9.11.09

D E S A B A F O S


Por Emanuel Medeiros Vieira


APOSENTADOS: A crueldade imposta aos aposentados pelo governo Lula lembra o arrocho imposto a eles pelo consórcio PSDB/PFL (atual DEM).

Creio que é ainda mais grave. Porque o prometido era absolutamente diferente.

Porque a gênese do PT era a defesa dos humilhados e dos ofendidos.

O que se viu na sessão da última quarta-feira (4 de novembro) da Câmara dos Deputados foi um festival de hipocrisia que deixaria ruborizado qualquer sepulcro-caiado.

Alegava-se com mil tergiversações e jogos de palavras, de que não havia dinheiro para aumentar os vencimentos dos aposentados.

Não vou reconstituir a sessão.

Vou lembrar uma declaração do Lula numa entrevista dada antes das eleições, na rádio CBN.

Perguntaram a ele se faria a reforma da Previdência.

Ele respondeu: “Prefiro que Deus me mate.”

Fez.

Era o interesse dos grandes bancos e das seguradoras privadas.

Todo mundo sabe que quando o presidente diz que é o “pai dos pobres”, no seu inconsciente está declarando: “sou a mãe dos ricos.”

E foi melancólico ver deputados (eu conheço alguns da Bahia) que foram eleitos pro professores, aposentados e outras categorias, fugirem do plenário.

Foi vileza demais.

Já disse aqui: não acredito na “neutralidade” da linguagem.

É melhor lidar com gente que fala às claras, com inimigos declarados.

Os piores são os que não são frios nem quentes. Que nunca se assumem.

Que lavam as mãos como Pilatos modernos.

Tem gente que diz que faço jogo da “direita”.

Lógico, não espero louvores de setores do PT que pegaram “boquinhas” em SC e aqui no Planalto. Elogios dessas pessoas desabonariam a minha biografia.

Só quero que não subestimem a nossa inteligência e que tenham consciência
de que muitos brasileiros sabem o que eles estão fazendo.

Recordo sempre da visão de Flaubert: para ele, os seres que assumem autenticamente as suas posições, que são fiéis a si mesmos, os que possuem consciência crítica e não vieram ao mundo para passear, terminarão a vida com vários desafetos.

Isso não importa.

O que me exaspera é o raciocínio estreito, obtuso mesmo, de pessoas que pareciam esclarecidas, como professores universitários, gente da “academia”, formadores de opinião.

E que se calam ou defendem todas as posturas do Lula ou qualquer asneira que ele diga porque veio da “pobreza”.

Pobreza não é álibi para a ignorância, para a má-fé, para a traição de princípios.


São seres que carecem de leituras básicas. O único raciocínio que vem a mente destas pessoas é lembrar: o PSDB também fez!

O PSDB privatizou! O PSDB também têm mensaleiros!

É escarnecer da nossa inteligência. É como se perversidades passadas legitimassem patifarias atuais. E ninguém aguenta mais o discurso da “herança maldita”.

Índices de popularidade não me dizem nada. Médici também os tinha, como os ditadores stalinistas do Leste europeu.

Há muito tempo, um ladrão foi salvo pela plebe, enquanto outro homem cuja mensagem permanece há mais de dois mil anos foi crucificado.

Vou mais longe: estudando a História do Brasil recente e em especial a da ditadura militar, cada vez mais me convenço que a escolha de Lula foi uma estratégia maquiavélica do “satânico Dr. Go”.

Refiro-me ao mais astuto e inteligente estrategista da ditadura, o “bruxo” Golbery da Costa e Silva.

Lula era um amortecedor de tensões, nunca foi socialista.

Era a maneira de entregar os anéis e não perder os dedos.

Perder os dedos seria a escolha de um verdadeiro socialista.

Não é paranóia.

Só peço uma coisa: discordem, mas antes estudem o período.

Ah, o Lula também declarou que quem é de esquerda depois dos 50 anos é porque sofre de doença mental...

O nosso impagável presidente (é preciso sorrir!) também disse que se o Bush tivesse falado antes com ele, não teria invadido o Iraque.


Serei claro: não há dinheiro para os aposentados.

Mas há para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas, para o avião luxuoso do Lula, para a suas infindáveis viagens, para pagar mensaleiros, para tudo o mais.

Não falo do botoxs da primeira-dama, porque devem ter sido pagos com dinheiro privado. Ela não fala. Mas isso é um benefício para a inteligência humana.

Mais triste é ver como ficaram hipocritamente calados em relação aos aposentados, entidades, partidos e centrais sindicais.

Poderiam ter defendido os seres mais vulneráveis, àqueles que mais precisam no crepúsculo de suas vidas. Mas talvez tenham sido “calados” com o vil metal.

Entidades de passado combativo foram completamente aparelhadas.

Falo da CUT, de outras centrais sindicais, da UNE (triste e subserviente).

E o PCdoB? Será que ainda se considera um partido de “esquerda.”?

Enquanto isso, o ministro dos Esportes (deste partido) se confraterniza com Paulo Maluf em festas de aniversário.

Não adianta as pessoas se proclamarem socialistas e de esquerda em mesa de bar.

O que vale não é a retórica. É o caráter, a fidelidade aos princípios.

Insisto: é a ética pessoal de cada um que legitima o nosso caminho.

Pareço um moralista? Sou. Sim, porque creio que nossa trajetória no planeta só será iluminada com dignidade, conhecimento e solidariedade a todos os danados da terra. Não é “ideologia” pela “ideologia”. Isso é papo de papagaio analfabeto.

Que em 2010 esses parlamentares que, com marolas regimentais, adiaram a votação sejam lembrados. Como os que se omitiram. E que seus nomes sejam colocados em praça pública, com o epíteto de traidores e de Judas.


MARIGHELLA: Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em São Paulo, numa emboscada comandada pelo mais notório torturador da ditadura militar.

(Não vale a pena citar o seu nome. Caiu na vala comum do esquecimento, onde deveriam ficar os canalhas e malditos.)

Baiano, começou a militar cedo, e já como estudante de engenharia sofreu brutais torturas nos cárceres do Estado Novo.

Foi combativo deputado na Constituinte de 1946 (com Jorge Amado).

Nunca é demais lembrar a sua coragem, a sua dignidade e a sua devoção ao povo brasileiro, mesmo que algumas opções possam ter sido equivocadas.

Lembrando o episódio, é preciso insistir para que os arquivos da ditadura sejam abertos, como o foram os dos países vizinhos.

Formulações e sentenças da ONU e da OEA já indicaram que torturas constituem crimes contra a própria humanidade, não sendo passíveis de indulto, anistia ou prescrição.

No preâmbulo da Declaração Universal da ONU, de 10 de dezembro de 1948, está reafirmado com todas as letras o direito dos povos recorrerem à rebelião contra a tirania e a opressão.

É preciso reabrir o diálogo com as novas gerações, para que a verdade histórica seja restabelecida.

De passagem: como catarinense, senti-me profundamente envergonhado com a visão de presos sendo espancados da maneira mais vil em cárceres do meu estado natal.

Qualquer governante que se considere honrado e humanista, está eticamente obrigado a punir exemplarmente esses torturadores.

(E sem subterfúgios, jogos de palavras ou defesas corporativas.)

Ninguém pode se omitir.

Todos os membros do secretariado estadual, deputados estaduais e federais, senadores do Estado, presidente de órgãos públicos, jornalistas, cronistas, formadores de opinião e todos os homens de bem “estão obrigados” a manifestar o seu repúdio.

Quem calar não deixará de ser um cúmplice por permitir que ignomínias de tal natureza se repitam.


METÁFORA: Creio que o Congresso ou uma assembléia legislativa são metáforas das qualidades e dos defeitos de um povo. Nem mais nem menos. Não é possível terceirizar responsabilidades.

Se jogo lixo pelo carro ou do ônibus; se dirijo falando ao celular; se não obedeço aos sinais de trânsito; se invado vagas destinadas a idosos e a deficientes; se pago propina a policiais para não ser multado; se compro cocaína na noite de sábado e frequento passeatas pela paz (soltando pombinhas!) no domingo; se não respeito filas de bancos, de cinema ou de outra natureza; se não pago os direitos trabalhistas das domésticas; se trato mal os humildes, não tenho qualquer ética pessoal para reclamar dos governantes, do Congresso, da Assembléia Legislativa, das câmaras de vereadores. Não posso reclamar de nada.

Devo ser a mudança que desejo para o mundo.


AMAR: “O verbo amar é um dos verbos mais difíceis de conjugar.

O seu passado não é perfeito: o seu presente é apenas indicativo; e o futuro é sempre
condicional.” (Jean Cocteau)


Emanuel Medeiros Vieira. Santo Antônio de Lisboa. Inverno de 2009.

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