6.6.09

SOBRE
Olhos Azuis - Ao sul do efêmero


Por José Antônio Zago

Há mais de uma década tenho contato com os textos de Emanuel Medeiros Vieira. Recentemente li o primeiro volume de suas memórias, sobre o qual escrevi algumas linhas e as enviei ao autor.

Agora, Emanuel nos brinda com o seu livro Olhos Azuis – Ao sul do efêmero –, pela Thesaurus Ed./FAC, Brasília, 2009, 292 páginas.

Eu uso o verbo brindar porque o texto faz justiça a isso.

Misto de romance, memórias, ficção, relato do real e, sobretudo, da própria construção da narrativa.

Emanuel debruça sobre si mesmo para de forma catártica, como que retirando camadas e camadas da memória, num processo de elaboração, para o encontro de uma alma límpida, tal qual vivenciada na infância. Não se trata de redundância de alguns temas, contudo de assinalar, evidenciar e não deixar no esquecimento certas passagens. Verdadeiras, e não mera figura de retórica, essas passagens. Num certo sentido, cada passagem significa um triunfo da vida sobre a morte. Em algumas delas não necessariamente sobre a morte de ideais, mas da morte do corpo mesmo. E a lembrança de companheiros associados, ou melhor, irmanados na mesma busca: Canora e Wanda.

Idas e vindas, retorno à figura paterna. Doces, cigarros, conversas lembranças. Mas, nada disso apaga, pois foram momentos gravados na eternidade do e pelo autor; as andanças por Porto Alegre, São Paulo... Júlia, figura central na narrativa. Alter-ego de Emanuel? Seu anima, num linguajar junguiano? Ficção ou memórias do real?

Não importa muito se ficção ou se memórias. Emanuel expõe de maneira crua suas andanças. Não andanças sem rumo, porém bem estabelecidas. Nelas a busca da liberdade e do amor. A alma do revolucionário da liberdade e, ao mesmo tempo, a saborosa “prisão” da paixão. Os extremos. A mocidade e a madureza da vida De um lado a rudeza de questionar e lutar por direitos humanos e democráticos; de outro, a do gesto adolescente de fazer de tudo para a amada, de comprar flores, de passear de mãos dadas, de amar sem conseqüências.

Mas esses extremos aparecem também nos relatos sobre as visitas nos “porões” da (des) humanidade e na atual situação sócio-econômica que, para variar, mantém os privilégios dos que sempre tiveram a maior parte do bolo. Isso também é (des) humanidade. Afinal, toda a sociedade é fruto da construção humana e des-humana.

O romance de Emanuel trouxe-me à mente lembranças de quando li a Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. O povo tcheco esmagado pela invasão Rússia cria resistências de imediato. É um peso tão concreto e tão sentido que automaticamente, ou seja, prontamente, cria resistências. Mas, a mulher não sente o peso do amado durante o ato do amor, porque este enleva, anestesia. É um peso de leveza. Contudo, o peso da ideologia alheia é leve, não perceptível, mas é um fardo ou peso tamanho que nem se percebe que está nos ombros.

Percebi essas mensagens no mais novo romance de Emanuel. As lutas contra a ditadura, as torturas e as mortes por se pensar diferente da ideologia imposta. As lutas para manter ou para compreender o amor, a perda irreparável que parece sem sentido. Por que extinguir a própria vida? Como escreveu Emanuel, quer ter, enquanto viver, condições para escrever e não ficar cego para poder ler a vida toda. Isso sumariza a celebração da sua vida, que é a produção literária. Essa produção que permite expor suas dores, amores, paixões, amor filiar, amor fraternal, ideais... Essa produção que permite tornar público o quanto é humano no sentido mais transcendental da palavra.

Olhos Azuis, tal como nosso firmamento, azulado porque contém aquilo que nos mantém vivos (nem percebemos o quanto o oxigênio é importante e vital), é um convite à celebração da vida. Mas da vida com sentido, da vida com significando, sabendo por que se vive e para quê se vive. Pareceu-me essa, não só neste texto, mas em toda a sua obra, a linha que costura o romance. Por isso, utilizei o verbo brindar no início. É um texto que brinda a vida. Viver concretamente é nascer, crescer, reproduzir e morrer? É muito disso. Mas, não é apenas isso. Vida envolve alegria, dores, idéias, paixões, inteligência, no dizer de Kierkegaard “vitórias precárias e derrotas provisórias e sempre renascentes”, enfim, é muito mais que um ciclo que observamos em outros seres vivos.

Assim, para entender Olhos Azuis é preciso ir mais além do óbvio, porque o autor quer nos passar para além das aparências das escritas, das palavras, da narrativa. Entendo, então, que o material que constitui a linha que costura o romance é especial. Fica muito óbvio, quando se vai além do óbvio, que o romance é um questionamento sobre a juventude que hoje carece de ideais. A juventude esmagada pela eletrônica, pelo cartão de crédito; um peso não sentido porque está anestesiada exatamente pela ausência de ideais, substituídos, é evidente, pela ideologia do tudo pronto ou do imediato. Como se a vida não precisasse ser construída bloco a bloco de história pessoal numa conjuntura social, mas como se a vida de cada um fosse pré-definida, sem história singular, como larvas processionárias.

Não sei se minha compreensão do romance está de acordo com o que o autor planejou passar aos leitores. Não sou escritor, porém fico em dúvida. Penso: quem escreve quer passar o que sente e elabora esses sentimentos, independente do que irá entender aquele que o lê.

E é isso, na minha simples maneira de ver literatura que a entendo. Para mim é isso que diferencia o escritor do escritor. E esse texto, mais uma vez, mostra que Emanuel é um escritor diferenciado.

* José Antônio Zago, piscólogo e escritor.



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Sambaqui por volta do meio-dia
(Florianópolis-SC, 6.6.2009, sábado)
















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