antes que esqueça, “Troggs” é a abreviatura inglesa para a palavra trogloditas...
Vai com o carinho de sempre do poeta... (Olsen Jr.)

*

 Gaivota na praia das Flores (Sambaqui). Foto: Celso Martins

PASSADO 

Por Emanuel Medeiros Vieira


Em memória de Luiz Fernando Gallotti – que muito fez pela cultura de
Florianópolis e pelo avanço do conhecimento e da democracia.

Para os que ainda sonham.

Atiramos o passado ao abismo, mas não nos debruçamos para ver se ele está morrendo.” (William Skakespeare)                        

Quando chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva, não existiria o arco-íris.” (G. K. Chesterton)


O passado caiu no abismo.
Caiu?
Escorre o Tempo – sempre.
Deixamos tudo para depois.
Ele – o Tempo – não.
Tudo já foi dito (lembrado): um trapiche, um menino, um velho – e o mar.
“Redundante, repetitivo”.
São sempre os mesmos – os temas.
(Álibi compensatório).
O pai sereno no caixão.
Só captamos fragmentos de uma vida.
A baía azul, a regata – o útero materno.
O Passado será sempre um país estrangeiro.
Ossadas de um menino?
Ou um sonho irrevogável – algo de ti ficará.
Obrigado, amigo!

(Salvador, setembro de2012)

*

 Placa no Gambarzeira (Santo Antônio de Lisboa).


24.9.12

FOTOGRAFIA (Celso Martins) e 
POESIA (Emanuel Medeiros Vieira)






*



Imagens da resistência democrática
na Florianópolis da década de 1970

Jornalista e historiador Celso Martins mostra fotografias inéditas

Imagens da Resistência: Florianópolis nos anos 70, do historiador e jornalista Celso Martins, tem a coordenação e produção de Carmem Lúcia Luiz com a curadoria do fotógrafo Radilson Carlos Gomes. O movimento estudantil, as noitadas no Roma, a Novembrada e o cotidiano daqueles tempos integram a mostra.
“Tudo isso fazia parte do meu dia-a-dia, como morador do bairro da Trindade que ameaçava fazer poesia, militava na oposição à ditadura civil-militar e atuava como repórter do jornal O Estado”, conta Martins que não se vê como fotógrafo. “Fotografo no intuito de reportar uma imagem”, explica, “mas onde eu me realizo é como repórter de texto”.
O material que está sendo mostrado é apenas uma ínfima parte do acervo reunido por Celso Martins, a maior parte ainda em negativos que nunca foram ampliados. Munido de uma câmera Canon FTB, ele cobriu os atos da resistência democrática e o dia-a-dia de seus integrantes, além de fatos e eventos pela cidade.
Teve a sorte de conviver com o grupo pioneiro do foto-jornalismo na cidade, reunido no jornal O Estado, como Orestes Araújo, o falecido Rivaldo Souza, Sérgio Rosário e Lourival Bento. “Eu era repórter mas acompanhava as discussões dos fotógrafos sobre a obtenção da imagem, as questões éticas, a revelação, ampliação e edição das fotos”, lembra.
Naquele tempo, profissionais de peso como Tarcísio Mattos, Carlos Silva e Sarará, atuaram no laboratório do jornal, com quem eu “discutia a qualidade dos meus negativos”. Martins também se recorda das primeiras lições com Osvaldo Nocetti (Coca) e Laureci Cordeiro, as aulas com Dario de Almeida Prado e o convívio com outros profissionais.
A mostra tem um formato diferente, com fotos em grandes dimensões, muitas escaneadas e ampliadas a partir de contatos, sem o uso de qualquer programa para alterar seu estado original. Uma pequena instalação vai mostrar como eram processadas estas fotografias, com ampliador, bacias, pinças, cuba e o tradicional varalzinho para a secagem de fotos e negativos.
Na ocasião estarão sendo autografados os livros Os quatro cantos do Sol – Operação Barriga Verde (Florianópolis: EdUFSC, 2006) e Os Comunas – Álvaro Ventura e o PCB catarinense (Florianópolis: Paralelo 27/Fundação Franklin Cascaes, 1995, ambos de autoria de Celso Martins.


Serviço

Mostra
Imagens da Resistência: Florianópolis nos anos 70

Autor
Celso Martins (jornalista e historiador)

Abertura
Dia 25.0.2012 às 19 horas

Permanência
Dias 25 a 27 de setembro

Local
Espaço É A GENTE (rua Júlio Moura, 139, Centro)

Entrada franca

*

BREVIÁRIO

(Ou Livro das Citações)

Lembrando Theo Angelopoulos (1936-2012), um dos maiores cineastas do século XX


Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

(...) “Disse a mim mesmo repetidas vezes que não existe outro enigma senão o tempo, essa infinita urdidura do ontem, do hoje, do futuro, do sempre e do nunca”.

(Jorge Luis Borges – “O Congresso”, em “O Livro de Areia”)

O tempo – sempre

pó, sombras, finitude,

meu breviário,

bíblia da jornada – inelutável calendário,

 mar azul ao fundo,

menino, velho, defunto.

o tempo e seus presságios

 meu fio-terra particular (subjetividade dilacerada) – e rosto no espelho (todos os dias)

bússola desgovernada, errático astrolábio

a vida escorre – sempre celebrada

(Mesmo que a morte tenha mais tempo)

Novamente, lembrei-me de Borges – da mesma obra –, citado na epígrafe:
(...) “Também a mim a vida deu tudo. A todos a vida dá tudo, mas a maioria ignora isso. (...)

(“Undr”)

Lembrando Theo de “A Viagem dos comediantes”, “Paisagem na neblina” “A Eternidade e um dia”, “Um olhar a cada dia”

Breviário, epístola, palavra, revelação, mãe, imortalidade – e o tempo e o mar

(Quem sabe, Deus)

A Eternidade é um dia

A Eternidade e um dia

E só essa vida. Só essa. Nunca mais.

16.9.12


10.9.12



Camaradas, salve!
Segue a crônica com a música...
Com o carinho do poeta sempre...



O cantor e ator Ricky Shane é um mistério...
Filho de pai libanês e mãe francesa...
Foi para Paris com 15 anos...
Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”...
Depois sumiu... Dedicou-se ao cinema e teatro...
Casou, teve filhos...
Nunca mais ouvi falar dele... Uma pena!
Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai... (Olsen Jr.)



NEM SEMPRE
FREUD EXPLICA

Por Olsen Jr.

   Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)... Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.   Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho... Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção... Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”... Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério... “Não, meu filho, não doeu”...   Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade”  se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais...
A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo... Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua...”
   A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato... Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo... E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor... Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”...
   Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos...
   Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa... Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo... Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto... Algum tempo atrás fui provar uma roupa... Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine... Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado... Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa... Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”...
   Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista... A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso... Alguém avisou que o motorista dela já  estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete... Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”
   Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista! 
  

6.9.12



AGREGAR

Poema de Emanuel Medeiros Vieira*

“Não Matarás”: não basta.
Teu mandamento será este: farás tudo para que o outro viva.
É vero sim o que quero:
não me importa o estoque de teu capital, Brasil,
mas tua capacidade de: amar
lavrar
aspirar
compreender.

Esse estatuto de miséria não é o nosso,
e a tecnologia da última geração não me sacia:
meu coração navegador quer mais.
A Ética – cuspida, debochada, no reino do simulacro,
Virou produto supérfluo porque não tem valor contábil.

Tempo dessacralizado e sem utopia:
a esperança é um cavalo cansado?
A aventura acabou no mundo?
Seremos apenas meros grãos de areia na imensa praia global?
Habitantes de um mundo virtual neste mercado sem cara?
Soará pomposo, eu sei:
não deixemos que nos amputem a alma
(e que acolhamos o outro).
Ser gente: não mera massa abúlica, informe, com os olhos colados
no retângulo luminoso de todas as noites.
O tempo é apenas dos alpinistas sociais?
Sou bom porque apareço, não apareço porque sou bom.

Na internet a solidão é planetária.,
mas do abismo – fragmento – irrompe um menino eterno,
e sentes o cheiro de uma manhã fundadora.
(A Morada do Ser é mais importante que o poder/glória.)

E o poema resiste,
singra a eternidade,
despista a morte,
seu estatuto não é mercantil.

Já não esqueces o essencial:
Na estrada de pó e de esperança, acolhes o outro.



*Este texto obteve o Primeiro Lugar no Concurso Nacional de Poemas, promovido pela Associação de Cultura Luso-Brasileira, de Juiz de Fora, Minas Gerais, sendo contemplado com a Medalha de Ouro “Jacy Thomaz Ribeiro.” O tema do concurso foi “Solidariedade: Por um Mundo Melhor.”






 Fotos: Celso Martins

14.8.12


Emanuel Medeiros Vieira:
Nunca mais voltaremos para casa

Emanuel Medeiros Vieira tem voado muito entre Salvador e Brasília, escreve copiosamente, mantém contatos com os amigos, dispara e-mails e divulga como poucos seu mais recente livro – Nunca mais voltaremos para casa (dedicado ao titular do Sambaqui na Rede e a outros amigos).



Pedidos
 Editora Dobra Literatura 
www.dobraeditorial.com.br
(Tel: 11 5083-3090)

*

Emanuel segundo Maura

Os dois textos a seguir escritos por Maura Soares estão repletos de incursões à Florianópolis de antigamente. Sob o pretexto de comentar a obra Cerrado Desterro, ela dá algumas pinceladas no perfil de Emanuel Medeiros Vieira e, sobretudo, apresenta elementos do imaginário da criação literária - dela, de Emanuel e outros autores. 

Maura Soares


CERRADO DESTERRO
PALAVRAS PARA EMANUEL

Iniciei a leitura de Cerrado Desterro na manhã  de 4 de abril de 2010, domingo de Páscoa. Sem querer fiz uma leitura, digamos, em conta-gotas, lendo à noite ao deitar ou pela manhã, ao acordar.
Fechei o livro nesta manhã, sem querer ler os depoimentos ao final do livro, pois tenho comigo que se fosse ler poderia me influenciar no quero dizer e até repetir o que os amigos e familiares disseram. Fica para depois, com calma, degustar as palavras daqueles que se dispuseram a dar seus testemunhos.
Se fosse ler poderia perder um pouco a emoção que a obra encerra.
Emanuel, mais uma vez, enviou-me um filho seu para ser acarinhado.
Já havia degustado “Olhos azuis – Ao sul do efêmero” e lhe enviado minhas modestas considerações, pois ainda não tenho o volume de leitura de escritores como Emanuel, e a amiga acadêmica Urda Klueger, pois são pessoas dedicadas quase que 24 horas à literatura e eu cheia de afazeres em três instituições culturais em que presto colaboração, não consigo ter o volume de leituras que eles tem.
Emanuel pede lá pelo meio da obra que seus leitores não a lessem apressadamente, no afogadilho, mas que a cada página meditassem sobre tudo o que estava ali estampado – parodiando o autor – num coração despedaçado em folhetins.
Quando um ser tem sua convicção política e não esmorece diante das adversidades, fatalmente encontrará barreiras a transpor, feras a domar.
Ainda luta após tantos anos com seus demônios interiores, ainda tenta exorcizar o que a fé católica em que foi criado, incutiu em sua mente, o pecado, o sentimento de culpa.
Desprendida que sou deste sentimento, pelo menos não fico me provando a toda hora, tentarei dizer palavras para Emanuel  que brotarem a partir daqui, diretamente do meu coração de uma pretensa poetisa para um poeta nato, um poeta em que até nas adversidades transforma sua narrativa em poesia, até num simples e-mail que me envia, entrega seu sofrido coração.
Mudou o Natal ou mudei eu?
Onde ouvi esta frase? Creio que de uma peça de teatro, de quem não sei, só sei que a fala foi do amigo irmão ator Édio Nunes.
Mudou o Natal ou Emanuel mudou?
Não, Emanuel não mudou, apenas as circunstâncias da vida fizeram com que ele adormecesse suas convicções políticas pra não se machucar mais, para que sua amada Clarice não sofresse ao ver o sofrimento do amado pai.
Agora, na plenitude de sua vida,  Emanuel revê seu Cerrado e seu Desterro “com olhos lassos, com ironias e cansaços” e até com certa amargura. Mas ele foi “treinado” para amar o próximo, nele foram imbuídos os sentimentos cristãos de um pai amoroso, de um pai trabalhador que seguia a fé católica como deve ser, desprendido de apego a bens materiais, embora muitos “doutores” da Igreja Católica vivam nababescamente invocando o nome de Deus.



Cerrado Desterro. Este é o foco das minhas palavras.

A obra é dedicada aos amigos, àqueles que com ele empreenderam a jornada da vida, que o ampararam quando de suas internações hospitalares, quando em dolorosa peregrinação como o Cristo em direção ao Calvário, ele sofreu.
A obra em seu desenvolvimento é dedicada àqueles que ao seu lado saíram às ruas enfrentando o poder político, o militar, o golpe de 64.
64 ainda não terminou. Os porões da ditadura não foram devidamente devassados.
“Encerra este papo”, pode alguém querer me dizer. “Os tempos são outros”. “Aquelas frases de efeito “ o povo unido jamais será..” “ abaixo” “fora FMI” não existe mais, não vês como eles estão hoje colocando dinheiro nas meias e cuecas?” “Pra que reviver isto, pra que mexer em velhas feridas”?
Pois é. Soltaram o Arruda. Podem ter certeza: nosso povo não tem memória. O homem vai dar um tempo e vai se candidatar de novo, ganhar a eleição e continuar o que deixou antes de “sofrer” na prisão.
Não, mas o foco é Cerrado Desterro em que Emanuel se desnuda, exorciza seus demônios, escancara suas veias, derrama seu sangue ao mesmo tempo em que seu coração de menino não se desprende da Ilha-terra natal-capital.
Não se desliga da casa da avenida Rio Branco, do Grupo Modelo Dias Velho – onde também eu e meus irmãos estudamos – não se separa, ou não quer se afastar, da casa na praia, dos seus passeios com pés descalços nas areias da Ilha onde tantas vezes meditou sobre sua vida, tantos papos tantas bebidas, qual o sentido da vida que se apresentava.
Pouca foi a minha experiência hospitalar diante do sofrimento de Emanuel.
Após acidente sofrido em janeiro de 2009 –  um simples atropelamento em que um irresponsável com o celular ao ouvido me colheu com um pé na calçada – e me deixou no “estaleiro”  por sete meses, peregrinando por hospitais em Florianópolis e Blumenau. Também como Emanuel as veias para soro e retirada de sangue para os devidos exames se esconderam causando mais sofrimento. É grande a dor quando enfermeiros procuram a veia boa para o exame. A dor é imensa, mas passa. A dor passa. Não o sentimento que dela emana.
Me recuperei pois a minha dor foi física, no entanto,  a de Emanuel foi a dor da alma e por mais que ele a exorcize, um quê de tristeza ainda fica guardado lá no fundo, no escaninho de sua memória.
Quem passou pela vida e não sofreu, simplesmente não viveu, já disse alguém. Não sou muito pródiga em citações embora colha em diversos PPS e obras e as guarde para ler antes das reuniões do Grupo de Poetas Livres, de Florianópolis, cuja presidência exerço desde 2000 e irei até 2012, se Deus assim o permitir,pois mais uma gestão – ou gestação como digo – se me apresenta.
Pois bem, tenho que parar de fazer digressões e ir ao que interessa: as minhas impressões sobre o livro que o autor me dedica com as palavras que não posso deixar de citar: ”Para Maura, generosa amiga e sensível colega de ofício, seguem umas evocações desse longo sofrido; mas sempre adorável andar, com o carinho sincero do Emanuel”.
Cerrado Desterro impressionou-me por sua narrativa memorialista.
O quarto do hospital palco de seu sofrimento, mas também de suas recordações, de seus devaneios trouxe-lhe o cheiro do mar da Ilha-capital, trouxe de volta os seus discursos, a sua voz inflamada contra os que torturaram, os que seviciaram, os que tentaram abortar a fé em dias melhores para a nação brasileira.
Não costumo fazer isso, mas nesta obra peguei uma lapiseira, depois um lápis, pois o grafite havia acabado e comecei a fazer pequenas chaves em parágrafos, sublinhar  em quase todas as páginas nos trechos que me tocaram e me ajudariam a reler para dar este testemunho.
Ressalto Elliot que disse que autor, o poeta, escreve para se livrar das emoções e já na página 42 Emanuel cita Elliot quando diz que as palavras se movem.
Assim se move o livro: anos 60 anos 90, anos 70 , 2004 e nesse vai e vem a memória do autor passeia por sua história, de um quarto de pensão, à casa dos pais, da cela de prisão à outra prisão, o leito do hospital.
Seu sofrimento no leito hospitalar conseguiu em parte botar pra fora neste livro. Só quem sofreu pode avaliar o sofrimento alheio.
Aquele senhor nascido em 1945 quer voltar pra casa, ganhar o beijo do pai, virar novamente menino, passear na região da avenida Rio Branco, sei lá, empinar pandorga no Campo do Manejo, caçar passarinho, brincar no rio da Avenida Hercilio Luz, roubar fruta no pátio do Colégio Catarinense.
Lembro-me quando no Dias Velho, na hora do recreio, ia para a parte de trás do Grupo e roubava amora do pé, enquanto os auxiliares de disciplina não me pegassem.



Diz Emanuel “A memória é elemento nuclear de toda a minha escrita: modesto memorialista; sou desta tribo”.

Sua prodigiosa memória dá saltos do Golpe de 64 em que o Brasil mergulhou num regime de exceção, vai à faculdade de Direito em Porto Alegre, retorna à Confeitaria Chiquinho, ao Campo da Liga, ao Roda Bar onde meu irmão Saulo tantas cervejas deve ter tomado, onde minha mãe designava um dos pequenos para chamar o irmão dizendo que o almoço já estava na mesa e todos tinham que comer na mesma hora, pois família grande tudo tinha que ser repartido irmamente.
Enquanto falo de Emanuel também cito coisas minhas, contemporâneos que fomos freqüentando quase os mesmos lugares da Ilha formosa.
Não vou seguir capítulo por capítulo de Cerrado Desterro, nem pretendo fazer análise crítica, não é esta minha intenção de momento. Nem tampouco analiso a obra. Falo, sim, com o coração degustando o livro como pede o autor no decorrer da obra.
Pensar a vida, revivê-la quando a plenitude chega dando-nos a oportunidade de contar, de deixar para a posteridade seu relato, fase de uma vida, espaço-tempo da memória em que tudo o que foi relatado não foi ficção, foi uma realidade nua e crua em que a alma do poeta dourou a pílula, deixando para o leitor imaginar cenas de tortura e dada sua bondade, até se enternecer com um dos algozes, homem bruto sem cultura, admirando aquele jovem alto e magro escritor, poeta nascido na Ilha de encantos, de casos e ocasos raros.
O que lhe valeu foram as boas leituras que teve ao longo de sua trajetória, que ficaram gravadas em seu subconsciente; o que lhe valeu foi a sua inquebrantável força interior em receber sua cota de sofrimento na OBAN, a grande sucursal do inferno no Brasil, como diz.
Machucaram o nobre amigo, mas não lhe impediram de pensar, de raciocinar, isto tortura nenhuma apaga.
Emanuel além de desnudar-se arranca “pedaços de sua pele, e esses pedaços não acabam nunca, puxando, puxando, tantas camadas superpostas”.
Quem sofreu tortura sabe avaliar o sofrimento alheio,repito. E diz Emanuel – para exorcizar os demônios – “é preciso escrever. Para lembrar. Para deixar exposto para os que vierem. Isso aconteceu. Os demônios voltam, como cadáveres mal enterrados, cujos braços e pedaços acabam aparecendo, vindo à superfície, à terra. Uma chuva, uma tempestade, e lá estão eles”.

Emanuel escreve. E Emanuel com sua prodigiosa memória que o sofrimento debaixo da pata do governo, não eliminou, escreve. Escreve dourando a pílula para que o leitor viva com ele, mas que como bom cristão, não quer que o leitor chore como ele chorou com o abuso do poder, não quer que seus amigos, aqueles que com ele empreenderam a jornada não sejam esquecidos, mas também não se revoltem com o que passou não da forma de vingança pois estariam fazendo a mesma coisa que eles, mas que após tanta dor que venha o amor, o amor de Clarice estampado em muitas passagens, o amor por Lucas que se percebe no olhar como se uma câmera estivesse focando quando Emanuel olha Lucas ao completar um ano, 24 de maio.
O olhar do pai de coração a gente vê, aquele olhar compassivo daquele homem que sofreu, mas que continua a escrever para deixar aos que vierem depois dele, um pouco da história que viveu, para que futuros historiadores revirem o baú de suas memórias, tentem imaginar a Ilha-Capital dos anos 60 – em que éramos felizes e não sabíamos – citar as passagens da obra na tentativa de reconstruir a época porém quem viveu sabe o que aconteceu; tenha seus encantos, suas alegrias, suas dores, suas revoltas, suas lágrimas.
Quem viveu a época do golpe de 64 a 79 – anos 80, sabe o quanto a vida foi dura, o quanto teve que amargar, mas no fim, o Brasil ficou o mesmo, pois “sempre haverá um habeas corpus para os grandes ladrões”.
O que a ditadura não tirou e nem vai tirar tanto de Emanuel quanto de Adolfo, Pedro, Gerônimo, companheiros de infortúnio, é a fé inquebrantável num país sem desmandos, num país onde o bem perdure, onde a economia favoreça a todos.
O que “eles” tentaram e não destruíram foi a alma do menino, aluno do Grupo Modelo Dias Velho, a alma do jovem inconformado que bebeu todas e hoje se contenta com água mineral, a alma do menino que andava nas ruas de sua cidade natal despreocupadamente, que observava a praia, o vai vem das ondas.
A alma e o Amor, aquele que vence qualquer batalha, aquele que dá forças para continuar, aquele amor de Clarice e de Lucas, perpetuações do Amor Divino.
Mais não posso dizer. Que os leitores que vierem após sintam também a emoção ao apreciar, com vagar, as páginas de Cerrado Desterro.
Que os leitores sintam que Emanuel foi um daqueles seres, uma daquelas crianças que nasceram na geração das crianças traídas, mas que sobreviveram a tudo, pois há em seus corações o toque da esperança.
Um beijo em teu coração tão despedaçado, meu amigo Emanuel Tadeu, aquele que está no coração dos homens puros louvando a Deus.

Aos 15 de abril de 2010, madrugada, quinta-feira, como sempre escrevendo sobre o travesseiro, com o barulho da feira de hortaliças a se organizar debaixo de sua janela.

*Maura Soares pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Academia Desterrense de Letras e Grupo de Poetas Livres.

*.

CERRADO DESTERRO II

Teci comentários a respeito de Cerrado Desterro que tem, agora, mais um capítulo. Emanuel pede que participe desta edição. Com satisfação, compareço. A obra é dedicada aos amigos, àqueles que com ele empreenderam a jornada da vida, que o ampararam quando de suas internações hospitalares, e àqueles que ao seu lado saíram às ruas enfrentando o poder político, o militar, o golpe de 64, ano que ainda não terminou. Os porões da ditadura não foram devidamente devassados. Emanuel se desnuda, exorciza seus demônios, escancara suas veias, derrama seu sangue ao mesmo tempo em que seu coração de menino não se desprende da Ilha-terra natal-capital. Quem passou pela vida e não sofreu, simplesmente não viveu, já disse alguém. Cerrado Desterro impressionou-me por sua narrativa memorialista.
O quarto do hospital palco de seu sofrimento, mas também de suas recordações, de seus devaneios trouxe-lhe o cheiro do mar da Ilha-capital, trouxe de volta os seus discursos, a sua voz inflamada contra os que torturaram, os que seviciaram, os que tentaram abortar a fé em dias melhores para a nação brasileira. Assim se move o livro: anos 60 anos 90, anos 70 , 2004 e nesse vai e vem a memória do autor passeia por sua história, de um quarto de pensão, à casa dos pais, da cela de prisão à outra prisão, o leito do hospital.
Seu sofrimento no leito hospitalar conseguiu em parte botar pra fora. Só quem sofreu pode avaliar o sofrimento alheio. Diz Emanuel “A memória é elemento nuclear de toda a minha escrita: modesto memorialista; sou desta tribo”. Sua prodigiosa memória dá saltos do Golpe de 64 em que o Brasil mergulhou num regime de exceção, vai à faculdade de Direito em Porto Alegre, retorna à Confeitaria Chiquinho, ao Campo da Liga, ao Roda Bar onde meu irmão Saulo tantas cervejas deve ter tomado,discutido política com os frequentadores, inflamado que ele era, tanto que graduou-se em Direito. Pensar a vida,  revivê-la quando a plenitude chega dando-nos a oportunidade de contar, de deixar para a posteridade seu relato, fase de uma vida, espaço-tempo da memória em que tudo o que foi relatado não foi ficção, foi uma realidade nua e crua em que a alma do poeta dourou a pílula, deixando para o leitor imaginar cenas de tortura e dada sua bondade, até se enternecer com um dos algozes, homem bruto sem cultura, admirando aquele jovem alto e magro escritor, poeta nascido na Ilha de encantos, de casos e ocasos raros. As torturas sofridas nos porões machucaram meu nobre amigo, mas não lhe impediram de pensar, de raciocinar, isto tortura nenhuma apaga.
Emanuel além de desnudar-se arranca “pedaços de sua pele, e esses pedaços não acabam nunca, puxando, puxando, tantas camadas superpostas”. Quem sofreu tortura sabe avaliar o sofrimento alheio, repito. E diz Emanuel – para exorcizar os demônios – “é preciso escrever. Para lembrar. Para deixar exposto para os que vierem. Isso aconteceu. Os demônios voltam, como cadáveres mal enterrados, cujos braços e pedaços acabam aparecendo, vindo à superfície, à terra. Uma chuva, uma tempestade, e lá estão eles”. Emanuel escreve. Com sua prodigiosa memória que o sofrimento debaixo da pata do governo, não eliminou, escreve. Escreve dourando a pílula para que o leitor viva com ele, mas que como bom cristão, não quer que o leitor chore como ele chorou com o abuso do poder, não quer que seus amigos, aqueles que com ele empreenderam a jornada não sejam esquecidos, mas também não se revoltem com o que passou não da forma de vingança pois estariam fazendo a mesma coisa que eles, mas que após tanta dor que venha o amor, o amor de Clarice, Célia  e do pequeno Lucas.
O que a ditadura não tirou e nem vai tirar tanto de Emanuel quanto de Adolfo, Pedro, Gerônimo, é a fé inquebrantável num país sem desmandos, num país onde o bem perdure, onde a economia favoreça a todos. “Eles” jamais destruirão aquele Emanuel que acreditava e acredita num Brasil verdadeiro.
Que os leitores sintam novamente a emoção nas páginas de Cerrado Desterro II. (Por M.S.)

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Na rede
O site Ares e Mares (http://www.aresemares.com) têm publicado textos de Emanuel Medeiros Vieira. Acompanhe

 Fotos: Celso Martins

7.8.12

VISITAS E CHAMADAS

 




 



 



 Fotos: Celso Martins






17.7.12

O Portal de Notícias
DAQUI NA REDE 
está de volta.

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Fatma confirma: as estações de
esgoto da Casan não funcionam

Unidades são operadas sem licença ambiental e ameaçam a saúde pública, a maricultura, a balneabilidade e a pesca

Por Celso Martins

Nenhuma das oito estações de tratamento de esgotos da Casan, na região de Florianópolis, funciona adequadamente. Ao contrário, elas se transformaram em agentes terrivelmente poluidoras. É o que está sendo confirmado em relatório de 29 de junho último elaborado por técnicos da Fundação do Meio Ambiente (Fatma).
Os problemas foram constatados pelos engenheiros sanitaristas e ambientais da Fatma, Anderson Atkinson da Cunha, Bianca Damo Ranzi, Bruno Caviquioni Hillesheim e Wesley Cárdia, mais o geógrafo Carlos Eduardo Soares, nas vistorias realizadas entre os dias 26 de março e 22 de junho.
O trabalho resultou no “Pré-relatório de vistoria e fiscalização nas estações de tratamento de esgotos da Casan na Grande Florianópolis”, concluído no último dia 29 de junho. Foram visitadas pelos técnicos da Fatma as unidades (ETE) Insular, Lagoa da Conceição, Barra da Lagoa, João Paulo, Vila União, Ingleses, Estação Elevatório do Potecas, Rancho Queimado, Praia Brava, Canasvieiras.
Apenas uma das nove estações de tratamento possui Licença Ambiental de Operação (LAO) e se localiza no município de Rancho Queimado. Ou seja, nenhuma das unidades da Casan em Florianópolis funciona como deveria.


A situação da ETE Canasvieiras

O caso da ETE Canasvieiras é grave. Em obras de ampliação para receber (também) os esgotos da Praia Brava, Ingleses, Cachoeira do Bom Jesus e Jurerê, funcionou até agora com Licença Ambiental de Operação vencida.
As irregularidades constatadas nas vistorias realizadas nos dias 28 de março e 21 de junho deste ano indicam o problema e a legislação que não está sendo observada:

Área geral da ETE
1) “Disposição inadequada dos resíduos provenientes da ampliação da rede de esgotos, em frente a entrada da ETE. Tais resíduos encontram-se ao lado de curso d’água/vala de drenagem (resíduo contaminante – asfalto)”.
2) “Ausência de manutenção dos equipamentos”.
3) “Utilização do pátio da ETE para manutenção de máquinas pesadas, inclusive com derramamento de óleo”.
4) “Ausência de procedimentos de manutenção e operação orientativos”.
5) “Laboratório para rotinas operacionais diárias sem equipamentos. Área prevista para laboratório não é utilizada”.
6) “Ausência de manual de procedimentos em casos de emergências”.
7) A Licença Ambiental de Operação da unidade está vencida.
8) “Disposição irregular de materiais e equipamentos em área de vegetação nativa”.
9) “Presença de animais na área da ETE”.
10) “Recebimento de caminhões limpa-fossa sem autorização,efluentes de diversas origens. Sem licença. Atividade não autorizada na LAO (já vencida)”.
11) “Falta de impermeabilização na área do tratamento dos efluentes do limpa-fossa”.
12) “Vazamento de esgoto na área utilizada para descarte de efluentes dos caminhões limpa-fossa”.
13) “Ausência de calhas coletoras de líquidos derramados, também na área destinada aos limpa-fossa”.
14) “Lançamento de resíduos de limpa-fossa direto no solo”.

Gradeamento
1) “Gradeamento ineficiente”.
2) “Resíduos do pré-tratamento armazenados e dispostos de forma inadequada”.
3) “Não segregação dos resíduos”.
4) “Armazenamento e disposição inadequada de resíduos contaminantes (lâmpadas, luvas, tintas etc.)”.
5) “Contaminação do solo com resíduos contaminantes”.

Caixa de areia
1) “Caixa de areia com sistema de dragagem sem manutenção”.

Caixa de gordura
1) “Remoção de gordura não está sendo realizada/retirada continuamente”.

Setores biológicos
1) “Ausência de limpeza e manutenção em equipamentos do processo biológico (seletor biológico; tanque de desnitrificação, que está sem agitadores; valos de oxidação; decantadores)”.

Tanque de desnitrificação
1) “Ausência de limpeza e manutenção em equipamentos do processo biológico (seletor biológico; tanque de desnitrificação, que está sendo agitadores; valos de oxidação; decantadores)”.
2) “Escadas de acesso ao tanque de desnitrificação sem hastes de fixação”.
http://www.infopedia.pt/$desnitrificacao

Tanques de aeração
1) “Há valos de oxidação e decantadores fora de operação, porém cheios de esgoto, veiculando vetores transmissores de doenças”.
2) “Não há medição de Oxigênio Dissolvido. Valos de oxidação sem monitoramento contínuo de Oxigênio Dissolvido. Os operadores da ETE relataram que não fazem essa análise e que, apenas ocasionalmente realizam medições de sólidos sedimentáveis em provetas”.
3) “Não há controle operacional de Oxigênio Dissolvido (item imprescindível ao bom funcionamento do sistema e manutenção da microbiologia adequada). Além disso, é necessário suporte contínuo em stand by de gerador elétrico (para todos os valos de oxidação) para prevenção de falhas eventuais da rede elétrica, preservando viva a microbiologia dos valos de oxidação”.
4) “Valo de oxidação com sinais de problemas estruturais”.
5) “Sinais de má operação (lodo em excesso, escuma em excesso, lodo velho etc.). Lodo biológico apresentando aspecto muito escuro (velho), indicando irregularidades no controle operacional do sistema de tratamento. É evidenciado também pela grande quantidade de escuma flotante nos valos de oxidação”.

Decantadores secundários
1) “Há valos de oxidação e decantadores fora de operação, porém cheios de esgoto, veiculando vetores transmissores de doenças”. 
2) “Não há controle e nem medição da vazão de reciclo, prejudicando o controle do processo e funcionamento do tratamento. Não há dispositivo medidor e controlador de vazão de reciclo e nem registro desses dados (fato que deixa a ETE a mercê de problemas operacionais, não tratando adequadamente o esgoto)”.
3) “Decantadores sem manutenção, apresentando muitas Lemnas na superfície, prejudicando o tratamento”.
http://lect.futuro.usp.br/site/dalia/quadroteorico/c_lemnas.htm

Adensadores de lodo
1) “Adensadores sem manutenção, apresentando muitas Lemnas na superfície, prejudicando o tratamento”.

Deságüe do lodo
1) “Sistema inoperante (evidenciando mais uma vez também a falta de procedimento operacional adequado para o tratamento do esgoto. O descarte e deságüe do lodo é essencial para a manutenção da vida microbiológica específica a ser mantida dentro dos tanques de aeração”.

Desinfecção com cloro gás
1) “Sistema de desinfecção com cloro gás irregular, disposto diretamente no solo e sem sistema de segurança e tratamento para vazamentos, expondo os operadores e o meio ambiente constantemente à risco gravíssimo”.
2) “Ausência de tanque de contato (dispositivo indispensável para a efetivação da desinfecção) com dimensionamento (tempo de contato) e estruturas necessárias (chicanas)”.

Descarga no rio
1) “Parâmetros do efluente final da ETE não atendem a legislação”.

*

Resumo do que a Fatma encontrou

Problemas encontrados nas análises das ETEs que levam à promoção de crimes ambientais (solo, água e ar) e contra a saúde pública*

1. Falta de licenças ambientais (licenças de operação, instalação, obras)
 - Todas menos a ETE Rancho Queimado.

2. Ausência de laboratório de análises de operação e serviços rotineiros
 - Todas menos ETE Canasvieiras, que tem, mas está abandonado.

 3. Vazamento e contaminação nas instalações e no meio ambiente (solo, águas e ar)
- Todas as ETEs

 4. Problemas de operação funcional das etapas do tratamento / Falta periodicidade / Material / Controle / Orientação operacional / Qualificação do operador
  - Todas

5. Problemas de qualidade do Tratamento nas Etapas do Sistema
- Todas

6. Problemas de Manutenção e Conservação de Equipamentos e Instalações
- Todas

7. Problemas de Segurança no Trabalho / Sem Manual de Emergência / Equipamentos e instalações inadequadas / desqualificação do operador
- Todas

8. Inexistência de uma etapa de tratamento / por falta de equipamentos, estruturas e instalações
  - Todas

9. Baixa qualidade do efluente líquido lançado em corpo hídrico (rio, lagoa,mar)
- Todas

10. Baixa capacidade e inadequação do corpo hídrico receptor
- Menos Barra da Lagoa, Praia Brava e Rancho Queimado

11. Acima da capacidade suporte das instalações existentes
- Praia Brava, Canasvieiras e Insular

12. Localização, instalações e Tratamento inadequados do Lodo - adensador e desagua
- Todas menos Rancho Queimado, Vila União e Potecas

13. Ausencia de equipamentos de reserva para operação
- P Brava, Saco Grande, Lagoa, Canasvieiras, Insular

14. Localização da ETE em área inadequada ambientalmente
- R. Queimado, Saco Grande, Vila União, Insular

15. Problemas de ruptura nas instalações e meio físico
- Canasvieiras, Insular e Potecas

16. Animais, lixos e resíduos estranhos na ETE
Praia Brava, S. Grande, Barra da Lagoa, Lagoa, Canasvieiras e Insular

(Cavalo bebendo na lagoa de estabilização, vaca pastando, jacaré nadando, cachorro visitando)

17. Abandono total da ETE
- Praia Brava

18. Ausência de funcionário
Praia Brava, Barra da Lagoa, Vila União, Rancho Queimado

19. Ligação clandestina / sem licença ambiental
- Saco Grande - Hotel Maria do Mar

*Por Loureci Ribeiro, arquiteto e urbanista. Confira a entrevista sobre o tema na TV Floripa.

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A Casan e as ilegalidades

Por João Manoel do Nascimento*

A FATMA disponibilizou o relatório de inspeção das estações de tratamentos de esgotos da CASAN, no qual também menciona a situação das licenças ambientais, quando existentes (muitas ETEs não possuem).
Realmente ele é bombástico, pois mostra que a situação é muitíssimo pior do que o grupo que discute balneabilidade (sob coordenação da ACIF Regional) em Canasvieiras imagina. Aliás, ninguém ousaria dizer que a situação era tão ruim, muito embora as multas aplicadas nos últimos meses somente pelo ICMBio (mais de R$ 1,2 milhões) talvez dessem uma idéia.
Neste sentido, revela-se que os esforços para impedir com que os esgotos de Ingleses sejam despejados na ETE de Canasvieiras, por exemplo, são absolutamente razoáveis e devem ser intensificados.
Se a ETE de Canavieiras não opera bem nem para a sua região atual, como pode pretender a CASAN trazer esgotos da região mais populosa do Norte da Ilha para este “aparelho de purificação”?
Como já é de conhecimento público, o projeto de lançamento de esgotos de Ingleses na ETE de Canasvieiras e a desativação da ETE da Praia Brava são ilegais sob as regras das leis do Saneamento (ausência de transparência nas ações, desobediência do rito procedimental da Lei 11.445/2007 e falta de controle social sobre o projeto).
Agora, mais uma vez, percebe-se que a operação das ETE da CASAN é horrível. É inequívoca a prática de crimes ambientais, descumprimento das licenças (quando existentes) e, sem dúvida, é possível afirmar que a CASAN tem colaborado como principal poluidora das praias, tornando cada vez mais difícil a maricultura, degradando imensamente o meio ambiente e causando grandes prejuízos à saúde pública e ao turismo na nossa cidade.

ETE Canasvieiras
Para arrematar, não é demais lembrar que trazer os esgotos de Ingleses para a ETE de Canasvieiras é um projeto contrário ao Plano Municipal Integrado de Saneamento Básico - PMISB (Projeto de Lei Municipal nº 14.364/2011). O PMISB prevê a disposição final dos efluentes tratados em dois emissários submarinos. Bem, o que se está pretendendo não descumpre apenas as leis que regem o saneamento básico (Lei 11.445/2007 e Lei Municipal 7.474/2007), não apenas fere as leis ambientais, mas também a orientação do PMISB. Em suma, segundo o PMISB jamais os esgotos de Ingleses seriam bombeados para Canasvieiras. Aliás, o que deveria ocorrer é exatamente o oposto, pois o PMISB pretende preservar os pequenos cursos d’água da ilha (como o Rio do Brás e Papaquara), os manguezais (como o de Ratones), as baías e as praias de um modo geral.
A CASAN e a Prefeitura deveriam estar envidando esforços para corrigir a péssima qualidade de operação das ETEs da CASAN. Trazer os esgotos de Ingleses para Canasvieiras somente vai agravar (e muito) os problemas de balneabilidade, degradação ambiental e saúde pública de Canasvieiras e de todas as praias e bairros vizinhos à Bacia do Rio Ratones.
Se as informações que esta prestadora de serviços passou na reunião de 25 de junho são procedentes, se nada for feito até o início de agosto, restará aos diretamente prejudicados apenas lamentar.
Até lá, ainda há tempo para fazer muito.
Como alguns sabem, dia 11 de julho haverá uma reunião extraordinária do Conselho Consultivo da Estação Ecológica de Carijós – CONSECA, na sede do ICMBio, às 17 horas.

Cobranças
Nos próximos dias a Assembléia Legislativa chamará uma reunião com o Ministério do Planejamento, Ministério das Cidades e Ministério da Pesca para discutir formas de impedir esta degradação e melhor direcionar os investimentos públicos em saneamento em nossa cidade.
Também nos próximos dias serão marcadas duas audiências públicas pela Câmara Municipal para tratar este absurdo que está ocorrendo no Norte da Ilha e outra similar no Sul da Ilha (já que a CASAN pretende o mesmo no Rio Tavares).
É preciso que se realize uma grande manifestação (anterior a estas audiências públicas), com a participação de moradores e veranistas das comunidades de Canasvieiras até Santo Antônio de Lisboa, para que a mídia passe a noticiar o assunto, a certeza de degradação ambiental e a certeza da perda da salubridade das praias da região.
Não se têm dúvida que existirão inquéritos e ações civis públicas, afinal, o Ministério Público Federal e Estadual está tomando conhecimento de tudo, porém, nada substitui a manifestação da própria população em defesa da balneabilidade das praias, em defesa da maricultura, em defesa da saúde pública e do turismo.

*João Manoel do Nascimento é advogado, conselheiro representante das associações de moradores no Conselho Municipal de Saneamento Básico e vice-presidente do CCPontal. Contato: joaomn@yahoo.com.br

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ANEXO

AUTOS DE INFRAÇÃO LAVRADOS PELA ESTAÇÃO ECOLÓGICA DE CARIJÓS/ICMBio EM DESFAVOR DA CASAN

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 35165-B
Data: 13/12/2011
Descrição da infração: “A Estação de tratamento de efluentes – ETE Canasvieiras/CASAN lançou resíduos líquidos, óleos ou substâncias oleosas em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou atos normativos, conforme a Nota Técnica n° 130/2011-UMC/ICMBio/SC, no período de 25/11/2010 a 11/04/2011 a CASAN lançou efluentes no Rio Papaquara com parâmetros em desacordo com a Lei Estadual 14.675/2009 e/ou Resolução CONAMA n° 430/2011: óleos e graxas, surfactante e fósforo total. Considerando que o Rio Papaquara e um dos principais rios da Estação Ecológica (ESEC) de Carijós e que a ETE Canasvieiras situa-se a 6,5 quilômetros da ESEC, o lançamento irregular do efluente ocasiona danos diretos e indiretos à Estação Ecológica de Carijós, conforme melhor detalhado na Nota Técnica n° 130/2011-UMC/ICMBio/SC”.
Valor da multa: R$ 500.000,00 (multa simples).

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 035824-B
Data: 12/03/2012
Descrição da infração: Lançar resíduo líquido em desacordo com as exigências em atos normativos, por meio da Estação de Tratamento de Efluentes – ETE da Vila União, conforme o Documento Técnico nº142/2011, ocasionando danos diretos e indiretos à Estação Ecológica de Carijós.
Valor da multa: R$ 200.000,00 (multa simples).

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 035170-B
Data: 12/03/2012
Descrição da infração: “Lançar resíduo líquido em desacordo com as exigências em atos normativos, por meio da Estação de Tratamento de Efluentes – ETE do Saco Grande, conforme o Documento Técnico nº 24/2012 UMC/SC, ocasionando danos diretos e indiretos à Estação Ecológica de Carijós.”
Valor da multa: R$ 300.000,00 (multa simples).

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 031329-A
Data: 12/03/2012
Descrição da infração: “Fazer funcionar atividade potencialmente poluidora, ETE de Vila União, sem autorização do ICMBio e sem licença ambiental válida.”
Valor da multa: R$ 156.000,00 (multa simples).

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 031330-A
Data: 12/03/2012
Descrição da infração: “Fazer funcionar atividade potencialmente poluidora, ETE de Saco Grande, sem autorização do ICMBio e sem licença ambiental válida.”
Valor da multa: R$ 48.000,00 (multa simples).

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 031334-A
Data: 26/06/2012
Descrição da infração: “Deixar de prestar informações ambientais no prazo determinado pela autoridade ambiental. Não informação da localização exata do emissário submarino da ETE Saco Grande, conforme Documento Técnico n° 66/2012-UMC/ICMBio/SC.”
Valor da multa: R$ 1.000,00 (multa simples)

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 031335-A
Data: 26/06/2012
Descrição da infração: “Lançar resíduos líquidos e/ou substâncias oleosas em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou atos normativos, por meio da ETE Canasvieiras, conforme Documento Técnico n° 66/2012-UMC/ICMBio/SC”.
Valor da multa: R$ 44.876,00 (multa diária)

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 035173-B
Data: 26/06/2012
Descrição da infração: “Lançar resíduos líquidos e/ou substâncias oleosas em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou atos normativos, por meio da ETE Saco Grande”.
Valor da multa: R$ 7.456,32 (multa diária)

AUTO DE INFRAÇÃO Nº 035174-B
Data: 26/06/2012
Descrição da infração: “Lançar resíduos líquidos e/ou substâncias oleosas em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou atos normativos, por meio da ETE Vila União, no entorno da ESEC Carijós”.
Valor da multa: R$ 586,84 (multa diária)

18.5.12


Esgoto do Norte da Ilha será tratado na
ETE Canasvieiras e lançado no Ratones



Os esgotos de Ingleses e Praia Brava também vão ser levados até a estação de tratamento da Casan em Canasvieiras e os efluentes lançados no rio Papaquara. Este rio desemboca no rio Ratones, cujo estuário atinge Sambaqui, Barra do Sambaqui e Daniela e o coração da Estação Ecológica de Carijós. No Sul da Ilha o rio Tavares vai receber os efluentes.
Os projetos executivos serão apresentados nesta segunda-feira (21.5) pela Casan e Prefeitura durante sessão extraordinária do Conselho Municipal de Saneamento Básico. O evento será às 14 horas no auditório da própria Casan.
É relevante considerar que em 16 de abril de 2012, esta prestadora de serviços assinou vários financiamentos com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2), sendo R$ 196 milhões para  investimentos apenas na cidade de Florianópolis. Em 27 de abril de 2012, se iniciaram as etapas finais para a liberação de recursos de vários financiamentos internacionais (Agência de Cooperação Internacional do Japão - JICA), que totalizam US$ 144 milhões, dos quais, boa parte ficará para a cidade de Florianópolis também.
Confira também os importantes esclarecimentos do advogado João Manoel do Nascimento, vice presidente do Conselho Comunitário do Pontal de Jurerê (CCPontal, praia da Daniela) e conselheiro do Conselho Municipal de Saneamento de Florianópolis. Também publicamos a íntegra da Resolução nº 001/2012, de 04 de maio de 2012, do Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé (RESEX Marinha do Pirajubaé). No DAQUI NA REDE.

8.5.12


 Infância no Diário da Provyncia
(Olsen Jr.)

Eterno racismo e A mulher...
 (Elaine Tavares)

A mulher loba
(Amílcar Neves)

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 .
 
DIÁRIO DA PROVYNCIA II
A INFÂNCIA QUE
NOS PERSEGUE

Por Olsen Jr.*
(olsenjr@matrix.com.br)


   Já está virando moda por aqui. Lugares públicos tocando discos de vinil. Pode ser bizarro num primeiro momento, mas é um diferencial. Sei disso porque não abri mão dos meus discos, tenho dois aparelhos para tocá-los e estou namorando um terceiro que vi em um antiquário.
   O “Canto do Noel” é um boteco situado na Rua Tiradentes, no centro de Florianópolis, onde funcionava o “Pettit” e que volta a ser um ponto de intelectuais que resolveram dar um tempo no disque-me-disque do Mercado Público com o seu cheiro de peixe característico e os pedintes e bordejadores de sempre. Pois é, o “Canto do Noel” tem produzido alguns diferenciais, um deles é este, precisamente, você ouve grandes intérpretes nacionais, começando logicamente pelo que empresta o nome ao local, em discos de vinil, claro tem outros compositores brasileiros de qualidade, mas também a história ou parte dela é mantida com as imagens, fotografias, recortes de jornal emoldurados e dispostos nas paredes criando verdadeiros nichos de saudades onde se vê como essa cidade era bonita. Desde o casario antigo até uma população que parecia mais romântica e pacata. O fotógrafo Édio Melo certamente tem muito a ver com todo aquele acervo.
   Parte da memória da cidade está ali naquelas paredes zelosamente guardada pelo carinho dos novos proprietários Edson e Sônia. O Rio de Janeiro e Florianópolis irmanadas por reminiscências, composições musicais, talentos e o que cada um dos clientes acrescenta com a própria experiência.
   No Empório Mineiro no Boulevard da Lagoa da Conceição, outro lugar aconchegante, vejo o disco de vinil rodando no toca-disco de cor alaranjada onde o poeta Vinicius de Moraes e o violonista Toquinho acabam de cantar “Meu Pai Oxalá” que tinha sido uma das músicas da trilha sonora da novela “O Bem Amado”...
   O disco terminou e continuou girando, a agulha acompanhava as voltas do vinil naquela faixa neutra que não tinha nada gravado nela e somente se ouvia o rodar do acetato. Ao invés de ir até lá e erguer a agulha, trocar o disco ou quem sabe por o mesmo para tocar novamente, fiquei observando o brilho da luz refletido no vinil rodando ali na minha frente e logo aquele aparelho é substituído pela eletrola lá de casa, em Chapecó quando os discos caiam um a um após tocarem naquele pino automático onde estavam empilhados (até cinco recomendavam os especialistas, para não arranharem uns com os outros)... E já não era mais o Vinicius de Moraes e sim o Billy Vaughn tocando “Look for a Star”.    Composta por Buzz Cason, nascido em Nashville (Tennessee) e que passou a assinar com o psudônimo de Garry Miles e, em 1960 compôs a música que o consagraria.
  “Look For a Star” que, aliás, está completando em 2010, 50 anos, era uma das preferidas da minha mãe. Também andei assobiando uma versão interpretada pelo Roberto Carlos “... Duas noites são teus lindos olhos, onde estrelas estão a brilhar, que ternura olhar mil estrelas, em teu olhar”...
   Outro dia assisti ao filme “Circus of Horrors” e a trilha sonora era Look for a Star na composição original de Garry Miles, e viajei novamente ouvindo aquilo associado a minha infância enquanto lia um dos 30 volumes da obra do Karl May, naquela edição encadernada da Ed. Globo de Porto Alegre e que vinha em caixas retratando em maravilhosos bicos de pena os personagens e o mundo criado pela mente prodigiosa do escritor alemão que marcou a minha juventude (minha, do Fernando Sabino, do Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, entre outros)...
    Num dos filmes do Harry Potter, a música Look for a Star também aparece de fundo, está muito impregnada na minha infância e parece que de muito mais gente...
    Em fração de segundos lembro de tudo isso enquanto observo ainda o disco de vinil ali sem que ninguém tome uma providência, acredito que foram aquelas faixas girando que me transportaram, como uma máquina do tempo...
   Alguém passou em frente e cortou o meu fluxo de pensamentos, mas ainda tive a sensação de ver por ali, a minha mãe com um pano tirando o pó de cima do móvel e afirmando que gostava muito daquela música!

 *Olá, camaradas, salve!
Segue a da semana...



Não faço ideia o que seria a música brasileira sem o Noel Rosa (1910-1937)...
Nascido em Vila Isabel, aprendeu a tocar bandolim de ouvido, mas logo passou para o violão...
Abandonou a Faculdade de Medicina porque acreditou que a música era a “sua” vocação...
Conseguiu legitimar o samba de morro fazendo uma ligação entre a classe média e o rádio...
O primeiro sucesso veio com a composição “Com que roupa” em 1930, produto de uma situação inusitada, sua mãe havia escondido suas roupas para tentar impedi-lo de sair para outra noite de boemia...  E ele exclamou “com que roupa que eu vou?” criando a partir daí um samba que está mais vivo do que nunca...
“Conversa de Botequim” é outro de seus muitos sucessos...
Noel Rosa morreu aos 26 anos com tuberculose... (Olsen Jr.)
.
 
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O racismo eternizado

Por Elaine Tavares

O feriado me encontrou lânguida, debruçada sobre um livro de contos do escritor britânico William Somerset Maugham, mais conhecido por sua magistral obra “A servidão humana”. O escrito que sorvi nesses dias relata algumas histórias passadas nos mares do sul, mais especificamente em espaços colonizados pelos ingleses, neozelandeses, alemães, franceses e estadunidenses, tais como Samoa, Havaí e outras da região da Polinésia, no Oceano Pacífico. Entre um relato e outro as páginas vão derramando todo o preconceito que alguém pode ter contra outro que não seja seu igual e a gente vai percebendo como o racismo tem suas raízes tão profundamente cravadas nos corações das gentes, ainda mais quando narrados com qualidade.
Cada uma das histórias vai descortinando a beleza das ilhas polinésias, sua natureza, sua exuberância e, ao mesmo tempo, toda a arrogância dos personagens, a maioria estrangeiros, usurpando a vida e a riqueza dos nativos. Os locais aparecem como os devassos, selvagens, feios, incapazes, vagabundos. As mulheres são mostradas quase sempre como prostitutas, incapazes de viver uma vida monogâmica, bem ao gosto do protestantismo burguês.
Ao penetrar nas páginas, capítulo a capítulo, fui sendo tomada pelo ódio. Pois dá para perceber que não apenas os personagens são preconceituosos e racistas, mas também o próprio autor.  Mesmo quando ele tenta “dourar” algum nativo, o faz de forma tão ostensivamente racista que causa engulhos. É impressionante como o espírito colonial se impregna nas pessoas. Na narrativa, cada estrangeiro ali naquelas ilhas invadidas, além de tomar as riquezas para si, insistia em menosprezar e aviltar os habitantes originários. Tudo tão igual.
 Li três contos e já ia desistir. Mas, o meu amigo Raimundo Caruso me havia indicado um em particular, que ficava mais ao final do livro. Segui. O conto chama-se “A chuva” e narra a história de dois casais de estrangeiros, um deles de missionários estadunidenses, presos em uma das ilhas em tempo de chuva, tendo por companhia uma prostituta, alegre e desbocada. O pastor, indignado com a presença da meretriz, inicia uma caçada psicológica de tamanha crueldade que chega a doer. Nele se vê o ódio aos nativos, às suas crenças, a sua cultura e toda a arrogância do opressor.  O “bom” pastor conta como subjugou os “naturalmente depravados” locais. E depravada era a mulher que, apesar de branca, era tão “desigual” como um nativo. Pois ele a degrada, a destrói, a reduz a nada. E tudo em nome da decência e dos bons costumes.
O interessante é que o final do conto é surpreendente e nos deixa entre o estupor e a alegria. Foi bom ter caminhado até o fim. A mulher, ainda que reduzida a quase perda de sua humanidade, vence. E, tal qual ela, também decido ligar a vitrola e fazer tocar, a todo volume, uma canção de regozijo diante da arrogância, do racismo e do desamor.
O livro “Histórias dos mares do sul” se redime diante de mim com a beleza desse conto. E até Maugham, ele mesmo um homem que sofreu discriminação por ser homossexual num tempo em que isso era um grande tabu. E a prostituta, senhorita Thompson, em alguma medida redime todas as personagens femininas/nativas tão aviltadas pelo autor.
Fiquei a matutar sobre como uma boa pena pode perpetuar a visão de um povo. E como faz falta aos oprimidos alguém que também possa contar as histórias desde o ponto de vista da comunidade das vítimas. Urge narrar a vida dos vencidos, e com boa pena, com boa pena... 
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A mulher, ouvindo estrelas...

Por Elaine Tavares

Jurara nunca mais beber. Não queria mais o mundo girando, girando, a boca solta, os pés trôpegos, a mente em voo livre. Haveria de ficar no chão. Desde pequena lhe diziam que andar pelo caminho das estrelas era coisa de louco. Ela tentara fugir. Não conseguira. Aos sete anos vira seu primeiro disco voador. Ninguém acreditara. Mas, na noite escura, lá estava ele. E mesmo quando no entardecer de um quente verão, quando todos viram aquele grande charuto cheio de janelas passando devagar, insistiram em negar. Ela ficara sozinha, olhando a coisa sumir no horizonte, rezando para que dali saísse um raio de luz e a levasse para sabe-se lá onde.
Sumida entre livros de Asimov e revistas que falavam sobre UFOS ela passou a infância e a adolescência. Eram seus amigos mais leais. Perry Rodan e suas peripécias, capitão Kirk, Spock, as mais incríveis criaturas dos planetas mais distantes. Eram suas redes a embalar a solidão e a incompreensão para as coisas do mundo “normal”. Mas, nesse mundo secreto não havia tristezas. Só esperanças de que um dia o mundo pudesse ser, de fato, habitável aos seres sensíveis capazes de falar com e ouvir estrelas, tal como dizia Bilac.
O tempo passou, a guria cresceu, o disco não veio, o mundo estragou. Tempos de rede não se prestam a solidões. Os edifícios escondem o céu, as estrelas sumiram, não falam mais. As palavras desconexas que reverberam na cabeça ninguém mais sabe dizer de onde vem. “Essa aí nunca foi normal”, dizem as vizinhas. E ela sorri, agradecida. Nunca quisera a normalidade de um mundo em escombros.
O cabelo embranqueceu, mas as velhas revistas seguem na cabeceira. As aventuras de Rodan para salvar a Terra ainda povoam seu mundo de teias de aranha. Quando é de noite, e todos dormem, ela sai pela rua a quebrar lâmpadas – única forma de ver o céu numa cidade feérica. Até ontem a acompanhava um garrafa de vodka, da boa. Por algum motivo desconhecido ela se acercara mais do que a pinga local. Talvez pela sonoridade. VOD-KA. Palavra doida, estranha, sensual.
Mas agora decidira. Por todos os deuses do Tahuantinsuyo. Não mais emborcaria o líquido quente e queimador. Haveria de saltitar pela rua como sempre fizera, mas o faria de cara. Já não tinha mais medo de não ser normal. Tomaria, como Raul, todos os banhos de chapéu. E falaria com os sleestaks, os vulcanos, encontraria mestre Ioda, voaria na Milenium Falcon. Cometeria todas as loucuras. Quem nesse mundo pode se arvorar em dizer o que é certo? Como podem impedir um ser de ouvir estrelas e dançar nas estradas de areia?
Nessa manhã ninguém estranhou quando ela saiu feito uma guerreira klingon, toda pintada. Deixara a casa arrumada, ajeitara o quintal. Na rua adormecida, jamais se poderia supor o caminho empreendido. Subiu devagar o morro do lampião, piou com os passarinhos, grunhiu com os bugios. Tomou banho de cachoeira e se deitou nua na relva verdinha. Decidiu esperar pelo raio. E ele veio, ao fim da tarde, quando as formigas já faziam caminho pelo corpo branquinho. Contam que ela foi levada por algum disco voador, e é bem possível. Nunca mais foi vista. O certo é que lá para os lados do lampião, há uma estranha árvore, com formas de mulher, que parece sorrir. Tem gente que jura que é ela e que em noites de lua clara, as bruxas cantam e dançam no lugar. Outros há que juram vê-la nas noites escurar a quebrar as lâmpadas, cantando canções sertanejas. Vai saber!...
Acompanhe o Blog da Elaine.
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Regina, mulher-loba do Brasil

Por Amílcar Neves*

Lobas são extremamente ciosas dos seus filhotes. Ou então: lobas são selvagemente ciosas. São mansas e pacíficas enquanto o mundo se lhes apresenta manso e pacífico. O problema é que elas se dão ao hábito de pensar e, ao pensar, tomam partido e definem-se criticamente frente a esse mesmo mundo. E ele que se comporte! Nem sonhe em sair da linha!
Os filhotes da Regina são os seus alunos, a Literatura (mais necessária e carinhosamente aquela próxima, feita em Santa Catarina) e, por consequência dos cuidados anteriores, os escritores catarinenses. Estes filhotes é que lhe importam.
Regina, loba, preocupa-se. Tem consciência política (não se trata aqui de partido político, é importante deixar bem claro), posiciona-se filosoficamente no meio em que vive, em que trabalha com uma dignidade que muita gente não tem para mostrar, no meio em que paga seus impostos como penitência para viver e participar da sua rua, do seu bairro, da sua cidade.
Com esse dinheiro, com seu imposto, paga o salário de vereadores e servidores públicos que têm a obrigação de considerar suas opiniões, ao invés de, numa forma simplista, demagógica e autoritária, ameaçá-la de processo judicial por "entravar a máquina pública" ao impedir, com sua força de mulher e sua coragem de ser humano, a "limpeza de um terreno público" no Estreito.
O terreno público em questão é uma área com árvores que abriga um sítio arqueológico protegido pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Acontece que a gerente da loja vizinha ao sítio, loja que vende a mais famosa marca de motos do mundo, decidiu limpar o terreno público ao lado. "Vive cheio de usuários de droga", foi a bandeira que ela levantou. Como o local estaria "desocupado", dita senhora dá a qualquer um o direito de supor que ela imaginava abrir ali um espaço informal e gratuito para servir de estacionamento exclusivo aos seus abastados clientes. Já que a loja naturalmente será contribuinte dos cofres públicos, a gerente achou-se no direito de acionar seus "contatos", de maneira informal (por que tanta burocracia, não é mesmo?), a fim de conseguir autorização para a limpeza - limpeza arrasadora com patrola, como um corte de cabelo com máquina zero.
Um vereador, que já deixara a secretaria municipal ligada ao caso para candidatar-se à reeleição, autorizou verbalmente o desmate, o desmonte, a "limpeza" de tolerância zero com o terreno - atribuição e autoridade de que ele já não mais dispunha, da mesma forma que não disporia ainda que estivesse no exercício do cargo, simplesmente por tratar-se de um sítio arqueológico: um patrimônio público (não do poder público) de interesse histórico.
Regina Brasil, mulher-loba, escolada, que dá um monte de aulas, educa pessoas e ensina-lhes cidadania, desconfiou quando retiraram a tela que protegia o terreno. No dia seguinte, bem cedo, a patrola iniciou a devastação. A professora correu, pôs-se à frente da máquina e impediu que o crime se consumasse em sua totalidade. Ela foi fotografada (as fotos saíram na imprensa e circulam pelos caminhos da internet), aplaudida e consagrada como heroína.
Mas as pressões sobre ela aumentam, e serão maiores assim que baixar a poeira da publicidade que envolve o seu ato. Como a ameaçou o pessoal da loja de motos, o que a forçou a registrar Boletim de Ocorrência na delegacia do bairro, "Você não sabe do que somos capazes! Você tem certeza que quer essa incomodação para o resto dos seus dias?"

*Amílcar Neves é escritor recém empossado na Academia Catarinense de Letras. Crônica publicada na edição de 2.5.2012 do jornal Diário Catarinense (Florianópolis-SC). Reproduzido com autorização do autor.

Praia do Fogo (Sambaqui). Fotos: Celso Martins